M�dia
Veja ameaça a democracia. Boicote já!
Por Altamiro Borges
Na sua penúltima
edição antes da eleição de domingo, dia 3, a revista Veja voltou à
carga contra o governo Lula, com o objetivo de fustigar a candidata
Dilma Rousseff e dar uma desesperada e derradeira forcinha ao tucano
José Serra. Pela quarta semana consecutiva, a capa do panfleto teve
tons terroristas. Ela mostra a estrela do PT rasgando os artigos da
Constituição que tratam da liberdade de imprensa. Abaixo da forte
imagem, a manchete garrafal: “Liberdade sob ataque”.
Nas três
edições anteriores, ela repetiu à exaustão, nos títulos e
“reporcagens”, a palavra polvo, acusando a esquerda de envolver o poder
público com seus tentáculos - mas não disse nada sobre os fartos
recursos públicos que recebeu do governo tucano de São Paulo. A revista
destacou o caso do vazamento de sigilos fiscais, numa matéria
requentada de setembro de 2009, e fez alarde com as denúncias contra a
ministra Erenice Guerra. Nenhuma palavra sobre a quebra do sigilo de 60
milhões de brasileiros, patrocinada pelas filhas de José Serra e o do
especulador Daniel Dantas.
O fantasma da “tentação autoritária”
Já
na edição desta semana, a revista preferiu encarar a provável derrota
do seu candidato para, de quebra, tentar deslegitimar um futuro governo
Dilma. O editorial adverte que a democracia corre risco, devido à
“concepção de mundo dos atuais governantes petistas em que não cabe o
conceito de jornalismo independente. Essa deformação decorre das
convicções de alguns que continuam ruminando a idéia totalitária do
leninismo”. É o mesmo chavão repetido há oito anos, numa total falta de
criatividade. Em 2004, a capa da Veja já rosnava contra a “tentação
autoritária” de Lula.
Sem apresentar provas sobre os retrocessos
na democracia, a “reporcagem” alardeia “os ataques que o exercício da
imprensa livre vem sofrendo no Brasil”. Para ela, a tentação
autoritária teria crescido nos últimos dias. “Na semana passada, a
brasa voltou a ser atiçada pelo presidente Lula e pelos dirigentes do
seu partido, secundados pelo vasto contingente de mercenários
recrutados a preço de ouro nos porões da internet”. A famíglia Civita,
que se acha acima do Estado de Direito e superior a Deus, não aceita
críticas do presidente da República, muito menos dos blogueiros.
Arrogante, raivosa e mentirosa
Após
oito anos de ataques raivosos – segundo estudo da PUC/SP, foram mais de
quarenta capas contra o governo, muitas delas criminosas, como a que
apresentou o presidente com a marca de um chute no traseiro –, a
revistinha se faz de vítima. “Lula dedicou a semana a desferir ataques
contra a imprensa com uma virulência inédita”. Coitadinha! Arrogante,
ela se jacta de “alertar sobre os abusos perpetrados por quem está no
poder”. Não faz autocrítica sobre seu apoio ao “caçador de marajás” ou
à implantação do destrutivo modelo neoliberal no reinado de FHC.
Raivosa,
ela garante que a esquerda já adentrou no “temível pântano da
censura... Ao sujar suas botas nesse lodo, Lula se aproxima do que há
de pior na política da América Latina. Ele trilha o caminho dos
caudilhos e ombreia-se com tiranetes do porte de Hugo Chávez”.
Mentirosa, Veja ainda afirma que “nos países democráticos, a liberdade
de imprensa não é um assunto discutível, mas um dado da realidade”. Só
não fala que nestes países, inclusive nos EUA, existem regras legais
para restringir os monopólios no setor e para penalizar as manipulações
midiáticas.
Urgência de uma campanha nacional
Com
mais esta edição rancorosa, a revista Veja deixa explícito que não dará
tréguas a um futuro governo Dilma. Tentará enquadrá-lo, impondo “gente
confiável”, como o ex-ministro Antonio Palocci. Caso não consiga, ela
jogará todas as suas fichas para desestabilizá-lo e, se possível,
derrubá-lo. Este é seu instinto de escorpião. A publicação da famíglia
Civita confirma mais uma vez que é avessa à democracia, ao voto
popular. Ela sim coloca em risco a liberdade.
Numa democracia,
esta revista tem todo o direito de arrotar suas baboseiras golpistas.
Da mesma forma, a sociedade tem todo o direito de rejeitar a Veja. A
cada dia que passa fica mais evidente a urgência de uma ampla campanha
de esclarecimento à população propondo o boicote deste panfleto
fascistóide. Aqui vale reproduzir o alerta do intelectual italiano
Antonio Gramsci. No artigo “Os jornais e os operários”, escrito em
1916, ele conclamou os trabalhadores a boicotarem a imprensa burguesa.
Seu texto poderia servir para a campanha atual de repúdio à revista
Veja:
Boicote, boicote, boicote!
“A
assinatura de jornal burguês é uma escolha cheia de insídias e de
perigos que deveria ser feita com consciência, com critério e depois de
amadurecida reflexão. Antes de mais, o operário deve negar
decididamente qualquer solidariedade com o jornal burguês. Deveria
recordar-se sempre, sempre, sempre, que o jornal burguês (qualquer que
seja sua cor) é um instrumento de luta movido por idéias e interesses
que estão em contraste com os seus. Tudo o que se publica é
constantemente influenciado por uma idéia: servir à classe dominante, o
que se traduz sem dúvida num fato: combater a classe trabalhadora. E,
de fato, da primeira à última linha, o jornal burguês sente e revela
esta preocupação”.
“Todos os dias, pois, sucede a este mesmo
operário a possibilidade de poder constatar pessoalmente que os jornais
burgueses apresentam os fatos, mesmo os mais simples, de modo a
favorecer a classe burguesa e a política burguesa em prejuízo da
política e da classe operária. Rebenta uma greve! Para o jornal burguês
os operários nunca têm razão. Há uma manifestação! Os manifestantes,
apenas porque são operários, são sempre tumultuosos e malfeitores. E
não falemos daqueles casos em que o jornal burguês ou cala, ou deturpa,
ou falsifica para enganar, iludir e manter na ignorância o público
trabalhador. Apesar disso, a aquiescência culposa do operário em
relação ao jornal burguês é sem limites”.
“É preciso reagir
contra ela e despertar o operário para a exata avaliação da realidade.
É preciso dizer e repetir que a moeda atirada distraidamente é um
projétil oferecido ao jornal burguês que o lançará depois, no momento
oportuno, contra a massa operária. Se os operários se persuadirem desta
elementar verdade, aprenderiam a boicotar a imprensa burguesa, em bloco
e com a mesma disciplina com que a burguesia boicota os jornais
operários, isto é, a imprensa socialista. Não contribuam com dinheiro
para a imprensa burguesa que vos é adversária: eis qual deve ser o
nosso grito de guerra neste momento, caracterizado pela campanha de
assinatura de todos os jornais burgueses: Boicotem, boicotem,
boicotem!”.
Núcleo
Piratininga
de Comunicação
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