Leituras Um retrato honesto da experiência venezuelana
[Por Igor Fuser] Na lista dos demônios da mídia empresarial, o posto número 1
pertence, disparado, a Hugo Chávez, com sua boina vermelha e língua ferina.
Raramente se passa um dia sem que alguma publicação da chamada "grande
imprensa" despeje regulares doses de veneno contra o presidente
venezuelano, apresentado como louco, fanfarrão, ditador ou incompetente. Essa
cantilena se mantém há mais de dez anos. Para ser exato, desde o início de
1999, quando o antigo coronel iniciou, após sua chegada ao governo, a
transformação de um dos países de estrutura social mais iníqua no planeta -
mais de 50% dos habitantes na miséria, em contraste com os lucros nababescos
das exportações de petróleo - em uma referência mundial para todos os que
cultivam os valores da justiça e da igualdade.
O livro de Gilberto Maringoni (A Revolução Venezuelana, Editora Unesp, 2009)
merece ser saudado com um antídoto perfeito contra a manipulação informativa
que, na imprensa brasileira, atingiu as raias de uma lavagem cerebral.
Jornalista e historiador, Maringoni fala de um tema que conhece em primeira
mão. Viajou várias vezes à Venezuela e lá entrevistou quase todos os nomes que
valiam a pena no tumultuado enredo político local - dos caciques da oposição
conservadora, como Teodoro Petkoff, às figuras mais graduadas do regime
esquerdista, entre as quais o próprio Chávez, além das mais variadas fontes na
esfera acadêmica.
Com dados confiáveis em mãos, o autor desvenda o enigma oculto sob a campanha
midiática anti-chavista: como é possível que um caudilho supostamente tão
desastrado mantenha altíssimos índices de apoio popular durante tanto tempo? É
errado reduzir, como insistem os detratores da experiência venezuelana, o
prestígio de Chávez à bonança petroleira da última década. O Venezuela já viveu
outros períodos de alta dos preços do petróleo, sem que a população tivesse
tido acesso a mais do que umas magras migalhas do banquete. A marca da gestão
chavista é algo que as primeiras gestões municipais petistas defendiam no
Brasil e que, lamentavelmente, diluiu-se no lodaçal dos compromissos com as
classes dominantes: a inversão das prioridades em favor das multidões
oprimidas, ainda que ao preço do confronto aberto contra as elites
privilegiadas.
Na Venezuela, os gastos sociais aumentaram de 8,2% do PIB, em 1998, para 13,6%
em 2006. Os índices de pobreza caíram de 55,1% para 27,5%. O salário mínimo se
elevou numa escala sem precedentes em qualquer outro país do chamado Terceiro
Mundo e milhões de venezuelanos passaram a ter acesso a uma infinidade de benesses
antes inalcançáveis - desde serviços essenciais, como assistência médica e
dentária, aos ícones do consumo descartável, como telefones celulares. Nesse
cenário em que a mudança passa do plano da retórica para a existência
cotidiana, torna-se fácil entender porque Chávez foi vitorioso em todas as
freqüentes consultas eleitorais que promoveu, com apenas uma exceção.
O grande mérito de Maringoni é que ele não se limita a salientar as conquistas
do processo político venezuelano, mas também aponta, sem medo de entrar em
polêmica com os defensores mais entusiastas do chavismo, os limites do
festejado "socialismo do século XXI". Concretamente: após dez anos de
"revolução bolivariana", o velho modelo de desenvolvimento dependente
latino-americano, erigido com base na exportação de produtos primários (no
caso, o petróleo), permanece inalterado. Os ganhos desse modelo, é verdade,
passaram a beneficiar, pela primeira vez, a maioria da população, sobretudo
depois que Chávez retirou a estatal Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA) das
mãos da camarilha que a controlava, enquadrando a empresa sob o controle
público. Mas o caminho ainda está no seu início: "O Estado continua
ineficiente, lerdo, corrupto e avesso às interferências populares",
escreve o autor.
Mesmo que seja prematuro falar em uma verdadeira revolução na Venezuela, é
inegável que o governo de Chávez mudou a face política daquela sociedade e, em
certa medida, de toda a América do Sul. A influência venezuelana se faz
presente em todo um conjunto de países onde, pela primeira vez, o poder de
Estado passa a ser exercido em benefício das maiorias. Como afirma Maringoni,
referindo-se à época de ofensiva conservadora mundial pós-1989: "A
Venezuela é, com todos os problemas, o país onde mais se avançou, nesse período,
na contestação ao neoliberalismo e no questionamento do poder global dos
Estados Unidos." Aí reside a explicação para o ódio que Chávez desperta
entre os donos da mídia brasileira e internacional. Ele é, de fato, um sapo
difícil de engolir.
Igor Fuser é jornalista, professor na Faculdade Cásper
Líbero, mestre em
Relações Internacionais e doutorando em Ciência Política
na Universidade de São Paulo.
Título: A Revolução Venezuelana Autor: Gilberto Maringoni Número de páginas: 200 Formato: 10,5 x 19 cm Preço: R$ 20 ISBN: 978-85-7139-904-4 Coleção: Revoluções do Século 20