Trabalhadores
Atualizada, "lista suja" do trabalho escravo chega a 294 nomes
Publicado em 04.01.11 - Por Bianca Pyl, Daniel Santini e Maurício Hashizume, do Repórter Brasil
Cadastro
de empregadores flagrados com escravos atinge número recorde e reflete
impacto indesejado do avanço da monocultura e de grandes projetos
A
"lista suja" do trabalho escravo, cadastro de empregadores pegos em
flagrante na exploração de trabalhadores em condições análogas à
escravidão, nunca teve tantos nomes. Atualizada nesta semana, a relação
cresceu com a entrada de 52 novos registros e chegou ao recorde de 294
nomes. Entre os que entraram estão alguns dos principais grupos
usineiros do país, madeireiras, empresários e até uma empreiteira
envolvida na construção da usina hidrelétrica de Jirau. A lista inclui
ainda médicos, políticos, famílias poderosas e casos de exploração de
trabalho infantil e de trabalho escravo urbano, que será tema de
reportagem especial da Repórter Brasil nos próximos dias.
Após
serem flagrados explorando mão-de-obra escrava, todas as pessoas e
empresas tiveram chance de defesa em processos administrativos. Somente
depois de esgotados todos os recursos, foram incluídas no cadastro.
Entre os novos registros, há casos como o de Lidenor de Freitas Façanha
Júnior, cujos trabalhadores, sem opções, bebiam água infestada com rãs, e
o do fazendeiro Wilson Zemann, que explorava crianças e adolescentes no
cultivo de fumo.
Entre os estados com mais inclusões nesta
atualização estão novamente o Pará e o Mato Grosso, com nove e nove
nomes inseridos, respectivamente. A incidência do problema no chamado
arco do desmatamento demonstra que a utilização de trabalho escravo na
derrubada da mata para a expansão de empreendimentos agropecuários segue
presente.
A inclusão na "lista suja" limita o acesso a crédito
em instituições públicas e privadas, e também dificulta negociações
comerciais. As empresa signatárias do Pacto Nacional para a Erradicação
do Trabalho Escravo, dentre as quais estão alguns dos principais grupos
empresariais do país, assumiram o compromisso de não comprar mais de
fornecedores cujos nomes estejam no cadastro.
Os empregadores
permanecem na lista por pelo menos dois anos, período no qual serão
monitorados. Após este prazo, somente aqueles que sanarem as
irregularidades, quitarem as multas e não reincidirem na exploração de
escravos serão excluídos. Nesta atualização, apenas dois nomes foram
retirados do cadastro (Dirceu Bottega e Francisco Antélius Sérvulo Vaz),
o que pesou para que a relação chegasse a quase 300 registros.
Escravos da cana
Entre
os destaques da atualização estão libertações que chamam a atenção pelo
grande número de escravos resgatados em plantações de cana-de-açúcar.
Só na Usina Santa Clotilde S/A, uma das principais de Alagoas, foram
flagrados 401 trabalhadores em situação degradante em 2008. Este não é o
único caso de falta de condições de trabalho adequadas em frentes de
trabalho organizadas para o corte em latifúndios especializados em
monocultivo.
Também entra nesta atualização a Usina Paineiras,
que utilizou 81 escravos em Itabapoana (RJ) em 2009. Um ano após o
flagrante que resultou nesta inclusão, a empresa comprou a produção da
Erbas Agropecuária, onde foram flagrados 95 trabalhadores escravizados.
Em seu site, a usina afirma ter preocupação com os empregados e faz
propaganda do seu "Plano de Assistência Social".
Mesmo com o
aumento da preocupação social por parte das usinas, real ou apenas
declarado, o setor ainda emprega mão-de-obra escrava. Recentemente,
foram encontrados escravos até mesmo em colheitas mecanizadas de cana. Além
das usinas, outras empresas incluídas nesta atualização também têm o
costume de apregoar ações sociais na internet. É o caso da Miguel Forte
Indústria S/A, flagrada explorando 35 trabalhadores, incluindo três
adolescentes, na colheita de erva-mate em Bituruna (PR). A madeireira,
que mantinha o grupo em barracões de lona sob comando de "capatazes",
anuncia na sua página que "o apoio a projetos sociais que promovem a
cidadania e o bem-estar, principalmente entre a população carente,
mostra o comprometimento da Miguel Forte com os ideais de uma sociedade
mais justa e humana". À frente da empresa, Rui Gerson Brandt, acumula o
cargo de presidente do Sindicato das Indústrias de Papel e Celulose do
Paraná (Sindpacel).
