M�dia
Papel Prensa, o fordismo nos crimes de lesa humanidade
A
presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, decidiu mexer
em um assunto explosivo. Foram cometidos "crimes de lesa humanidade" em
série, segundo consta na denúncia da promotoria argentina. Uma família
foi violentada, torturada e dela foi esbulhado um bem material - Papel
Prensa - que hoje está servindo de instrumento de luta política pela
mídia crioula e oligárquica para que a Argentina retorne a um tempo em
que as cidadãs e os cidadãos eram torturados, mortos e desaparecidos. É
como se a Folha e O Globo estivessem envolvidos em crimes de lesa
humanidade para lograr êxito no controle do papel de imprensa com o
qual editam seus diários. O artigo é de Cristóvão Feil.
Por Cristóvão Feil - Diário Gauche
A
presidente Cristina Fernández de Kirchner é uma mulher corajosa. Ela
está mexendo com o thriller mais palpitante da Argentina. Suspense
total. Ou como chamaríamos a uma história que está sendo contada desde
janeiro de 1976, por ocasião de um jantar servido pelos generais Jorge
Rafael Videla e Roberto Eduardo Viola ao bilionário casal David Graiver
e Lidia Papaleo de Graiver, então donos da empresa Papel Prensa, e
prossegue até nossos dias, com a ameaça de quebra da espinha dorsal dos
dois principais diários da Argentina? É como se a Folha e O Globo
estivessem envolvidos em crimes de lesa humanidade para lograr êxito no
controle do papel de imprensa com o qual editam seus diários.
Repito: thriller, suspense.
Ingredientes:
mortes violentas jamais explicadas, milhões de dólares (a preços da
década de 70), CIA, sabotagem, queda de avião, muitos bancos
envolvidos, a O.P.M. Montoneros, um banqueiro que financia a esquerda,
grupo Abril/Civita, organizações Bunge y Born, sequestro dos irmãos
Born, compra de bancos em Nova York, sequestro em massa da família
Graiver, tortura, extorsão, dois presidentes argentinos, não por acaso,
gorilas, assassinatos, Martínez de Hoz (que seria o cérebro do caso
Papel Prensa, e ainda vive), jornais Clarín e La Nación como
monopolizadores de todo o papel destinado à imprensa argentina, etc.
A
psicóloga de olhos verdes, Lidia Papaleo, está com 66 anos, hoje. É
viúva do conhecido "banqueiro dos Montoneros", David Graiver, morto
misteriosamente aos 35 anos de idade no acidente fatal de um avião Jet
Falcon de sua propriedade, quando viajava de Nova York, onde trabalhava
durante os dias úteis, para Acapulco no México, onde morava e convivia
com a sua família nos finais de semana. Quando morre no suspeito
acidente, até hoje inexplicado, David Graiver era dono de um império
avaliado em 200 milhões de dólares, hoje, certamente mais que um
bilhão, corrigidos. Entre suas posses se podiam somar vários imóveis
rurais e urbanos herdados de sua família judia, e mais: dois bancos na
Argentina, dois bancos em Nova York, um banco na Bélgica e um banco em
Israel. Sem esquecer a própria empresa de papel e celulose Papel
Prensa, praticamente um monopólio na fabricação e distribuição de
matéria-prima para todos os jornais argentinos.
Dudi Graiver,
como era conhecido, eram também rico em amigos. Em parte, pelo
casamento com Lidia Papaleo, uma mulher forte e influente junto ao
marido, e que havia sido companheira de um jornalista de esquerda
chamado Jarito Walker, editor da revista política El Descamisado. A
relação de Graiver com Jarito Walker lhe valeu uma aproximação com a
Organização Político-Militar Montoneros, um dos braços armados do
peronismo, através do adjunto do comandante Mario Firmenich, Roberto
Quieto.
