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História
Umbanda em permanente mutação

[Por revista retrato do BRASIL]Em visita a terreiros e em conversas com pais-de-santo e intelectuais, RB foi ver como, ao completar cem anos, a primeira religião brasileira, que introduziu nos cultos as figuras do povo pobre, ainda enfrenta preconceitos e prossegue em sua contínua adaptação aos tempos atuais | Tânia Caliari

É sexta-feira de manhã. A “casa” está aberta. Toda azul, lembra uma igrejinha, com pequena torre, nave, altar ao fundo, imagens de santos. Mas é uma tenda de umbanda, construída há 58 anos no bairro de Pinheiros. É uma das mais tradicionais de São Paulo. O pai-de-santo fundador continua a comandar a “casa”. Pai Jamil Rachid, homem de tez muito branca e olhos azuis esbugalhados, é o médium que recebe o preto velho Pai Benedito e outras várias entidades. Leva adiante a ação de cultivar e propagar a umbanda por meio da “caridade”, que, nessa crença, significa dar a oportunidade aos humanos de se comunicarem com espíritos evoluídos que, como acreditam os fiéis, descem de Aruanda com toda sua sabedoria sobre a verdade divina e orientam os que sofrem e pedem ajuda.

A maioria dos que chegam ao templo tira os sapatos, recebe um passe, escuta um conselho, faz uma oração e vai embora. Elisabete foi buscar mais que isso. Foi se filiar à União de Tendas de Umbanda e Candomblé do Brasil, uma das maiores federações umbandistas do estado de São Paulo, com 4,5 mil terreiros afiliados e que tem sede no templo. Elisabete quer obter o reconhecimento oficial de seu terreiro como entidade religiosa e garantir seu funcionamento.O terreiro de Elisabete fica na Chácara Santana, no Jardim Ângela, na zona sul da cidade.

Freqüentadora da umbanda desde os 18 anos, Elisabete incorporou pela primeira vez uma entidade há 27 anos, quando estava num supermercado. Exu “desceu” para lhe avisar que tomasse cuidado naquele dia, pois seu marido poderia ser assassinado. Elisabete preveniu o marido e, à noite, o suposto assassino foi morto na porta de sua casa, alvejado por um desconhecido. Desde então, ela aprimorou sua mediunidade e, anos mais tarde, abriu o seu próprio terreiro.

Na umbanda é assim. Uma vez que são desenvolvidos por um pai-de-santo, os médiuns de um templo podem, sob orientação dos espíritos que os guiam, fundar novas tendas. Isso faz da umbanda uma religião de pequenos grupos que se reúnem em torno de uma mãe ou pai-de-santo, em terreiros autônomos, que não seguem doutrina única nem são subordinados a ninguém. O que resultou numa religião com variadas formas de expressão.

Na noite de sábado, primeiro dia de novembro, não há muito movimento nas ruas pobres da Chácara Santana. O vaivém da rua José Sedenho se concentra apenas numa pequena LAN house e na Tenda de Umbanda Iemanjá, Oxosi e Caboclo Sete Flechas, comandada por Elisabete. As pessoas se acomodam no salão onde um dia funcionou uma pizzaria. Os antigos fornos agora abrigam velas acesas e imagens de pretos velhos. Por toda parte há imagens de santos católicos – São Jorge, São Sebastião, Cosme e Damião –, de caboclos de umbanda e até uma foto do padre Marcelo Rossi, líder católico carismático. No altar, estão Oxalá, orixá representado numa imagem de Jesus Cristo, além de Iemanjá e Nossa Senhora Aparecida.

A “ESQUERDA”, DOS EXUS

Nesta noite, o culto é da “esquerda”, termo usado na umbanda para designar os rituais dedicados aos exus e pombajiras que, diferentemente do divulgado por alguns grupos cristãos, não são demônios, mas espíritos elevados e ambíguos, que tanto podem agir para o bem como para o mal. Mas não ali, diz Elisabete. Ela afirma que sua tenda não acolhe pedidos de maldades.

De joelhos, testa ao chão, Elisabete evoca Deus, pede pelas almas, lê uma oração, cita Moisés e puxa uma ave-maria e um pai-nosso. Durante os cantos que se seguem, ritmados pelos atabaques, os orixás são saudados um a um. Elisabete solta os cabelos e dança incorporando Iemanjá, o orixá que rege sua cabeça e é sua mãe no culto umbandista. Na seqüência, desce Vovó Maria, preta velha que faz Elizabete andar pesadamente curva e resmungar. Com a partida da preta, é a vez de incorporar uma cabocla, uma índia na tradição umbandista. Ela pula, grita, e bate no peito no meio da jira, área diante do altar onde os médiuns podem “girar” e dançar ao incorporar os espíritos.