Hidrelétrica de Jirau
Não
é só na monocultura ou no campo que os flagrantes acontecem. As
condições degradantes em projetos bilionários do país têm sido uma
constante e, nesta atualização, uma das empreiteiras envolvidas na
construção de uma hidrelétrica também entrou na lista. A Construtora BS,
contratada pelo consórcio Energia Sustentável do Brasil (Enersus), foi
flagrada utilizando 38 escravos na construção da Usina Hidrelétrica de
Jirau.
Além de enfrentarem problemas relacionados aos
alojamentos, segurança no trabalho e saúde, os empregados ainda eram
submetidos a escravidão por dívida, por vezes em esquemas sofisticados
que envolvem até a cobrança por meio de boletos bancários, conforme
denunciado pela Repórter Brasil.
Mesmo após o flagrante, as
condições de trabalho não melhoraram, segundo denúncias recentes. Em
abril deste ano, um grupo de 20 trabalhadores procurou o Sindicato dos
Trabalhadores da Construção Civil de Rondônia (Sticcero) alegando que a
BS não havia pago o aviso prévio e eles estavam dormindo no galpão da
Construtora, sem ter como voltar para casa. Uma liminar chegou a
bloquear os bens da empresa em 2011.
O isolamento, aliás,
continua sendo utilizado como ferramenta para escravizar pessoas. Nesta
atualização da lista, foi incluído Ernoel Rodrigues Junior, cujos
trabalhadores estavam em um local de tão difícil acesso que foi
necessário um helicóptero para o resgate dos trabalhadores.
Entre
os libertados estavam dois adolescentes de 15 e 17 anos e uma de 16
anos. Para chegar no local em que o grupo estava, foi necessário
percorrer a partir de São Félix do Xingu (PA) por 14 horas um caminho
que contava com uma ponte de madeira submersa, balsa e estradas de terra
em condições tão ruins que foi necessário o uso de tratores para
desatolar alguns dos veículos. De acordo com os relatos colhidos pela
fiscalização, todos tinham medo de reclamar porque o fazendeiro e o
segurança da propriedade andavam armados. Para que conseguisse fazer a
denúncia, um trabalhador explorado conseguiu fugir e teve de caminhar
durante seis dias pela mata e por estradas de terra.
Família Peralta
Outro
destaque na atualização da "lista suja" neste ano é a inclusão de
Fernando Jorge Peralta pela exploração de escravos na Fazenda Peralta,
em Rondolândia (MT). O Grupo Peralta é um conglomerado empresarial
poderoso, do qual fazem parte a rede de supermercados Paulistão, a
Brasterra Empreendimentos Imobiliários, as concessionárias Estoril
Renault/Nissan (em Santos, Guarujá e Praia Grande), os shoppings Litoral
Plaza Shopping e Mauá Plaza Shopping (cuja construção, na época,
envolveu uma denúncia de propina), a Transportadora Peralta (Transper) e
a PRO-PER Publicidade e Propaganda, só para citar os principais ramos
de atividade do grupo.
Os Peralta começaram os negócios na
década de 1950 em Cubatão (SP). Em 2006, o escravagista Fernando Jorge
foi um dos homenageados pela Câmara de Cubatão na comemoração dos 50
anos da família no Brasil. O flagrante que levou Fernando Jorge à "lista
suja" aconteceu em 2010 e envolveu a libertação de 11 trabalhadores de
sua fazenda.