A propriedade parcial da Papel Prensa foi conseguida em
1973, graças à intervenção de Josef Ber Gelbard, ministro de Economia
tanto dos presidentes "peronistas" Raúl Lastiri e Héctor Cámpora,
quanto do próprio Perón e Isabelita, quando o líder de massas já havia
morrido. O montonero (ex-PC) Gelbard foi um aliado determinante de
Graiver na pressão sobre os ítalos-argentinos Civita (grupo Abril) para
que estes vendessem cerca de 26% das ações da Papel Prensa. Outros 25%
das ações eram do Estado e os 49% restantes estavam pulverizadas em
cerca de 30 mil acionistas anônimos.
No conturbado governo de
Isabelita Perón (na foto ao lado com Videla e Almirante Massera),
grupos de extrema direita começam a se organizar à sombra generosa do
peronismo. Eram conhecidos e temidos como a Triple A, a rigor, forças
parapoliciais comandadas de dentro do governo de Isabelita pelo "bruxo"
José Lopez Rega. Todos eram peronistas e mesmo assim se matavam
mutuamente em plena luz do dia, ora eram os sindicalistas, os autores,
ora os Monto, as vítimas, ora a milícia fascista e palaciana de Lopez
Rega, com a discreta aprovação da presidenta Maria Estela Martínez de
Perón. E vice-versa. Os militares assistiam de camarote blindado,
prontos para intervir como porta-vozes dos interesses das oligarquias
latifundiárias e de suas próprias armas corporativas.
Numa tarde
quente de janeiro de 1976, o casal Graiver estava veraneando em seu
bangalô em Punta del Este, litoral uruguaio. O telefone toca e no outro
lado da linha estava o comandante do Exército argentino, Jorge Rafael
Videla, subordinado à temerária presidente Isabelita. O
general-comandante estava convidando Dudi e Lidia para jantar naquela
noite de verão. Eles aceitaram e seguiram para Buenos Aires de avião
alugado. No jantar, estavam os três, o casal e Videla, e juntou-se a
eles o subcomandante, general Roberto Eduardo Viola Redondo. O jantar
foi indigesto, os dois gorilas estavam comunicando ao influente casal
que o golpe estava marcado para março daquele ano, portanto, a menos de
dois meses.
E assim aconteceu o "pronunciamento militar" de 24
de março de 1976, como os jornais oligárquicos chamavam os golpes
militares na América Latina, em décadas passadas.
Desde o início
do governo de Isabelita e com as ameaças e assassinatos da Triple A, os
Graiver já haviam se mudado para o eixo Acapulco-Nova York. Mas Dudi
Graiver jamais deixou abandonado os interesses negociais e sobretudo as
propriedades na Argentina. O resgate pelo sequestro dos irmãos Born (do
grupo Bunge y Born), operado pelos guerrilheiros Montoneros em setembro
de 1974, estava investido nos bancos de David Graiver. Foram 60 milhões
de dólares que circularam pelos bancos Graiver de Buenos Aires, Nova
York, Bruxelas e Tel-Aviv. Em março de 1976, mês e ano do golpe gorila
de Jorge Rafael Videla contra Isabelita, os bancos de Graiver
remuneraram a organização guerrilheira peronista com 193 mil dólares,
só de juros, segundo o jornalista investigativo argentino, que vive na
Suíça, Juan Gasparini. Hoje, essa quantia não ficaria por menos de meio
milhão de dólares ao mês.
Nunca um golpe militar é puramente
obra de militares, limitados e parvos que são para as coisas da
política, da economia e da gestão pública como um todo. Videla, assim,
leva Martínez de Hoz, membro de secular oligarquia argentina, para
exercer o cargo de ministro da Economia. Atualmente se sabe que
Martínez de Hoz foi um dos ideólogos do golpe e do regime
autodenominado de Processo de Reorganização Nacional, ou simplesmente
Processo, que durou até 1983, abortado pela derrota argentina na Guerra
das Malvinas.