As entidades continuam sendo saudadas pelas canções. O ponto agora é para Exu Tiriri. “Exu Tiriri é muito bão, toma conta da casa e do portão”. É nessa hora que uma médium incorpora um exu. Seus dedos se curvam como garras, que ela arrasta no chão. Depois, a moça incorpora uma baiana, figura debochada e bonachona, que faz questão de cumprimentar o público, que assiste a tudo passivamente. Outra médium incorpora mais um exu e, finalmente, Elisabete recebe outro, soltando gargalhadas. Na sala, estão agora presentes Exu Capa Preta, Exu da Cruz e a baiana, prontos para falar com o povo.

Uma mulher tira de um saco uma roupinha azul, de criança, com escritos num papel para apresentar a exu. “Isso aqui é minha obrigação, meu particular”, diz, se furtando a dar detalhes. Outra quer falar com a baiana, queixa-se de dor nas costas. Veio agradecer o emprego que pediu e conseguiu. Um rapaz avisa: “quero passar com o Seu Capa”. Uma moça copia o nome de um juiz de uma carta de intimação do Tribunal de Justiça paulista e se dirige à jira.

À jornalista de Retrato do Brasil, Exu da Cruz garante o sucesso desta reportagem, uma pequena investigação sobre a umbanda, religião brasileira que comemora cem anos de fundação neste ano. Essa religião se caracteriza pela diversidade, que encontramos em diversos rituais nas zonas norte, sul e oeste de São Paulo, e que se reflete nas variadas explicações sobre como funciona a umbanda. Num ponto, os entrevistados concordam: todos dizem que a missão da umbanda é ajudar na evolução dos espíritos encarnados na Terra, provendo a intermediação, por meio dosmédiuns, entre as pessoas e os guias, espíritos elevados.

Essa definição vai ao encontro do que teria proclamado em 1908 o espírito fundador da umbanda. Consta que o Caboclo das Sete Encruzilhadas, espírito de um índio que se incorporou num jovem médium na cidade de Niterói, definiu a umbanda como “a manifestação do espírito para a caridade”. Considerada desde então uma religião brasileira, a umbanda é uma crença composta de ritos, divindades e mitologia herdados de várias religiões, sobretudo do espiritismo kardecista e do catolicismo cristãos, do candomblé, de origem africana, e dos rituais indígenas, genericamente chamados de pajelança.

Há várias interpretações para a palavra umbanda, como a arte de curar, colhida do idioma banto, e “Conjunto das Leis de Deus”, que se baseia na interpretação do vocábulo aumbhandha, tido por alguns teóricos da religião como originário do adâmico, um alfabeto primitivo.

A idéia da busca pela evolução virtuosa dos espíritos vem do espiritismo, doutrina nacionalista cristã sistematizada em meados do século XIX na Europa pelo pedagogo e médium francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), popularmente conhecido como Allan Kardec. Dele, a umbanda herdou também a idéia evolutiva da reencarnação, que faz parte de várias outras religiões como o hinduísmo e o budismo.

INTERAÇÃO ESPIRITUAL

A umbanda, no entanto, afasta-se de Kardec ao adotar como guias espirituais entidades de origem negra e índia. Esses guias, que incluem ainda entidades variadas, como crianças, boiadeiros, africanos, baianos, marinheiros, orientais, ciganos e outros, são lideranças de inúmeras entidades que militam pela evolução espiritual sob sete diferentes linhas de orixás, divindades tomadas da tradição africana.

A mediunidade, um dom que, segundo as religiões espiritualistas, nasce com a pessoa, manifesta-se, sobretudo, pela possessão – há, entre outras formas de manifestação, a psicografia, a audição, a vidência e a pintura. A mediunidade é considerada um instrumento para que se possa interagir com os espíritos, o que, geralmente, ocorre nos rituais de consulta nos terreiros.

Apesar de cultuar os orixás, os umbandistas não titubeiam em afirmar o caráter monoteísta de sua religião. Zambi, ou Olorum, é o seu deus supremo, criador do universo.

O sociólogo Reginaldo Prandi, veterano pesquisador do universo mitológico afro-brasileiro, alerta que mesmo as religiões politeístas têm um deus superior, um deus criador do mundo e dos outros deuses. “Ao mesmo tempo em que a umbanda se abastece na tradição politeísta incorporando os orixás, ela tem uma orientação monoteísta, quando confunde Olorum com o Deus judaico-cristão-muçulmano, pois considera que é dele que tudo emana e que ele tem uma ação total sobre a humanidade”.  Prandi explica que no candomblé não é assim. O deus criador não se mete com os homens, que são relegados aos orixás, que, por sua vez, também são deuses. “Ninguém reza para ele, porque ele é inacessível”, explica.

