Cinema
Freud X Woody Allen: No mito do amor tudo dá certo
Em 1959, Lacan ensinava que Totem e Tabu (Freud, 1913/2004) era o único mito que a modernidade fora capaz de produzir. Esse livro de Freud nos conta sob a forma de um mito científico - feito com os rebotalhos de muitas teses da sociologia e da biologia- como a vida humana teria começado. Com o assassinato de um chefe-pai, opressor que vetava todo comércio sexual que não o concernisse diretamente, os perpetradores do crime, então irmanados, instituíram uma lei que repetia a interdição encarnada anteriormente pela figura do tirano. O nascimento da cultura é expresso pela ótica freudiana por um mito que narra um assassinato, primordial e necessário sem o qual a cultura moderna não existiria. Temos então a morte como o ponto de partida, mas e o amor, este indispensável personagem das sagas de Woody Allen? Freud não fala de amor senão como uma ambivalência afetiva frente ao chefe morto e que só aparece sob a forma do remorso pelo assassinato e nas desfigurações que engrandecem a posteriori a personalidade do pai. Os filmes de Allen também trazem um superestimação dos seus protagonistas mas às avessas do de Freud, nos quais o destino de personagens patéticas toma muitas vezes um rumo inesperado. Há contudo, sempre o amor de uma bela jovem que vem a curar a tragédia- tom sugerido pela própria trilha sonora do filme- que se abre com uma traição seguida pelo fim de um casamento de muitos anos. Trata-se de uma determinada norma possível de se reconhecer na mitologia de Allen. Mas Whatever works, sua última obra, traz uma mitologia bem mais enraizada na tradição dos mitos coletivos, sobre a qual Lévi-strauss (1955/1973) tanto teorizou. Mas antes de tudo, o filme de Allen é um mito sobre o amor, uma narrativa com impasses e mudanças radicais que o herói provoca sem o saber e que o conduzirão ao encontro de sua metade faltosa. Mas como isso acontece? O filme Whatever works começa com a auto-apresentação de um herói tão mítico quanto moderno dirigindo-se a um público que vive num mundo para além da tela. Sob o olhar pasmado de seus companheiros de fim de tarde, acostumados com suas lamúrias, a figura de Boris transmite imediatamente uma comicidade atrelada à típica misantropia carismática de que aprendemos a gostar em Allen, desde as suas primeiras sagas cinematográficas. Boris é um sessentão divorciado, de aspecto descuidado, um físico supostamente renomado, indicado ao Nobel quando ainda professor- fato que é repetido diversas vezes no filme. Sua ocupação atual contudo era "ensinar" xadrez a crianças do bairro, ressaltando a ignorância e a deficiência delas diante da magnificência de sua mente privilegiada e descontrolada, disposta a expressar sua revolta pela mediocridade da inteligência humana jogando as peças do tabuleiro sobre as cabeças de seus alunos. Mesmo seu desprezo pelas pessoas comuns, seu sarcasmo e seu mau-humor diante de quase tudo não o impedem de ter seu círculo de amizades onde pode jogar e beber algumas noites por semana. Apesar de toda a indisposição da sua personalidade, Boris aceita sob o seu teto uma bela jovenzinha, vinda do Mississipi, que fugira da casa dos pais e mendigava já tarde da noite junto à escada de seu prédio. Os poucos dias que Melody Celestine promete ficar vão se transformando em semanas e meses quando finalmente ela lhe revela seu amor. Até o momento não há nada de imprevisível na história. Boris reluta em se convencer mas acaba por desposar Melody e eles vivem um idílio conjugal até a chegada da mãe da noiva. Marietta Celestine buscara a filha por quase todo o país e seguira pistas que a levaram à Nova Iorque onde ela acreditava que a filha estivesse sendo mantida em cativeiro. Qual não é a sua surpresa quando descobre que Melody estava casada e confessamente feliz com sua nova vida e sua profissão de babá de cachorro. Marietta trouxe suas malas e contou ter sido abandonada pelo marido, que a trocara por sua melhor amiga. Falida e sem teto, só lhe restara ficar junto à filha, orando para que Jesus abrisse os caminhos de ambas. Depois desta entrada da sogra na situação inicial do mito, Allen dá a partida na engrenagem que preparara para seus personagens. Tentando abrir os olhos de Melody para o desastre que era seu marido e intentando uni-la a um jovem ator que as vira por acaso num café, Marietta se vê sob os efeitos de uma reviravolta em sua própria vida. É descoberta como uma talentosa fotógrafa, consegue um amante que se apaixona por ela, em seguida