É evidente que a exploração da jazida de petróleo
no pré-sal da costa brasileira vai causar grande impacto econômico no País e no
mundo. Tanto é que a disputa sobre o tesouro está apenas começando. Todos
querem definir o processo conforme suas ideias políticas e seus interesses
econômicos. Está em jogo a divisão do lucro: fortalece o estado e é socializado
com o povo brasileiro ou vai acelerar a acumulação privada? Qual parte
reverterá para o Brasil e o que será exportado para melhorar a vida dos ricos
dos países ricos? Enfim, tais questões precisam ser amplamente debatidas pelo
povo brasileiro.
Mais do que isso. Não custa nada pensar sobre o significado da extração e
entrega para consumo de um volume ainda maior de petróleo e de seus derivados,
em especial os que têm servido de combustível – gasolina e óleo diesel – para
veículos automotores. Está certo que o petróleo impulsionou a indústria
automobilística mundial de 1920 em diante. Serviu para estimular um tipo de
desenvolvimento – baseado no transporte individual e rodoviário – que criou
grandes parques industriais. Contribuiu para o avanço e a dominação tecnológica
de alguns países industrializados. Deu enorme contribuição para a concentração
da renda e da riqueza para alguns poucos grupos empresariais e familiares.
Mas, a questão que se coloca agora é pertinente: interessa mesmo para o Brasil
e para o mundo seguir no mesmo modelo de desenvolvimento? Um modelo que tem
sido gerador de riqueza concentrada e de enorme exclusão? Interessa ampliar e
perpetuar a desigualdade? O sistema de transportes atual não invibializa o
futuro das cidades? Boa parte das metrópoles já não está dominada pelo excesso
de veículos e pelos contínuos congestionamentos? Esse modelo não é gerador de
poluição e de destruição das condições de vida no Planeta? O que se pretende
fazer com a emissão de gases na atmosfera, o lixo não degradável e o aumento do
aquecimento global? Devemos ignorar essa dura realidade em nome do lucro do
petróleo?
O discurso de que o petróleo do pré-sal vai ajudar a melhorar a qualidade de
vida do povo brasileiro e das pessoas em geral não engana ninguém. O Brasil e o
mundo já tiveram jazidas tão ricas quando a do petróleo do pré-sal, e nem por
isso as sociedades (suas classes dominantes e seus governos) conseguiram
eliminar a miséria, a fome, a marginalização e a grande desigualdade econômica
e social dentro de cada país. O Brasil teve o ciclo da cana, o ciclo do ouro, o
ciclo do café, o ciclo da indústria – e nunca conseguiu distribuir os frutos de
tais ciclos do desenvolvimento econômico para a maioria da população. As
classes trabalhadoras brasileiras continuam vivendo em condições precárias,
marginalizadas e excluídas de participação na renda e na riqueza. O que garante
que agora poderá ser diferente? Nada, absolutamente nada.
Portanto, antes de embarcar na euforia que a descoberta tem proporcionado, e no
ufanismo governamental (e de todos aqueles setores empresariais que vislumbram
encher os bolsos de dinheiro nos próximos anos), os cidadãos, povo em geral, os
trabalhadores precisam refletir corretamente sobre em que condições devem
ocorrer a extração desse petróleo, de maneira a assegurar que o recurso não
seja danoso para o meio ambiente e para a qualidade da vida nos grandes centros
urbanos; como a riqueza gerada será mesmo revertida para os que mais precisam
dos recursos públicos (educação, saneamento, saúde e moradia); quem deve
controlar esse processo de forma a assegurar a soberania e a defesa dos
interesses nacionais e populares.
Afinal, alguém está se propondo a construir com o povo trabalhador um novo
modelo de aproveitamento social do petróleo?