Outro distanciamento da umbanda em relação ao candomblé se dá ao lidar com os conceitos de bem e mal. Nas várias culturas africanas e no candomblé não há a idéia do bem separado do mal. Tudo é bom e tudo é mau. “A umbanda se forma entre duas visões de mundo: de um lado, há o kardecismo, que segue a visão judaico-cristã do bem e do mal em eterno conflito. E, de outro lado, você tem a idéia de que essa luta não adianta nada, porque uma coisa não existe sem a outra”, explica Prandi. Segundo ele, essa questão foi amplamente desenvolvida por seu colega acadêmico Lísias Negrão, em Entre a cruz e a encruzilhada (Edusp, 1996), livro em que afirma que, para resolver essa contradição, a umbanda adotou a idéia de que seus guias são todos voltados para o bem. E conservou em separado e escondido, na chamada quimbanda, a presença do mal, que não pôde ser desprezada, por ser fundamental.

Assim, durante muito tempo, a umbanda foi feita apenas com guias da “direita”, os caboclos, pretos velhos e crianças. Os rituais para exu e pombajira eram realizados à parte. “Muito recentemente, quando a própria sociedade se torna mais flexível em relação às diferenças, essa divisão total foi perdendo o sentido e hoje o exu é aceito”, diz Prandi.

Essa assunção do ente do “mal”, no entanto, teria feito da umbanda um dos alvos preferenciais da intolerância religiosa, contribuindo para a diminuição do número de seus seguidores no País, que, nos últimos 30 anos, tornou-se menos católico, menos afro-brasileiro e mais evangélico.

Prandi, que nos anos 1970 trabalhou num dos primeiros mapeamentos de religiões feitos no Brasil, diz que, atualmente, é difícil dimensionar o número preciso de adeptos da umbanda. Segundo os dados de 2000 do Censo Demográfico, último levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a contemplar as religiões, os seguidores das religiões afro-brasileiras, a umbanda e o candomblé, somavam apenas 0,34% da população brasileira, ou pouco mais de 571 mil pessoas. Os umbandistas eram a grande maioria, 75%.

O número de seguidores dessas religiões, além de ser relativamente pequeno, caiu nas duas últimas décadas do século XX. Em 1980, equivalia a 0,57% da população e, em 1991, a 0,44%. Essa queda, entretanto, não atingiu de forma equilibrada as duas religiões. No movimento descendente, o que se verificou foi o crescimento do candomblé. Entre 1991 (quando, pela primeira vez, o Censo especificou as religiões afro) e 2000, o candomblé saiu de 107 mil para quase 140 mil adeptos. Um crescimento de 31,3% num período em que a população brasileira como um todo cresceu 15,7%. No mesmo intervalo, a umbanda, que tinha 542 mil seguidores, caiu para 432 mil, uma perda de 20,2%.

PENTECOSTAIS SÃO CONTRA

Esse fenômeno é atribuído por estudiosos ao crescimento das religiões cristãs pentecostais, que combatem explicitamente os cultos afro-brasileiros, apesar de terem absorvido alguns de seus elementos, como o chamado “descarrego”. Além de usar seus pastores e fiéis no dia-a-dia desse combate, determinadas igrejas usam poderosos meios de comunicação de massa, incluindo uma rede de televisão, na disputa pelo mercado religioso. É a etapa mais recente da discriminação às religiões baseadas na cultura africana, que sobreviveram à perseguição do Estado (só em 1964, o registro dos terreiros de umbanda na polícia deixou de ser obrigatório) e às campanhas da Igreja Católica (sobretudo atéos anos 1970).

Analisando as narrativas do mito fundador da umbanda, pode-se afirmar que o que houve em 1908 foi uma “invasão” de uma sessão espírita kardecista por espíritos que já vinham se manifestando há tempos nos diferentes rituais religiosos populares – candomblés de caboclo, macumbas, cabulas –, sobretudo no Rio de Janeiro. A então capital federal recebera, no fim do século XIX, levas de imigrantes de outros estados, que se juntavam à multidão de ex-escravos, africanos ou descendentes, recém-libertos.

