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Como a Folha de S.Paulo demonstrou ter telhados de vidro e provocou a maior crise de credibilidade em toda sua trajetória
Por André Cintra Publicado na Caros Amigos No dia 24 de fevereiro, tão logo soube que o Movimento dos Sem-Mídia (MSM) tinha convocado um protesto em frente à Folha de S.Paulo,
o representante comercial Wilson Cunha Júnior, de 42 anos, tomou a
decisão de participar do ato, custasse o que custasse. Não deu a mínima
para a distância que separava sua casa e o prédio do jornal — algo como
mil quilômetros. Wilson mora em Goiânia, onde trabalha por conta
própria. Sem saber como chegar à sede da Folha, entrou em
contato com Eduardo Guimarães, presidente do MSM, que tentou
imediatamente dissuadi-lo. “Isso é loucura — você está tão longe. Não,
não venha”, rogou Eduardo, por telefone. “É claro que eu vou. A
responsabilidade é toda minha”, rebatia Wilson.
Depois de desembolsar R$ 128 na passagem de ônibus Goiânia–São
Paulo, ele iniciou sua viagem às 16h30 da sexta-feira, 6 de março. A
previsão era chegar ao Terminal Rodoviário Tietê, em São Paulo, às 7
horas do dia seguinte, mas um incidente na estrada retardou o
desembarque em duas horas. “Desci do ônibus e fui logo ao guichê.
Comprei passagem de volta para 5 horas da tarde”, conta Wilson, que
gastou aí mais R$ 139 — e sem reclamar. “Olha, se houvesse ato todo
mês, eu iria todo mês a São Paulo. Pode ser na Folha ou na Globo. Meu problema maior é contra a ditadura da mídia.
Uma meia-dúzia domina e determina tudo que a gente lê.” Da
rodoviária, Wilson entrou no metrô, atravessou oito estações e, às
9h50, um sábado, atingiu a alameda Barão de Limeira, onde viu centenas
manifestantes, além de dezenas de cartazes e faixas. “Foi um alívio.
Não perdi nenhum minuto.”
O que motivou a pequena epopeia desse animado goiano e de outras 500 pessoas, aproximadamente, até o prédio da Folha
foi o que Wilson qualificou como “um tapa na cara das pessoas que
viveram a ditadura no Brasil”. Tudo começou com o editorial “Limites a
Chávez”, escrito por Vinicius Mota e publicado na edição de 17 de
fevereiro. Aos enxovalhos de praxe contra o presidente venezuelano Hugo
Chávez, o jornal acrescentou um comentário sobre o governo dos
generais-presidentes brasileiros. Segundo o editorial, “as chamadas
‘ditabrandas’ — caso do Brasil entre 1964 e 1985 — partiam de uma
ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas
controladas de disputa política e acesso à Justiça”.
A relativização do regime é um fenômeno da Folha nos
anos 2000. O diretor editorial, Otavio Frias Filho, também chamado de
Otavinho, e o historiador Marco Antônio Villa, da Universidade Federal
de São Carlos (UFSCar), são expoentes desse movimento. “A ditadura
militar foi alvo também de um esquema maniqueísta”, escreveu Frias
Filho em 2003. “A imagem que ficou foi a de um despotismo de generais
que suprimiu as liberdades, governou contra o povo, matou e torturou
quem resistia. Isso é verdade, mas não toda a verdade.” Sobre o fim do
regime, o diretor da Folha minimizava em 2004 a pressão
popular pelo voto, condicionando a volta da democracia a fatores
não-políticos. “Basta verificar o crescimento econômico nos anos que
antecederam a campanha das diretas: -6,3% (1981), -1,3% (1982) e -5,0
(1983)”. No texto “Ecos de 64”, Frias Filho Escreve: (...) “fracassada,
a aventura guerrilheira conferiu legitimidade ao período de ditadura
nua e crua, entre 68 e 74”. Marco Antonio Villa — que, sob encomenda, escreveu uma coleção
conservadora de livros de história para o Instituto Teotônio Vilela, do
PSDB — incorpora esse espírito, sobretudo quando o tema é a indenização
a ex-presos perseguidos políticos. Na Folha, ele costuma
entrar em cena sempre que se trata de deslegitimar a resistência armada
ao regime militar. “Nos últimos anos, foi se consolidando uma versão da
história de que os guerrilheiros combateram a ditadura em defesa da
liberdade. (...) É urgente enfrentarmos essa falácia”,
escreveu, em 23 de maio de 2008, quando o tema das indenizações às
vítimas das torturas e perseguições políticas estava na ordem do dia.