Martínez de Hoz está sendo atualmente processado
por seus inúmeros crimes, em especial os que extorquiam grandes
empresários mediante tortura para que endossassem a "venda" de suas
empresas e bens para militares influentes na ditadura que controlavam
com grande violência e crueldade. Foram dezenas de comerciantes,
proprietários rurais, industriais e banqueiros que tiveram seus bens
roubados debaixo de tortura nos inúmeros aparelhos repressivos
clandestinos das três armas militares. O cérebro deste processo
fordista de saque consentido e operado pelo aparelho estatal foi o
ministro da Economia, José Alfredo Martinez de Hoz, apelido Joe, que
está agora com 85 anos.
Pois é o método pragmático e objetivo de
Martínez de Hoz (ao lado, sorrindo com o general Videla) que foi
empregado à família Graiver para subtrair-lhe o controle da empresa de
celulose Papel Prensa. A ditadura civil-militar precisava vencer e
impor uma versão ideologizada dos atos abomináveis que cometiam. Para
tanto, nada mais justo e adequado do que creditar à mídia impressa o
papel que lhe cabe na escrita de um novo consenso, ainda que parido
pela vaca fardada da coerção. Os diários Clarín, La Nación, La Razón
(hoje extinto) já haviam sido parceiros no golpe de 24 de março, assim
como os dois jornais de Jacob Timmermann, La Opinión e La Tarde, este
dirigido pelo seu filho Héctor, ex-embaixador argentino nos EUA e atual
ministro de Relações Exteriores do governo Cristina Kirchner. Héctor
Timmermann, registre-se, está, no presente momento, assumindo uma
posição correta, reclamando justiça e pela completa solução do
misterioso caso.
No segundo semestre de 1976, nos meses
posteriores ao golpe, Lidia Papaleo de Graiver e seus familiares sofrem
pressão quase insuportável até que concordam em repassar o controle da
Prensa Papel para as empresas que representavam o Clarín, La Nación e
la Razón. Os ativos são calculados em 8,3 milhões de dólares, bem
abaixo do preço efetivo de mercado, especialmente se fosse considerado
o caráter monopolista e estratégico da empresa papeleira. Lidia cedeu
não só pela pressão sofrida, mas também pela insolvência que rondava as
demais empresas e negócios da família. A morte prematura e misteriosa
de David em agosto de 1976 desencadeou uma iliquidez em série nos
negócios dos Graiver, era ele que conduzia pessoalmente todos os
investimentos cruzados e interdependentes dos ativos financeiros que
possuiam. Lidia e familiares estavam acuados, economicamente abalados,
politicamente pressionados, e biologicamente em risco.
O
jornalista Juan Gasparini assegura que tem a mão pesada da CIA no
acidente que levou a vida de Graiver. Para ele, os militares argentinos
e Washington não iriam tolerar que o financiador ou gerente financeiro
de um grupo político considerado terrorista, como os Montoneros, fosse
dono de dois bancos no coração de Nova York e ainda por cima manejar
dinheiro mal havido sem que as autoridades pudessem sequer intervir.
Logo, a ação de sabotagem no avião foi uma saída honrosa tanto para a
Casa Branca quanto para a Casa Rosada.
Depois disso a situação
estava em plano inclinado, deslizando rápido para o completo desastre.
Culminou que em março de 1977, a repressão argentina desencadeou a
Operação Amigo, que consistiu no sequestro de 24 pessoas ligadas às
empresas Graiver. A violência se abateu sobre Lidia Papaleo e mais 23
familiares, empregados, e executivos do grupo Graiver, sendo que dois
indivíduos ligados ao falecido Dudi Graiver, de nome Rubinstein e
Sajón, já estavam mortos e desaparecidos.
Nesta fase há um
interregno de perguntas sem respostas, em parte, devido ao trauma
sofrido pela viúva de Graiver, que não quis ou não pôde se manifestar.
Osvaldo Papaleo, irmão de Lidia, sustentou por algum tempo que a Papel
Prensa foi adquirida pelo Clarín e La Nación enquanto a família Graiver
e os empregados estavam sequestrados e sendo torturados em algum covil
policial ou militar.