Segundo os relatos consolidados pelos seguidores da umbanda, em 15 de novembro de 1908, na federação espírita de Niterói, um jovem branco de 17 anos, Zélio Fernandino de Moraes, filho de militar, foi levado a participar de uma mesa branca, como são chamadas popularmente as sessões de recebimento de espíritos, por apresentar um comportamento fora do comum. Ele falava resmungando em línguas estranhas, andava curvado ou apresentava trejeitos de felino. Na mesa kardecista, presidida por um militar, Zélio se encontrava entre os membros do estrato social ao qual pertencia. Ao serem iniciados os trabalhos, entretanto, espíritos que se identificaram como Caboclo das Sete Encruzilhadas e Pai Antônio se manifestaram em Zélio.  Os kardecistas pediram para que esses espíritos se retirassem, pois seriam, a seu ver, “atrasados”. Caboclo das Sete Encruzilhadas teria dito então que voltaria a incorporar Zélio no dia seguinte e que, dali em diante, haveria “uma mesa posta” a toda e qualquer entidade que quisesse se manifestar, independentemente do que tivesse sido em vida. “Todos serão ouvidos”, teria dito Caboclo das Sete Encruzilhadas. “Nós aprenderemos com aqueles espíritos que souberem mais, ensinaremos os que souberem menos e a nenhum viraremos as costas nem diremos não”.

“O que houve foi uma invasão de território espiritual”, diz Prandi, que avalia, da mesma forma que a socióloga Patrícia Briman, em estudo feito nos anos 1980, que, naquele momento, houve uma mudança na concepção de poder, a grande novidade trazida pela umbanda. Se até ali os espíritos iluminados que baixavam nas mesas do kardecismo eram de pessoas bem-sucedidas e conceituadas em vida, como médicos, jornalistas, escritores e advogados, na nova religião a idéia era de que o poder não vinha mais pela posição social ou escolaridade, mas pela vivência. “O poder agora reside na origem escrava, índia, subalterna, mas digna. É o grande guerreiro indígena, o velho negro sábio, que apanha a vida toda, mas é conhecedor dos segredos da vida”, diz Prandi.

Apesar de ter recebido caboclos e pretos velhos, Zélio praticou uma umbanda cristã, com doutrina baseada no Evangelho e rituais sem atabaques ou adereços afros. Fora dali, porém, as manifestações religiosas populares não tardariam a influenciar a umbanda, à qual foram incorporados esses e outros elementos.

IRMÃ DO SAMBA

Nessa época, havia uma grande convivência da população carioca com o chamado candomblé de caboclo, de origem banto, vindo da Bahia. “Esse é o um tipo de manifestação cultural que vai dar origem também ao samba, às escolas de samba”, diz Prandi. “Os pais do samba são todos ligados às chamadas casas de baianas e à macumba. Macumba é uma expressão carioca da tradição de candomblé de caboclo, que também contemplava entidades indígenas”.

Segundo o sociólogo, grandes nomes, como Pixinguinha, João da Baiana e outros, ou eram de terreiros ou ligados a eles, por serem parentes das mães ou amigos da “casa”.

“No começo da produção discográfica no Brasil, foram gravados muitos pontos da macumba”, diz Prandi, que, em seguida, cantarola um clássico de Noel Rosa para mostrar a tensão que existia entre dois grupos pioneiros do samba carioca: o das favelas, dos morros, com os seus pontos de macumba, e o dos jovens boêmios do subúrbio de Vila Isabel, como o próprio Noel. “Feitiço da Vila”, de Noel e Vadico, enaltece o samba que eles faziam nos seguintes moldes: A Vila tem um feitiço sem farofa, sem vela e sem vintém, que nos faz bem. Tendo o nome de princesa, transformou o samba em um feitiço decente, que prende a gente.” Segundo esses autores, ambos brancos, na Vila o feitiço era musical e decente, diferente do da turma dos morros.

Uma importante interpretação a respeito da umbanda, do fim dos anos 1970, de autoria do sociólogo Renato Ortiz, discípulo do francês Roger Bastide, estudioso da cultura negra no Brasil, afirma que a umbanda se originou na classe média e destaca que seu aparecimento coincide justamente com a consolidação de uma sociedade urbano-industrial no País. Esse momento exigiu enorme adaptação dos afrodescendentes, em evidente desvantagem para se inserirem no mercado de trabalho capitalista.

Segundo essa análise, do livro A morte branca do feiticeiro negro (Vozes, 1978), as transformações do mundo simbólico afrobrasileiro se deram para acomodá-lo aos valores da sociedade da época, que se pretendia branca e amparada pela moral católica. Nesse processo, teria havido uma desagregação de memória coletiva das nações africanas, resultando em novas expressões de religiosidade: a feitiçaria em São Paulo, a macumba no Rio de Janeiro, o candomblé de caboclo em Salvador. A umbanda, segundo Ortiz, teria surgido para canalizar esse processo de degradação da memória negra e moldá-la à ideologia dominante, associando-a aos santos católicos e à doutrina espírita.

Pode-se ver esse movimento de forma diferente. Prandi considera que a umbanda foi muito além da classe média e promoveu a integração de idéias excluídas pelas classes hegemônicas do Brasil, trazendo elementos religiosos negros e indígenas para uma civilização que se tornava urbana e cosmopolita, cuja população era mestiça. Já o candomblé, religião de características marcantemente africanas, se restringia a capitais periféricas, como Salvador, Recife e São Luiz.