Villa citou o “espaço democrático” dos governos Castello Branco e Costa
e Silva: “basta ver a ampla atividade cultural de 1964-1968”. Para o
historiador, “é fundamental não só rever as indenizações já aprovadas
como estabelecer critérios rigorosos para os próximos processos”. Não é
toa que a Folha recorreu a Villa para defendê-la no episódio da “ditabranda”.
Embora o Grupo Folha, adquirido pela família Frias em 1962, tenha laços
históricos indisfarçáveis com a ditadura, é provável que o neologismo
tenha sido publicado por descuido. Diferentemente do pai, Octavio Frias
de Oliveira — que fazia questão de ler, checar, corrigir e aprovar
todos os editoriais do jornal —, Frias Filho tem obsessões de outra
ordem, como o controle estatístico dos erros cometidos em cada edição
do jornal. “Muita gente aqui acha que o Otavinho não se preocupou em
avaliar o texto do Vinicius”, conta um repórter da Folha que não se identificou para evitar represália.
“Como o tema era Chávez, e a Folha
tem uma posição muito clara e óbvia a respeito dele, o risco de sair
alguma polêmica parecia nulo.” Eis que, dado o primeiro escorregão, o
jornal precisou de três dias para cometer o segundo. Na sexta-feira de
Carnaval, 20 de fevereiro, ao publicar na seção de cartas (o “Painel do
Leitor”) as primeiras críticas vindas do meio acadêmico — do jurista
Fábio Konder Comparato e a historiadora Maria Victoria Benevides, ambos
da USP —, a Folha
partiu para a baixaria. Uma “nota da Redação” qualificava a indignação
desses intelectuais como “obviamente cínica e mentirosa”, uma vez que —
segundo o desinformado jornal — os professores são “figuras públicas
que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como
aquela ainda vigente em Cuba”.
Na realidade, tanto Konder quanto
Benevides já criticaram publicamente o regime cubano, sendo que o
jurista chegou a expressar suas críticas a Cuba no mesmíssimo “Painel
do Leitor” Da abominável relativização da história, o jornal pago de
maior circulação no Brasil passou a uma agressão a leitores típica da
imprensa panfletária do século XIX. Frias Filho agiu como se fosse
necessário um atestado ideológico para se beneficiar do jornalismo
“crítico, democrático e apartidário” da Folha.
Sua resposta grosseira a dois intelectuais renomados põe em perigo a
imagem pluralista de uma publicação que, supostamente, exibe sem medo
os seus princípios e procedimentos à sociedade e, em especial, aos seus
leitores.
Essa é uma marca que a Folha passou a construir no
começo dos anos 80, quando passou a divulgar seu Manual de Estilo e os
seus sucessivos projetos editoriais, e consolidou com a campanha
publicitária em que se apresentava como um veículo corajoso e
independente – “de rabo preso com o leitor”, ou seja, desvinculado de
interesses políticos, econômicos ou ideológicos. Na avaliação do
sociólgo Rudá Ricci, há um componente psicológico na reação –
claramente desproporcional – de Frias Filho às críticas que o editorial
da “ditabranda recebeu”. “Quando é repreendido por intelectuais do peso
de um Comparato ou de uma Benevides, ele perde a cabeça e mostra
destempero, como se tivesse sido censurado na sua juventude e na sua
imaturidade intelectual”, avalia Ricci. “Assim, vai perdendo o status
da kaiser da imprensa nacional”.
A revolta contra o jornal da
família Frias, diluída no início, se intensificou durante e logo após o
carnaval. Na internet, foi lançado em 21 de fevereiro o manifesto
“Repúdio e Solidariedade” — um abaixo-assinado eletrônico que condenava
“o estelionato semântico” do termo “ditabranda” e a agressão sem
precedente da Folha.