Inclusões e Exclusões da "Lista Suja" do Trabalho Escravo
Entraram em 31/12/2011
Agro Pastoril Novo Horizonte S/A 78.231.701/0009-86 Antônio Aprígio da Rocha 044.352.903-59 Antonio Carlos Carvalho da Silva 025.346.492-72 Antônio Erisvaldo Sousa Silva 848.437.303-78 Antonio Sabino Rodrigues 542.529.626-68 Carlos Augusto de Freitas 173.008.601-25 Carvoaria Chapadão Ltda. 11.007.755/0001-34 Clauber Almeida Lima 243.485.702-72 Cláudio Augustos Rodrigues 026.484.708-32 Clézio Oliveira Naves 841.635.001-97 Construtora BS Ltda. 00.521.472/0003-51 Construtora Talaska Ltda. 08.722.775/0001-82 Edmar Koller Heller 239.538.379-15 Ernoel Rodrigues Junior 478.378.881-20 Estrela Agroflorestal Ltda. 79.441.168/0001-92 Evanildo Nascimento de Souza 242.809.925-68 Fazenda Brasnor Agropecuária S/A 04.885.034/0001-61 Fernando Jorge Peralta e Outros 017.518.598-00 Francisco Costa da Silva 154.167.984-91 Francisco Silva Cavalcante 040.486.522-49 Gilson Afonso dos Santos 195.532.425-53 J. L. Zanetti ME – Hotel São Marcos 07.264.587/0001-95 José Gomes dos Santos Neto 023.090.564-13 José Palmiro da Silva Filho 111.577.121-34 José Rodrigues dos Santos 598.157.285-04 Laert Bolsoni 011.886.158-15 Lidenor de Freitas Façanha Júnior 253.380.723 - 00 Luiz Carlos Brioschi 379.675.257-87 Luiz Geraldo Ferreira ME 80.031.263/0001-97 Manoel Marchetti Ind. e Com. Ltda. 84.148.436/0005-46 Manoel Roberto de Almeida Prado 048.049.701-00 Marcus Aristóteles Zilli 041.320.049-37 Marcus Aurélio Caetano 547.704.326-15 Marizete Alves Silveira Araraquara ME 03.335.501/0001-17 Miguel Forte Industrial S/A-Papéis e Madeiras 81.645.525/0005-00 Nelson Luiz Pereira 949.100.306-20 Olegário Germano Ullmann ME 73.282.154/0001-05 Osmar Brioschi 752.194.507-78 Osmar Richter 277.821.079-20 Ovídio Octávio Pamplona Lobato 008.492.602-30 Pedro Eustáquio Pellegrini 350.483.286-04 Reniuton Souza de Moraes 248.452.561-34 Rui Carlos Dias Alves da Silva 050.386.934-15 Sormany Amorim de Souza 557.670.605-68 Tarcio Juliano de Souza 654.016.702-49 Thiago Neiva Honorato 003.308.741-52 Transportes Ari Barbieri Ltda. 72.316.540/0001-90 Usina Paineiras S/A 27.777.903/0001-30 Usina Santa Clotilde S/A 12.607.842/0001-95 Valdivino da Rocha 169.919.661-34 Viderlândio Rodrigues dos Santos 307.338.122-87 Wilson Zemann 791.249.419-72 Saíram em 31/12/2011 Dirceu Bottega 159.095.909-44 Francisco Antelius Servulo Vaz 080.277.733-34
Os
integrantes da família Peralta não são os únicos que receberam
homenagens após denúncias de uso de escravos. Luiz Carlos Brioschi e
Osmar Brioschi, que também entram na lista nesta atualização, foram
flagrados se aproveitando de 39 trabalhadores na colheita do café em
Marechal Floriano (ES). Eles mantinham os empregados em regime de
escravidão por dívidas e em condições extremamente precárias de trabalho
e vida. Dois dias após a libertação ter sido divulgada, Osmar Brioschi
esteve entre os homenageados com placas e diplomas na Assembleia
Legislativa do Espírito Santo pelo "trabalho realizado em favor do campo
capixaba", por iniciativa do deputado Atayde Armani (DEM-ES). Devastação ambiental
Outro
aspecto reforçado pela atualização da lista é o elo entre escravidão e
devastação ambiental. O uso de escravos em grandes projetos de
desmatamento e em áreas com conflitos agrícolas é bastante comum. Desta
vez, foi incluído na relação Tarcio Juliano de Souza, apontado como
responsável pela destruição de milhares de hectares de floresta
amazônica nos últimos anos.