“É só com o movimento cultural que sai em busca de velhas tradições nos anos 1960 que o Brasil vai olhar para a Bahia e descobrir a mãe-de-santo nos terreiros de candomblé”, diz Prandi. “Se, nessa época, os Beatles foram à Índia atrás de gurus e a contracultura dos países desenvolvidos olhou para o Oriente, os artistas brasileiros, desde Vinícius de Moraes até os da Tropicália, se voltaram para a Bahia”. “Só aí o candomblé chega à metrópole”, avalia.

Segundo Prandi, a umbanda trouxe outra novidade importantíssima: a ruptura com a velha tradição religiosa brasileira, que era do catolicismo. “Até 1940, todo mundo que nascia no Brasil nascia católico. Ser brasileiro e ser católico eram a mesma coisa. Com a umbanda, abre-se a possibilidade de o brasileiro escolher sua religião. E isso é extremamente importante na formação da cidadania”.

MUITAS UMBANDAS

As diferentes fontes que deram origem à umbanda resultaram numa religião que nunca foi codificada numa doutrina única, imposta hegemonicamente por um poder central, como se vê, por exemplo, no catolicismo.

Isso levou o sacerdote Etiene Sales, do Rio de Janeiro, a concluir que “a umbanda não é uma religião única, mas um conjunto religioso diverso e plural, que se constitui de pequenas sub-religiões ou escolas umbandistas”.Sales é membro da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, formada por várias ONGs e que promoveu passeata em defesa de liberdade religiosa no fim de setembro no Rio de Janeiro.

Sales, administrador de empresas especializado em análise de negócios e pós-graduado em Ciências da Religião, pesquisa o assunto desde 1987. No início deste ano, realizou, por meio de um site na internet, uma enquete que ajuda a constatar a diversidade dos cultos da umbanda. Esse trabalho permitiu especificar, grosso modo, 12 tipos de cultos. São três de “umbanda branca”, três de “umbanda popular”, dois de “umbanda esotérica” e dois de “umbanda iniciática”. Há também o da chamada “umbanda pura” e o conhecido como “umbandomblé”.

As chamadas umbandas brancas seguem, na íntegra ou não, a doutrina de Zélio de Morais ou a doutrina espírita, e só recorrem a entidades como pretos velhos, caboclos e crianças, excluindo dos rituais os exus. As umbandas populares são fortemente marcadas pelo sincretismo afrocatólico ou por raízes africanas – como a omolocô, que enfatiza os orixás. Pertence à corrente popular o culto que segue as obras de Rubens Saraceni, pai-de-santo de São Paulo que enfoca a magia e o caráter místico da religião.

Na umbanda esotérica, estão os que se baseiam nas obras de W. W. Matta e Silva. A umbanda iniciática, uma espécie de derivação da esotérica, aglutina os que seguem, na íntegra ou não, as obras do pai-de-santo Francisco Rivas Neto, que buscam um sentido universalista da religião.

A umbandomblé, como o próprio nome indica, é uma mistura com o candomblé. E a umbanda pura, na interpretação de Sales, é uma doutrina que não existe, mas que é assim denominada por pessoas que acham que têm uma ligação direta com o “astral superior” e que não se misturam com os demais rituais.

“Em termos de umbanda não existe nada puro”, diz Sales, sacerdote de uma umbanda identificada por ele como umbanda de preto velho, uma vertente do culto omolocô. “Sempre existirá alguma mistura, pois as diversas correntes doutrinárias se utilizaram do sincretismo como forma de construção. Foi esse sincretismo que permitiu a montagem de todas elas”.

O pesquisador admite que poucos umbandistas tenham consciência de estarem seguindo um tipo específico de culto. “A maioria nem sabe de onde surgiu o que pratica ou de onde surgiu a própria umbanda”. Segundo Sales, os seguidores da escola iniciática estão entre os que mais se preocupam em estudar e entender as diferentes escolas e a origem da umbanda.

É no Campo Belo, bairro de classe média da zona sul paulistana, que está instaladoo templo da Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino (OICD), fundada em 1970 por Pai Rivas Neto, o cerne da pioneira Faculdade de Teologia Umbandística (FTU), a primeira faculdade de teologia não-cristã reconhecida pelo MEC.

SEM ESTEREÓTIPOS

É contagiante o batuque dos atabaques bem tocados e a coreografia discreta, mas constante, dos mais de 80 médiuns que se preparam para o ritual. A fumaça espessa do incensório infesta o ambiente com um perfume forte e agradável. Há crianças pequenas na sala, que os pais médiuns tentam controlar. Há também muitos jovens que parecem “noviços”. O grupo ali reunido parece ser formado por gente instruída de classe média, em sua grande maioria branca.

