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Direitos Humanos
Balanço da Política Agrária do Governo Federal
Publicado na página do MST 17/04/2009
Estamos fazendo mais uma jornada de lutas para cobrar do governo
federal a realização da Reforma Agrária e debater com a sociedade sobre
a situação dos trabalhadores rurais, da agricultura e da gravidade da
crise no campo. Realizamos ocupações, marchas e protestos em 15 estados
e no Distrito Federal. Abaixo, apresentamos um balanço político da
situação atual da política agrária do governo federal, que demonstra um
retrocesso, inclusive em relação a anos anteriores.
Os latifúndios do agronegócio já desempregaram 270 mil trabalhadores
assalariados, desde novembro de 2008. As 20 maiores agroindústrias
desempregaram quase 100 mil operários de suas fábricas. Mesmo assim,
continuam recebendo apoio governamental, enquanto trabalhadores rurais
pobres do campo ficam em segundo plano.
1. Os recursos para desapropriação, aprovados no orçamento de 2009,
eram de R$ 957 milhões e foram cortados ‘em função da crise’. Eles
foram reduzidos em 41%, baixando o orçamento para R$ 561 milhões.
Segundo o Incra, com essa redução será possível assentar apenas 17 mil
famílias e não mais 75 mil, meta anteriormente prevista pelo governo
para o ano de 2009.
2. Os recursos aprovados para assistência técnica das famílias
assentadas, previstos para 2009, eram de R$ 224 milhões, mas foram
reduzidos para R$135 milhões. Redução também de 41%.
3. Para o Pronera, programa de educação nas áreas de Reforma Agrária,
os recursos aprovados para 2009 - eram de R$ 69 milhões - foram
cortados em 62%, baixando para apenas R$ 26 milhões. Além disso, o
Incra não consegue garantir formas de remuneração para os professores
nas áreas rurais. Vários cursos já conveniados com universidades em
todo país, e alguns já iniciados, foram interrompidos por falta de
recursos!
4. O Incra vem usando índices de produtividade, que fixam os parâmetros
necessários para desapropriação das áreas, com dados de produção ainda
de 1975, totalmente defasados, o que dificulta classificar as fazendas
como improdutivas. Em maio de 2005, o governo federal se comprometeu,
perante a Marcha Nacional dos Sem Terra a Brasília, a atualizar os
índices e publicá-los em algumas semanas. Em 2005, o Incra e o MDA
atualizaram a portaria, mas até hoje ela não foi editada. A lei agrária
determina que os índices sejam atualizados a cada cinco anos. É urgente
que eles sejam atualizados com os dados do censo agropecuário de 2006,
e se publique nova portaria.
5. Ano passado, propusemos e foi acordado com o governo, a liberação de
R$18 mil por família para o programa de habitação rural a ser
implementado em 2009, para a construção e reformas de moradias no
campo. Pela primeira vez, tínhamos um programa consolidado de habitação
para o meio rural. Soubemos, porém, que os recursos foram baixados para
R$10, 6 mil reais por família neste ano. Perguntamos: alguém consegue
construir uma casa com R$10 mil?
6. O governo havia se comprometido a garantir a assistência técnica
para todas as famílias assentadas, e até fez propaganda disso. Nas
negociações, ficou claro que por causa do corte de 41%, o Incra não tem
condições de pagar sequer os trabalhos já realizados em meses passados
pelos agrônomos e até hoje não pagos. Não vai honrar convênios já
assinados com entidades, e não tem previsão de como será a assistência
técnica no futuro. Isso vai prejudicar a realização dos projetos para
acessar ao crédito do Pronaf, que terá início em julho. Até o final de
março de 2009, nenhum centavo havia sido liberado para assistência
técnica de projetos contratados em 2008.
7. O governo se comprometeu, na chegada da marcha a Brasília em maio de
2005, a abrir uma linha de crédito para financiamento especial de
agroindústrias em assentamentos. Nossa demanda é de R$150 milhões, mas
apenas R$ 20 milhões estão assegurados para os próximos dois anos. Há,
porém, um processo de negociação em aberto com o BNDES para expandir
esse valor. Por outro lado, o governo liberou R$12 bilhões via Banco do
Brasil e BNDES como socorro de capital de giro para as 20 maiores
agroindústrias do país, que estão em crise e já demitiram quase 100 mil
trabalhadores.
8. Estamos esperando, até hoje, resposta a uma proposta de programa de
reflorestamento nos assentamentos e na agricultura familiar, que previa
apoio para que cada família de agricultor pudesse reflorestar dois
hectares de sua área. A proposta foi apresentada e aprovada pelo
presidente Lula, em 2003.
9. O governo sempre se deixou influenciar pelos interesses econômicos
das empresas transnacionais do agronegócio, para liberar
vergonhosamente as sementes transgênicas, sem nenhum estudo sério de
impacto ambiental e de saúde. Na fila da CTNBio estão novas licenças de
arroz, milho etc., e sempre alegaram não haver nisso problema nenhum.
Nesta semana, porém, um juiz do Rio Grande do Sul aceitou uma demanda
dos agricultores gaúchos contra o pagamento de royalties para a
Monsanto. Além disso, o governo da Alemanha proibiu em seu território o
cultivo da soja roundup, da Monsanto. No ano passado, o governo liberou
três variedades de milho transgênico da Bayer, Syngenta e Monsanto. A
produção de sementes de milho transgênico estava proibida. Assim que
liberaram, milagrosamente em apenas uma safra, as empresas forneceram
sementes para atender 40% da demanda. Isso terá um impacto futuro na
agricultura familiar destruidor, como já aconteceu no México.
10. O governo enviou ao congresso a Medida provisória MP 458, que
define novos critérios e praticamente legaliza todas as terras públicas
griladas na Amazônia, em até 1500 hectares por pessoa. Isso demonstra
um claro abandono da Reforma Agrária, pois, ao invés de exigir a
imediata arrecadação pela União das terras acima de 15 módulos fiscais
e sua destinação para o Incra, designa estas áreas para licitação, com
direito de preferência para o atual grileiro! Portanto, está consumada
a regularização do grilo, além de sucatear a já famigerada autarquia,
porque vai transferir técnicos, diretores e demais estruturas do Incra
para o projeto de regularização. Segundo denunciaram todas as entidades
envolvidas no Fórum Nacional de Reforma Agrária a proposta da MP 458
tem clara afronta a preceitos constitucionais que devem ser contestados
no STF.
11. Está parado na Câmara dos Deputados um projeto de lei que determina
a desapropriação de todas as fazendas onde foram encontrados
trabalhadores em situação análoga à escravidão. A lei já foi aprovada
no Senado Federal. Mas, por articulações políticas dos ruralistas, o
governo se rendeu e não mobilizou sua base para aprová-la. Enquanto
isso, a Polícia Federal continua libertando pessoas que vivem em
condições de trabalho escravo nas fazendas e já registrou que 58% das
fazendas são reincidentes.
SECRETARIA NACIONAL DO MST
Núcleo
Piratininga
de Comunicação
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