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O jornalismo avestruz
O jornalismo avestruz[ Em CartaCapital - 16/07/2008] Quarta-feira 9, 20 minutos antes de 1 da tarde. O banqueiro Daniel Dantas estava preso há 24 horas, acusado de diversos crimes, entre eles o de tentativa de corromper um delegado federal. Na rádio CBN, uma das tantas emissoras da família Marinho, a onipresente Miriam Leitão continua perplexa. Diz não entender o motivo da prisão, pois as acusações tratam de “coisas do passado” (ao que um gaiato jornalista, ao saber do argumento, comentou: “Ainda bem que a Polícia Federal não prende as pessoas por assuntos futuros, crimes que ainda nem foram cometidos”.) Ao fim do comentário, conforme registra Bob Fernandes no site Terra Magazine, Miriam deixa o estúdio e o colega Carlos Alberto Sardenberg, sem perceber que o microfone continua ligado, emenda: “Ela tá esquisita, não?”
Em sua coluna do mesmo dia em O Globo, Miriam Leitão já havia oferecido aos leitores sua visão dos acontecimentos, teses que viriam a ser encampadas pelo próprio jornal nos dias posteriores. Em resumo, a colunista questionava o fato de o banqueiro ser preso enquanto envolvidos em outros escândalos, como os do chamado mensalão, estavam soltos (ao que o mesmo gaiato jornalista interporia: se nem todos que deveriam apodrecer no xilindró estão na cadeia, então seria o caso de abrir a porta das celas, por questão de isonomia). Segundo a jornalista, Dantas não cometeu crimes (apesar das condenações em cortes internacionais), mas se meteu “em diversas confusões”.
O que se viu no resto da mídia não foi muito diferente. O necessário, mas superdimensionado debate sobre os possíveis excessos cometidos por agentes federais durante as prisões contrastou com a falta de questionamentos a respeito do prejulgamento do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, que antes de conceder o habeas corpus ao banqueiro criticou, em cadeia nacional de televisão, a ação da PF. As inúmeras referências às ligações de Dantas com o escândalo que se convencionou chamar de mensalão faziam sombra às parcas memórias de que o poder do dono do Opportunity criou raízes no processo de privatização dos anos 90. A cobertura da Operação Satiagraha não é reflexo somente do apego aos
fatos expostos pelo Ministério Público e a polícia na terça-feira 8.
Ela reflete os temores da mídia diante de uma investigação que, se
levada a cabo, promete expor pela primeira vez a relação incestuosa de
jornalistas, empresas de comunicação e determinados poderes, privados e
públicos.
O despacho do juiz Fausto de Sanctis que autorizou as
prisões de Dantas, Nahas e mais duas dezenas de acusados não deixa
dúvidas. “Por meio de representações policiais, noticia-se que as
atividades dos envolvidos voltar-se-iam ao cometimento de delitos de
quadrilha ou bando contra o sistema financeiro nacional, contra o
mercado de capitais, de tráfico de influência e eventualmente lavagem
de valores, com o auxílio de alguns representantes dos meios de
comunicação para veicularem informações com o objetivo de distorcer a
realidade e franquear resultados favoráveis a seus interesses”, anexou
ao despacho o juiz da 6ª Vara Federal, especializada em crimes
financeiros. Não é a única referência a jornalistas e veículos de
comunicação no texto.
De Sanctis sabe do que fala. Nas duas
semanas anteriores à Operação Satiagraha, virou alvo de artigos em
sites especializados em Direito e de reportagens de tevê. O juiz foi
acusado de descumprir determinações do ministro do Supremo, Celso de
Mello. Ao mesmo tempo, em sucessivas ocasiões, Gilmar Mendes ganhava
holofotes ao criticar duramente a Polícia Federal. Na mais contundente
declaração, em 2 de julho, Mendes afirmou que o Brasil havia se tornado
um Estado policial e acusou certos agentes da PF de se comportarem como
“gângsteres”. Coincidências?
Coincidências ou não, em quase uma
década da mais exaustiva e intricada disputa societária do capitalismo
brasileiro, a mídia sempre foi um importante campo de batalha. O
Opportunity percebeu cedo a necessidade de vencer a luta por espaço e
tentar manobrar o noticiário a seu favor. Quando ainda despontava no
mundo das finanças, Dantas chegou a merecer uma cobertura crítica.
Adversários e concorrentes o acusavam de operações irregulares no
mercado acionário.
Com o tempo – e o auxílio de um batalhão de
assessores, publicitários e lobistas de diversos calibres regiamente
pagos –, o banqueiro mudou de status. Genial, ousado, aluno brilhante
de Mário Henrique Simonsen. No máximo, controverso. De uns tempos para
cá, outra inflexão: há quem o trate agora como um empresário perseguido
por forças contra as quais não consegue lutar. Quanto ao hábito de
grampear desafetos e concorrentes? Quanto ao fato de que não exista um
único negócio no qual não tenha brigado com os demais sócios? Silêncio.