Homens de um lado, mulheres de outro, como em outras tendas de umbanda, os dois grupos de médiuns usam batas brancas bordadas com símbolos conhecidos, como sinais riscados da pemba (um giz bruto), que, em composições diferentes de traços básicos, identificam a entidade que cada médium costuma receber. No altar do templo, riscados representando orixás são gravados em placas de madeira, num arranjo de muito bom gosto. Não se vê imagens de santos católicos e ninguém reza ave-maria e pai-nosso durante o culto.

A noite desta sexta-feira é dedicada aos caboclos. Após uma longa e harmoniosa preparação dos médiuns, a assistência toma os bancos do amplo salão. Sentada na primeira fila, Carolina, jovem advogada que é mãe-pequena de um templo no interior do estado, onde incorpora uma preta velha, explica os detalhes da cerimônia e identifica alguns médiuns e outros participantes da jira.

O excelente curimba, o “cantor” da cerimônia de umbanda, que incansavelmente puxa os pontos com entusiasmo e ritmo, é neurologista e diretor da FTU. Um caboclo grandão, que fuma charuto e dá passes, também é médico, ginecologista. Há muitos outros médicos e profissionais liberais entre os médiuns. Ao contrário da apatia do ritual na Chácara Santana, as pessoas se integram ao culto, cantando e dançando.

A jira é tomada por vários caboclos e caboclas que se apresentam aos saltos e gritos, fumando charutos sem parar. Parte dos médiuns ajuda a amparar os possuídos mais descontrolados, que podem rodar e cair. Outros passam recolhendo as cinzas dos charutos. Descalças, as pessoas fazem filas para as consultas. É a hora da caridade dos caboclos.

“Nesse templo, não usamos imagens de santos justamente porque é o templo ligado à faculdade, que não quer privilegiar a influência católica”, diz Pai Rivas, dias depois, na sede da FTU. “Em outros templos da OICD temos imagens mais tradicionais, contemplando esse sincretismo, que muitos acham necessário para ter uma melhor percepção do mundo espiritual”. A FTU, que promoveu em meados de novembro o primeiro Congresso de Umbanda do século XXI, abre anualmente 50 vagas para o curso de bacharelado em Teologia. “Temos 11 médicos que lecionam na FTU”, diz Rivas, incluindo ele mesmo, que é cardiologista. “Por que um médico não pode ser da umbanda? Temos que confirmar o estereótipo de ignorante do umbandista?”.

“EÊ, PRETO VELHO”

Muito antes de ser médico, aos 12 anos de idade, Rivas já se dedicava aos cultos afro-brasileiros, freqüentando o terreiro de candomblé do seu tio Ernesto, um espanhol.Aos 21 anos, chefiava um terreiro em São Paulo e se tornou discípulo de W. W. Matta e Silva, fundador da umbanda esotérica.

Ainda jovem, Rivas, sob orientação do caboclo Ubiratão da Guia, seu santo de cabeça, desenhava uns riscados de pemba diferentes dos feitos por outros médiuns. Ele se surpreendeu ao ver no livro Umbanda de todos nós (Freitas Barros, 1956), de Matta e Silva, riscados bem parecidos com os seus.Resolveu procurá-lo.

“Fui até a livraria Freitas Barros, no Rio. Cheguei lá, passei pela porta e um senhor de chapéu falou: ’eê, preto velho’. No balcão, disse que queria o endereço do autor daquele livro. O rapaz disse:‘o senhor passou por ele na porta’. Era o Matta e Silva, um homem branco, miúdo, pernambucano de Garanhuns, professor primário. Quando fui falar com ele, me disse: ‘como você demorou para chegar!’”. Rivas pediu para ser iniciado na umbanda esotérica. Passou a ir ao Rio a cada 15 dias. Freqüentou a casa de Pai Matta até quando este morreu, em 1988.

Woodrow Wilson da Matta e Silva, médium com nome de presidente americano, foi um dos primeiros a propor a umbanda como ciência e filosofia, criando a umbanda esotérica em 1940, em sua casa simples na cidade de Itacurussá, no interior fluminense. Para falar do berço da umbanda, seu livro remete às religiões primitivas da humanidade. “A umbanda não veio das religiões africanas, mas todas as religiões vieram da umbanda, a Lei da Religião Original”, escreveu.

Ao mesmo tempo em que repele a origem africana da umbanda, desdenha os que a praticam usando preces espíritas e católicas. Ele afirma que a verdade de Deus foi revelada à raça vermelha, habitantes originais de Atlântida, o lendário continente que desapareceu submerso no oceano, e passada aos sacerdotes da raça negra, que, quando subjugados pela escravidão, perderam o seu significado.