Ele é considerado pela Polícia
Federal (PF) responsável por montar um esquema para desmatar cerca de 5
mil hectares de floresta nativa na região de Lábrea (AM), onde mantém a
Fazenda Alto da Serra. Ele já chegou a ser preso em Rio Branco (AC)
pelos crimes de redução de pessoas a condições análogas à escravidão,
aliciamento de trabalhadores e destruição de Áreas de Preservação
Permanente (APPs) e foi denunciado por tentar comprar um fiscal. Na
época, o superintendente regional do trabalho Dermilson Chagas declarou
que Tárcio estava à frente de um "consórcio de fazendeiros" do Acre
formado para transformar grandes áreas de Lábrea (AM) em pastos, com a
utilização criminosa de escravos para o desmate, para criar gado bovino.
Também consta na inclusão a empresa Manoel Marchetti Indústria e
Comércio Ltda, pelo uso de 15 escravos em Porto Velho (RO). Trata-se de
um grupo empresarial que, no começo da década de 2000, no comando da
Fazenda Ipê, em José Boiteux (SC), envolveu-se em disputa por terras com
uma comunidade indígena da reserva Duque de Caxias. Na ocasião, a Funai
acusou exageros por parte da Polícia Militar na expulsão dos índios do
território em disputa. Mesmo após o flagrante de trabalho escravo em
Porto Velho e o histórico de conflito com índios em Santa Catarina, o
Senado aprovou, em novembro de 2010, outorga para a a Associação
Recreativa e Esportiva Grupo Manoel Marchetti para uma rádio comunitária
por dez anos em Ibirama (SC), com voto favorável do senador Flávio Arns
(PSDB-PR).
Doutores em escravidão
Um
ex-prefeito, um ex-secretário municipal do Meio Ambiente e dois médicos
estão entre os que entraram na relação nesta atualização. O ex-prefeito
Edmar Koller Heller foi flagrado em 2010 explorando mão-de-obra escrava
em um garimpo na Fazenda Beira Rio, que fica em Novo Mundo (MT), a 800
km da capital mato-grossense Cuiabá (MT), próximo à divisa com o Pará.
Edmar foi prefeito de Peixoto de Azevedo (MT) em 2000, pelo extinto PFL
(hoje DEM). Teve seu mandato cassado após ser acusado de desvio de
recursos públicos, contratação de pessoal especializado sem licitação e
contratação ilegal de veículos automotores de auxiliares de confiança.
Em
2007, ele se envolveu em outro escândalo político e chegou a ser preso.
Como secretário de Administração da prefeita Cleuseli Missassi Heller,
sua esposa, ele foi considerado responsável por improbidade
administrativa, configurada pelo favorecimento de uma única empresa em
processos licitatórios do município. Em 2009, a Terceira Câmara Cível do
Tribunal de Justiça de Mato Grosso manteve a condenação.
Outro
político que passa a fazer parte da lista é Evanildo Nascimento Souza,
flagrado com escravos quando ainda era secretário de Meio Ambiente de
Goianésia do Pará (PA). O homem que deveria zelar pela natureza foi
flagrado explorando escravos justamente no corte e queima de madeira
para produção de carvão. De acordo com o Ministério Público do Trabalho
(MPT), foram encontrados na Fazenda RDM (onde se localiza a Carvoaria da
Mata), em julho de 2009, nove trabalhadores laborando em condições
degradantes no corte de madeira, transporte, empilhamento, enchimento
dos fornos, vedação do forno com barro e carbonização.
Os
trabalhadores não possuíam equipamentos de proteção individual (EPIs) e
estavam alojados em um barraco em péssimas condições, sujo com detritos,
restos de maquinário e peças de veículos, armazenamento de combustível,
sem separação para homens e mulheres, nem ventilação e iluminação.
Os
médicos incluídos na relação são José Palmiro Da Silva Filho, CRM 830,
flagrado com cinco escravos na Fazenda São Clemente, em Cáceres (MT), e
Ovídio Octávio Pamplona Lobato, CRM 3236, flagrado com 30 escravos na
Fazenda Tartarugas, em Soure (PA). O primeiro assinou um Termo de
Ajustamento de Conduta (TAC) acertado com o procurador do trabalho
Roberto Portela Mildner, pelo qual se comprometeu a doar R$ 20 mil para o
Hospital Bom Samaritano de Cáceres. Em caso de reincidência, o acordo
prevê multa de R$ 10 mil por escravo encontrado.
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