O certo é que Lidia Papaleo de Graiver
sofreu torturas na prisão. Um torturador perguntava sempre sobre o
dinheiro dos Montoneros, chamando-a de "guacha de mierda". O sofrimento
foi maior quando desenvolveu um tumor no cérebro, tendo sido operada no
próprio cárcere, segundo conta o jornalista Juan Gasparini no seu livro
sobre David Graiver. Lidia só foi solta em agosto de 1982, quando a
ditadura já havia perdido a Guerra das Malvinas para a Inglaterra de
Margaret Thatcher, e estava nos seus estertores, tanto que o ditador
Leopoldo Galtieri já havia renunciado. Foi sucedido ainda por outro
ditador, o último, Reynaldo Bignone, que depois passou a presidência
para o presidente eleito Raúl Alfonsín, em dezembro de 1983.
Antes
de ganhar a liberdade, Lidia passou por choques elétricos e pontas de
cigarros acesos sobre a pele nos centros militares de tortura
conhecidos como Poço Banfield e Posto Vasco, ambos na província de
Buenos Aires, sob a custódia do Departamento Central de Polícia.
Finalmente, foi submetida à farsa judicial de um Conselho de Guerra,
onde foi humilhada e acusada de crimes contra o Estado. O jornalista
Juan Gasparini garante ainda que o policial Miguel Etchecolatz, Diretor
de Investigações da Polícia Bonaerense, violentou Lidia depois de uma
prolongada sessão de tortura física e psicológica. De fato, é certo que
muitos psicopatas desenvolvem grande excitação sexual depois de
assistirem cenas de sofrimento alheio, especialmente vendo a dor
feminina.
Lidia, já em liberdade, ainda sofreria um câncer
mamário, mas isso não a impediu de se dedicar à sua profissão de
psicóloga e casar novamente, desta vez com um estadunidense chamado
Steve Tage.
Segundo depoimento de um irmão de Lidia à imprensa
portenha, ela não mexeu mais no áspero tema de sua vida porque
considerava que este é um assunto de Estado. Ela não acreditava que as
suas agruras e sofrimentos pudessem ser resolvidos por denúncias vagas
na imprensa, em livros, em instâncias partidárias, em ONGs, ou na
Justiça comum. Não, ela acredita - segundo seu irmão - que este é um
problema para o Estado argentino resolver. Tudo leva a crer que uma
mulher, Cristina Fernández de Kirchner, entendeu o recado de Lidia
Papaleo de Graiver.
Trata-se, sim, de uma questão de Estado.
Foram cometidos "crimes de lesa humanidade" em série, segundo consta na
denúncia da promotoria argentina. Uma família foi violentada, torturada
e dela foi esbulhado um bem material - Papel Prensa - que hoje está
servindo de instrumento de luta política pela mídia crioula e
oligárquica para que a Argentina retorne a um tempo em que as cidadãs e
os cidadãos eram torturados, mortos e desaparecidos.
O assunto
Papel Prensa é estratégico. É uma disputa pelo Estado. Não é de graça
que o editorial do jornal Clarín assume um tom confessional quando
disse há dois dias que "o Governo avança em Papel Prensa para controlar
a palavra impressa". É como disse um articulista do jornal Página/12
ontem, essa admissão do Clarín em Direito se chamaria "confissão da
parte" ou "relevo de provas", já em Psicologia pode-se chamar de
"projeção". De qualquer forma, é sim um mecanismo de defesa que
consiste em atribuir a terceiros ou ao mundo que o rodeia os erros ou
desejos pessoais.
A rigor, um ciclo está se fechando na
Argentina, e de resto, também em toda a América do Sul. A queda
iminente e provável do grupo midiático Clarín (jornais, rádios, tevês)
é uma parte da história que queremos ver pelo espelho retrovisor, e não
é à toa que tem como protagonistas duas mulheres fortes, Lidia e
Cristina.
(*) Este breve relato foi baseado na leitura do
livro do jornalista argentino Juan Gasparini chamado "David Graiver -
el banquero de los Montoneros" (1990), atualmente com a edição
esgotada. Você pode ler esta obra na íntegra acessando aqui
Núcleo
Piratininga
de Comunicação
—
Voltar —
Topo
—
Imprimir
|