Tratando-se de religião, não é de se espantar a busca de uma origem ancestral para a umbanda. “Toda religião se diz eterna e imutável”, diz Prandi. “Como a religião é ‘o’ conhecimento da verdade, é um fato que não se pode contestar. É uma revelação divina, uma sabedoria que vem diretamente dos deuses.”.

Prandi destaca que todo fundamento religioso é baseado “em verdades nas quais você acredita ou não”. “É por isso que se é religioso. Na mitologia dos orixás, por exemplo, se diz que os guerreiros ou deuses vieram do leste. A gente sabe que a cultura ioruba, da costa oeste da África, é uma civilização formada por processos de imigração do leste, então tem gente que diz que esse leste é o Egito, outros podem dizer que é a Caldéia, terra de Abraão... mas é sempre um espaço que não se domina. Daí você está a um passo de dizer que os deuses e sua religião vieram de um disco voador”. “A idéia é sempre essa, de que a verdade vem de muito longe, de um mundo desconhecido, inteiramente inacessível a nós hoje e, portanto, não dá pra comprovar nada”, diz.

UNIVERSALISMO

Pai Rivas recebeu do guia de Pai Matta, o preto velho Pai Guiné, a missão de continuar sua escola. Hoje, Rivas não concorda com muitas coisas de Matta e Silva, como as restrições que fazia a outras maneiras de expressão da umbanda. Por isso, fundou a Escola de Síntese, que procura contemplar várias tradições, praticando diferentes tipos de rituais.

A finalidade, segundo seus seguidores, não é fazer uma bricolagem dessas linguagens, mas aceitar na prática a legitimidade dessas correntes. Com isso, pretende enfatizar que vale mesmo a essência da religião.A umbanda, segundo Pai Rivas, e nisso ele segue Pai Matta, não é um apêndice das tradições africanas, mas uma religião universalista, que busca restaurar, segundo suas palavras, a “religião cósmica”.

 Essa religião, para a qual a evolução espiritual estaria nos levando, seria uma volta da humanidade à Aumbhandhan, a unidade que orientava a raça solar (novamente a raça vermelha) vinda de outras pátrias siderais, em obediência ao “Senhor do Verbo dos Iluminados”, para ajudar a Terra e a humanidade a evoluírem.

Na composição desse caráter universalista da umbanda, entram vários elementos e conceitos existentes em outras práticas religiosas, sobretudo orientais, como carma, chacras, tantra, mantra, iantra.

Numa videoaula disponível no site da FTU sobre a cosmogênese, a origem do cosmos, Rivas se esforça para acoplar religião e ciência. “Nossa teologia tem uma forma muito próxima da ciência a respeito da cosmogênese. Num determinado instante, e é aí que começa a se contar o tempo, houve uma explosão, o big bang, que gerou três fenômenos: movimento, luz e som, que se perpetuam no universo, num processo de expansão. O ponto que concentrava toda a energia e a matéria explodiu quando recebeu um influxo espiritual, que chamamos de princípio espiritualizante do orixá, que atuou sobre ele e se tornou poder volitivo, poder da vontade do orixá, que se concretizou em ritmos e ciclos, em energia com vários graus de densidade”.

Rivas prossegue a aula explicando, com base no conhecimento científico, o surgimento do planeta, dos seres vivos e do homem. Em sua exposição, esses acontecimentos estão sempre subordinados à vontade dos orixás, sob a inspiração de um deus superior.

O exercício intelectual e religioso da Escola de Síntese para se aproximar da essência da religião e dar a ela um caráter universal pode implicar o afastamento da umbanda de seu berço e contexto brasileiros, expressos em suas múltiplas formas. Ir à essência é, de certa maneira, afastar-se das formas.

Esse pode ser um movimento legítimo dentro de uma religião sem dogmas.No entanto, o amálgama com elementos de outras tradições para estabelecer esse diálogo universal pode representar um risco de diluição de sua bagagem local e mesmo um risco de espantar seguidores mais tradicionais da fé, arraigados na identidade da umbanda criada na realidade brasileira, carregada de matizes regionais, ao gosto de seus praticantes.

Se seguir sua dinâmica centenária, porém, a umbanda poderá acomodar mais essa tendência. É de muita repercussão nos meio umbandistas a idéia de religião em construção. E a de que a umbanda, não codificada e hierarquizada até hoje, deve continuar assim, sendo construída pela dedicação de cada médium, que é orientado por seus guias e se apóia em alguns poucos conceitos básicos. Acredita-se mesmo que a força dessa religião está no fato de servir de diferentes formas a seus seguidores e às pessoas que a ela recorrem eventualmente, em busca da caridade dos espíritos.