fulmina o coração de um segundo homem, e em pouco tempo os três passam a morar juntos, dividindo a cozinha, a cama e o interesse em fazer decolar a carreira de Marietta. Parece-nos aqui que o filme se aproxima do fim, tal é a harmonia em que se fecham suas etapas. Na verdade, porém, falta ainda uma outra peça do jogo mítico, o pai. O pai, que partira com a melhor amiga da esposa, reaparece disposto a reconquistá-la exatamente no dia da abertura de seu vernissage. Após o choque sofrido ao conhecer o marido da filha, há uma nova surpresa a ser assimilada por sua mente interiorana: as atuais disposições conjugais e profissionais da ex-mulher: uma fotógrafa bígama e especialista em nus. Enquanto isso, Melody não está imune às teias do destino. As investidas do jovem ator acabam por convencê-la a visitar o barco onde ele mora com um amigo, e lá eles fazem sexo e se apaixonam. Surge um conflito. Como contar a Boris que ela encontrara o amor de sua vida, um outro que não ele, o sessentão misantropo que ela amara sobretudo pela educação científica e cultural que lhe proporcionava a cada dia? Como confessar-lhe uma traição deste tipo? Como pai e marido, devastado pelas revelações sucessivas desde sua chegada a Nova Iorque, o personagem de Ed Begley Jr se dirige a um bar para apaziguar as suas misérias: amorosa e financeira. Mas no mito de Allen esse desalento dura pouco quando o interiorano conhece um outro homem também desiludido pelo término de uma relação amorosa com outro homem. Eles travam uma conversa rápida- até mesmo para um roteiro simples como o de Whatever works- e eis que o pai de Melody faz uma análise de suas relações com mulheres, chegando à conclusão de que se casara com Marietta apenas por medo dos sentimentos que nutria por um jovem jogador de seu time de beisebol da escola. Boris recebe a notícia do novo amor da esposa com aparente indiferença mas tenta o suicídio pela segunda vez atirando-se pela janela de seu apartamento. Mas ao invés de ser bem sucedido, ele cai sobre uma mulher que passeava com seu cachorro e ela é hospitalizada. Ele a visita e os dois começam um relacionamento. O mito de Allen termina com as comemorações de encerramento do ano numa ceia que reúne os novos casais da história: Marietta e seus dois maridos; Boris e a sua clarividente, que fora incapaz de prever que ele cairia sobre ela naquela noite; Melody e seu irresistível ator; e o pai de Melody e seu namorado. O mito encontra seu fim com todos os conflitos que tinham sido abertos no princípio e na metade da trama solucionados. Os personagens se emancipam emocional e economicamente e, capazes de superar seus passados, rivalidades e ciúmes, compartilham o mesmo festejo de ano novo. Apenas a neurose de Boris persiste, quando ele se afasta do círculo de amigos que conversam, voltando-se para um telespectador que ele afirma existir. Woody Allen cria mais um mito moderno, à semelhança dos mitos arcaicos, em que tudo se apazigua e se encaminha para um final feliz, selado com Jazz ao fundo. Ou antes, repete o mito do amor de Platão, já que cada um encontra sua metade - mais ou menos adequada - e alguns até mais de uma. Mas o que o seu mito nos conta sobre a nossa vida comum e sobre o amor? Que não nos desesperemos, pois haverá sempre um chinelo velho para um pé descalço? Que não há neurose que não se reorganize com um novo amor; Que para o amor não há idade ou as barreiras dos preconceitos? Nossa vida moderna é de fato assim? Voltamos a viver como nossos antepassados cujas histórias conhecemos através da mitologia? Ou esse mito cinematográfico está incorreto, não expressando mais a realidade como outrora, já que estamos vivos e desenganados em nossa busca cotidiana do outro e de nós mesmos? Talvez o mito de Totem e Tabu de Freud (1913/2004) fosse mais adequado para descrever a psicopatologia amorosa que nos constitui, ainda que em nada apaziguador e esperançoso, já que o mito do amor não dá cabo das neuroses. Mas de vez em quando sonhar com os mitos de Allen pode ser uma exceção agradável à nossa experiência real. Aline Vieira, Rio de janeiro, 6 de maio de 2010 Referências Bibliográficas: FREUD, S. Tótem y Tabú (2004). In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, v. XIII, p.1-164(1913). LÉVI-STRAUSS, C.(1973). “A estrutura dos mitos”, in: Antropologia Estrutural (C.S. Katz e E. Pires, trad).Rio de Janeiro: Biblioteca Tempo Universitário, tempo brasileiro (1955). PLATÃO, O banquete. Lisboa, Edições 70, 2008.
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