Entrevistas com o NPC
Entrevista com Vito Giannotti: A mídia assume um peso cada dia maior como formadora ou deformadora de corações e mentes
Entrevista publicada no jornal Garra, do Sindsep (PE)
Não é de agora que se fala que a mídia está em crise. Perda de credibilidade, sensacionalismo, espetacularização dos conteúdos e incitação ao consumo são apenas alguns dos adjetivos vinculados à atuação dos veículos de comunicação, não só no Brasil, como em nível global. Mas não se pode negar o poder que representa as empresas de mídia, que, não por acaso, atendem interesses de setores da sociedade. “Toda a mídia tem dono. Dono tem interesse de classe”, sintetiza o escritor Vito Giannotti, especialista em comunicação alternativa, que concedeu a entrevista abaixo para o Sindsep. Confira.
GARRA - Há mais de 30 anos o senhor vem desenvolvendo um trabalho voltado para a comunicação, sobretudo a contra-hegemônica. Qual é a avaliação que o senhor faz hoje da mídia empresarial? VITO – A mídia empresarial está, cada dia mais, consciente de seu papel na construção e manutenção da sociedade da forma como ela está organizada. A mídia, hoje, atua como o verdadeiro partido da burguesia. O partido do sistema. A situação é, então, mais grave do que antes porque o peso da mídia aumentou muito. Há cem anos, o peso da comunicação quase se resumia a jornais, revistas e livros. Era infinitamente menor do que é hoje. Hoje, podemos dizer que não há poder sem a mídia que assume um peso cada dia maior como formadora ou deformadora de corações e mentes. É através dela que o sistema se firma e espalha suas idéias. É a mídia que consolida os valores desta sociedade, que é uma sociedade injusta e opressora para a maioria da população.
GARRA - O senhor acha que a opinião pública absorve o conteúdo da mídia de forma pacífica? Alguns autores já defendem a tese de que a recepção reage de forma crítica aos conteúdos veiculados pela imprensa. VITO - Claro que há resistência por parte do público. As pessoas não estão totalmente entorpecidas pelos valores da classe dominante. Mas não podemos nos iludir. Eu sou muito pessimista frente ao poder destrutivo da mídia empresarial. As novelas, os Fantásticos, os Faustões, Gugus e Anas Marias Bragas e o exército de repórteres policiais fazem um estrago terrível na cabeça de milhões de brasileiros e brasileiras. Vejamos o mais recente exemplo do personagem Bené na novela Viver a Vida. O rapaz decide voltar para a favela e lá tocar sua vida ao lado da mulher e do filho. Encontra trabalho e se prepara para viver a vida. É assassinado dentro da favela. Todos os seus assassinos são negros. Isso é cruel. Passa a dupla mensagem que na favela não há saída e que negros são assassinos. Qual a solução que quem assiste é levado a concordar? Cadeia para os negros e remoção para favelados. Os valores da sociedade em que vivemos são espalhados com muita competência por cada minuto de novela ou do esgoto a céu aberto que é o Big Brother. M as meu pessimismo sara logo quando vejo as possibilidades que nós temos de fazer uma comunicação que se oponha à comunicação deles. Nós chamamos esta comunicação de comunicação contra-hegemônica. Ou seja, uma comunicação que quer dar outro rumo à sociedade. Um rumo contrário ao do sistema. Um rumo que aponte para uma sociedade justa, livre, solidária, fraternal. Ou seja, exatamente o contrário da sociedade divulgada e defendida pela Veja, pela Folha de S. Paulo e pelas Organizações Globo. A nossa disputa é por construir uma sociedade socialista. Esse é o sentido de uma comunicação que disputa a hegemonia na sociedade.
GARRA - Como explicar a grande popularidade do presidente Lula, tendo a mídia como sua principal opositora? Há inclusive declarações de setores do empresariado de comunicação afirmando que a imprensa, atualmente, substitui a oposição. VITO - A popularidade do governo Lula se deve a ações concretas que beneficiaram e beneficiam milhões de pessoas. Independentemente da avaliação de quem sempre comeu suas três refeições, uma Bolsa Família de uns R$ 100,00 é um salto muito grande. Quem nunca viu a cor do dinheiro, aprecia quem lhe propiciou um mínimo de possibilidade de comprar um chinelo e um calção. O mesmo vale por várias outras medidas do governo, como o emprego. Hoje há mais emprego do que há oito anos. Então, dane-se a mídia. Ela não é onipotente, frente ao voto nas urnas. Da mesma forma como ocorreu na última eleição, nesta vamos ter um excelente laboratório para verificar o poder de convencimento da mídia.
GARRA - Toda eleição é a mesma coisa: as empresas de mídia se dizem imparciais, mas, no fundo, fazem campanha velada para determinado candidato. O que se pode esperar dos veículos de comunicação nas eleições 2010? VITO – A mídia empresarial/patronal, no Brasil, sempre fez questão de aparecer como neutra. É uma mentira total. Toda a mídia (jornais, rádios, TVs, mídias eletrônicas) tem dono. São os Marinhos, os Frias, os Mesquitas, os Civitas. E dono tem classe. Dono tem interesse de classe. No Brasil toda a mídia empresarial, em peso, sempre apoiou o projeto neoliberal mais descarado, de FHC, José Serra ou Geraldo Alckmin. Na eleição de 2010 vai se repetir a mesma coisa. Já está se repetindo, aliás. Uma curta análise do tratamento dispensado ao candidato Serra e à candidata Dilma já nos revelam que o jogo vai ser pesado outra vez. Isso se vê nos editoriais, nas escolhas das fotos, no espaço reservado para cada candidato, na escolha de notícias positivas e negativas. O jornal carioca O Globo é uma aula diária de como um jornal, embora se dizendo neutro, se posiciona em favor de um candidato, no caso o Serra.
GARRA - Então, o senhor acha que o eleitor deve ficar atento e filtrar aos conteúdos veiculados pela mídia, sobretudo em período eleitoral? VITO - Não é só no período eleitoral que o leitor precisa ficar atento às enganações da mídia empresarial. A mídia patronal é assim. Ela age assim, não porque é incompetente. Ela é competentíssima dos seus interesses coletivos de classe. O que os trabalhadores precisam entender é que a mídia não é, e nunca foi neutra. Ela tem lado, pois tem dono e dono tem classe e interesses de classe. Sempre, em tudo. No período eleitoral a prática de enganação, mentiras puras e simples ou, no mínimo, esconder dados e fatos, vai se tornar mais aguda.
GARRA - O senhor acaba de lançar um livro sobre a linguagem, Dicionário de Politiquês. VITO - Este livro parte da constatação que nós, de esquerda, muitas vezes falamos uma língua que “os normais” não entendem. Este é um problema também da direita, mas isso não me interessa. Quem são os normais? São os mais de 90% que não têm o famoso 3º Grau. Uma coisa é a língua de quem estudou 10, 15 ou 20 anos. Outra é falar ou escrever para quem ficou nos bancos da escola 4, 7, ou 8 anos. São dois mundos. Eu digo e repito, há 30 anos, que, ou nós, mais politizados, mais intelectualizados, enfim, mais estudados voltamos a falar a língua dos “normais”, ou falaremos para nós mesmos. Este Dicionário de Politiquês é uma ferramenta para quem quer reaprender a falar para os 90% da população. Este dicionário traz mais de cinco mil frases como exemplo de linguagem que precisa ser “traduzida” para a língua dos “normais”.
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