 “TÁ TUDO FORMOSO” UM DIÁLOGO ENTRE A REPÓRTER DE RB E PAI LUCIANO, INCORPORADO POR SEU GERALDO

Diante do altar do pequeno templo na zona norte de São Paulo, seu Geraldo põe suas guias coloridas em honra a Xangô, seu santo de cabeça, um gorrinho branco com estrela bordada, volta-se para as imagens de pretos velhos, caboclos e santos católicos e começa a rezar baixinho. Um estremecimento e um gesto de se curvar indicam a chegada de Pai Luciano por meio da incorporação em Geraldo, negro com seus 63 anos bem conservados. Imediatamente há saudações ao velho, pedidos de bênção. Alguém se apressa em lhe acender um cachimbo. A partir daí, a conversa sobre a umbanda seria, no consenso dos fiéis ali presentes, com Pai Luciano, um preto velho, uma das entidades símbolo da religião. De quando em quando, ele fumava e cuspia num pequeno tabuleiro de madeira e dizia, satisfeito: “Tá tudo bom, fia, formoso”.

RB O senhor desceu no médium Geraldo?

Pai Luciano É. Temos os orixás, que são fontes de luz, que se aproximam e trazem vibrações para o médium. O orixá é quem determina as correntes de incorporação que vão atuar nesse médium.

RB De onde o senhor vem?

Pai Luciano Eu venho de Aruanda, que é a faculdade espiritual. Sempre procuramos conhecimento, estudo, aprendizado, a perfeição.

RB Como é Aruanda? Têm árvores, rios?

Pai Luciano Ali tudo se gera através de energia, vamos dizer dessa forma. É uma camada onde só existem fontes de luz. Nessa luz está o conhecimento em várias línguas. Tem espíritos de Aruanda atuando em vários países, em religiões diferentes.

RB O senhor viveu na Terra antes de ser preto velho?

Pai Luciano Meu último desencarne foi a 420 anos, na Bahia, onde cheguei como escravo vindo do Congo. Mas eu tive muita faculdade antes de ser preto velho. Tive sete vidas, fui cocheiro, senhor de engenho, médico, administrador... Minha missão já estava cumprida na Terra e me deram outra missão, pela vontade divina, que foi orientada por Orumilá, orixá do sentido. Trabalhei 33 anos só com os espíritos em Aruanda.

RB Quando o senhor veio à Terra só como espírito?

Pai Luciano Minha primeira incorporação se deu na Bahia, para reconhecimento do campo terrestre, há 82 anos. Aí foi determinado que eu desceria no Geraldo para formar falanges, grupo de entidades seguidoras de uma corrente de vibração. É uma corrente de pretos velhos que se apresentam com o nome de Pai Luciano e que está à disposição para ajudar as pessoas. Já foram criadas falanges aqui, no Rio Grande do Sul, na Bahia e no Rio de Janeiro, tendas em meu nome, que me representam.

RB Por que o senhor escolheu o Geraldo?

Pai Luciano O Geraldo era um menino que começou a desenvolver sua mediunidade aos 8 anos, depois de ver um amigo fazendo várias brincadeiras usando seus poderes mediúnicos. Ele morava numa fazenda no interior de São Paulo. Geraldo começou a desenvolver sozinho sua mediunidade, com meditação, até que um dia encontrou uma velhinha sentada numa mina de água. Eles conversaram no [nível] espiritual. Depois ele disse ao irmão e aos amigos que catavam lenha que tinha conversado com a vovó, mas os meninos não viram vovó nenhuma ali. Mas ela tinha pedido para ele acreditar na espiritualidade e disse que ele ia ter uma cumbuca nas mãos, eram mãos de cura. O primeiro benzimento que fez foi para o pai dele, que cortou o dedo indicador profundamente sem poder estancar o sangue. O menino correu no campo e colheu três ervas e pediu em nome de Deus e as correntes do espaço para estancar o sangue. Quando chegaram ao hospital, o médico disse que tinha sido um milagre. A partir daí, começou a fila de gente pra ele curar.

RB O senhor só desce no Geraldo?

Pai Luciano Desço em outros. Já atuei em mesa branca, em sessões de elevação e descarrego, auxiliando os trabalhos.

RB Como o senhor avalia o mundo hoje?

Pai Luciano O mundo hoje está muito melhor do que eu vi quando vim fazer o reconhecimento terrestre há 82 anos. Pouca gente ali tinha a força da voz, o restante era submisso. Hoje, as coisas estão mais abertas. Tem abertura muito grande no campo dos estudos, do conhecimento, da ciência. O povo tem cabeça mais aberta, o que está auxiliando muito a evolução espiritual.

 


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