Na opinião de Caio Navarro de Toledo, professor da Unicamp e um dos
idealizadores do manifesto, a iniciativa de fazer um abaixo-assinado
on-line abriu um espaço para tornar públicos os protestos que pipocavam
em grande quantidade. “Muitos colegas me encaminharam as cartas que
escreveram à Folha e que não foram publicadas”, conta. “Ao
lançarmos o manifesto, abrimos espaço para essas vozes críticas, que
não queriam engolir a mentira de ‘ditabranda’. O abaixo-assinado “Repúdio e Solidariedade” teve ampla
repercussão na web, impulsionado por sites progressistas e blogs
alternativos. Essas páginas na internet difundiram o chamado para a
manifestação do Movimento dos Sem-Mídia em frente à Folha. De
nada adiantaram as tentativas do jornal em minimizar o estrago, levado
a cabo pelo editor de Brasil, Fernando Barros e Silva, pelo ombudsman
Carlos Eduardo Lins e Silva e pelo colunista Marcelo Coelho. A poucos
dias do ato do MSM, o jornalista Leonardo Sakamoto divulgou em seu blog
que a Folha, nos dias subsequentes à querela, perdeu 2 mil
assinantes, o que indicava impactos não só na imagem e na credibilidade
do jornal — mas também no bolso.
Em 5 de março, a dois dias do ato dos
sem-mídia à frente da Folha, o historiador Marco Antonio
Villa reapareceu no jornal com o artigo “Ditadura à brasileira”, para
sustentar que o país só teve ditadura de fato entre 1969 e 1979 — a
duração do AI-5. “Só pode ser ‘a democracia’ dos historiadores à
brasileira”, respondeu, três dias depois, na própria Folha, o
colunista Janio de Freitas. “Os historiadores à brasileira não sabem
que as ditaduras vão até onde lhes é vitalmente necessário, e enquanto
podem fazê-lo.” Villa sentiu o golpe e, encurralado, retratou-se no
“Painel do Leitor”: “Em momento nenhum (...) defendi a ditadura militar.”
Àquela altura, o manifesto “Repúdio e Solidariedade” já tinha mais de 8
mil signatários, desde donas-de-casa até celebridades como o sociólogo
Antonio Candido, o arquiteto Oscar Niemeyer e o cantor Chico Buarque.
Em 8 de março, Frias Filho voltou atrás e admitiu que o termo
“ditabranda” é errado, pois “tem uma conotação leviana que não se
presta à gravidade do assunto”. Mas continuou a desancar Fábio
Comparato e Maria Benevides, tachando-os, dessa vez, de “democratas de
fachada”. No sábado seguinte, dia 14, os dois professores conseguiram
um direito de resposta no jornal. “Levar mais de duas semanas para
reconhecer um desatino editorial (a classificação do regime militar
brasileiro como ‘ditabranda’), imputando a responsabilidade pelo
episódio ao teor de nossas críticas, não parece um comportamento
compatível com a ética do jornalismo”, escreveram.
A Folha,
porém, manteve sua postura agressiva. “Imaginava-se encerrado o
episódio, mas os professores Comparato e Benevides estão empenhados em
extrair dele o máximo rendimento possível”, comentou o jornal. As 500
pessoas que participaram do ato contra a “ditabranda”, às portas da Folha, demonstraram que, nessa batalha, quem ganhou foi a sociedade. Um post publicado por Flavia Brites, no blog Nas Retinas,
registra um cálculo expressivo: cem blogs agregados a partir do tema
“ditabranda” contabilizavam, ao longo da manifestação, mais de 60 mil
visitas.
Com a cobertura do ato, o site Vi o Mundo, do
jornalista Luiz Carlos Azenha, registrou seus melhores índices de
audiência. “Eu me atrevo a dizer que foi a primeira manifestação
política convocada pela internet que terá consequências práticas para o
ativismo digital”, escreveu Azenha. Foi um protesto sem panfletos ou
convites impressos, mas com apoio espontâneo de entidades de direitos
humanos e de ex-presos políticos, movimentos organizados, partidos
políticos, jornalistas independentes, sites, blogs, e muita gente mais.
À sua maneira, cada um deles mostrou que, antes das paredes
envidraçadas, o que a Folha de S.Paulo tem são telhados de vidro.
Núcleo
Piratininga
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