Prevalece
a tese do oprimido. Como na primeira edição de IstoÉ deste ano. O
banqueiro, eleito um dos “cem mais influentes do País”, é assim
descrito: “Sem armas para enfrentar inimigos tão fortes, Dantas se
recolheu, mas não perdeu o faro nem a capacidade de ganhar dinheiro”.
Ao capítulo da reinvenção da história recomenda-se a leitura da série “O Caso Veja”, no blog do jornalista Luis Nassif (www.projetobr.com.br).
Há vários textos dedicados à aproximação de Dantas com jornalista da
revista de maior circulação do País. Um deles, Diogo Mainardi, o varão
que gosta de acusar outros de emitir opiniões em troca de dinheiro, nos
próximos dias vai se apresentar como o herói que denunciou DD e Nahas.
Uma leitura atenta de suas colunas, como fez Nassif, mostra, porém, uma
coincidência com interesses específicos e imediatos do dono do
Opportunity.
Na última década, CartaCapital é quase
exceção no cenário midiático. Desde o processo da privatização do
Sistema Telebrás, em 1998, do qual DD emergiu como um dos vencedores, a
revista cuida de acompanhar seus atos e implicações. São interesses
puramente jornalísticos, guiados pelo desejo de decifrar a ascensão do
jovem financista, que se aproximou do mundo da política pelas mãos de
Antonio Carlos Magalhães, aninhou-se no tucanato e de lá só saiu para
ingressar nas hostes do PT que fabricaram a aliança com o publicitário
Marcos Valério.
Tem sido uma cobertura intensa e aplicada, que
possibilitou aos leitores montar um painel da história republicana
recente do Brasil, da mistura entre os interesses públicos e privados,
do modus operandi do poder real, aquele que ultrapassa
governos e tendências. Do trabalho jornalístico emergiu não um gênio,
mas um obsessivo. Não um controverso, mas alguém disposto a utilizar de
todos os métodos para alcançar seus objetivos. Um homem condenado na
mais alta Corte britânica por roubar e falsear documentos. Um executivo
cujos métodos foram descritos por um juiz de Nova York como atos “de
bandidos”. Julgamentos e condenações, aliás, de pequena repercussão na
mídia brasileira, apesar de se tratar de um banqueiro que administrou 6
bilhões de dólares, em 2001, e que chegou a controlar empresas de
telefonia e o Metrô do Rio. E assim foi retratado.
É uma longa saga, que remonta aos primórdios da privatização da telefonia. Em 1998, CartaCapital publicou
parte dos diálogos que viriam a ser chamados de “Grampos do BNDES”. A
farta reprodução de trechos de conversas telefônicas espairece qualquer
dúvida da interferência a favor de Dantas. “Temos que fazer os
italianos na marra, que estão com o Opportunity. Combina uma reunião
para fechar o esquema”, afirmou Luiz Carlos Mendonça de Barros, então
ministro das Comunicações, ao economista André Lara Resende, presidente
do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.
Mendonção
e Resende eram os principais executores da privatização da telefonia no
País. A essa altura, o próprio FHC, a “bomba atômica” a ser acionada em
caso de necessidade, segundo Mendonção, e sabedor do que se passava nos
bastidores, comenta que a mídia passara dos limites, de tão favorável
que era a cobertura do processo de privatização.
De lá para cá,
em contraste ao desinteresse geral, a revista noticiou o desenrolar da
disputa pelo controle das telefônicas privadas que emergiram do leilão
da Telebrás, as investigações sobre as contas irregulares de
brasileiros no Opportunity Fund, sediado nas Ilhas Cayman (alvo da
atual operação da PF), as brigas com o ex-sócio Luís Roberto Demarco,
as idas e vindas com a Telecom Italia e o Citibank, a opção pelo
submundo dos grampos e da espionagem e, por fim, sua aproximação de
figuras importantes do PT e seu papel crucial no escândalo do mensalão.
Não fosse a cobertura de CartaCapital e Dantas nunca teria sido
convidado a depor na CPI dos Correios. E sem a sua citação no relatório
final da comissão, a Satiagraha não teria sido possível.
Há quem sempre estivesse – e esteja – disposto a acusar a revista de perseguição gratuita. Há quem tenha deixado de anunciar em CartaCapital brandindo esses argumentos (ou desculpas). Mas os fatos, ao longo do tempo, confirmam o acerto da cobertura.
Agora
mesmo, no calor das prisões, chegam informações de que Dantas, em sua
estratégia para despistar a polícia, lançou falsas acusações contra CartaCapital. Assim que souberam, por meio de uma reportagem da jornalista Andrea Michael, da Folha de S.Paulo,
da existência de uma nova investigação, DD e alguns dos envolvidos no
caso passaram a se referir ao jornalista Mino Carta em conversas
telefônicas. Diziam que Mino estava no “bolso deles”. Só há duas
explicações: ou Dantas está tão acostumado a oferecer benesses a
jornalistas que chegaria ao ponto de dar dinheiro a quem expõe suas
manobras ou é o primeiro empresário que prefere a verdade às loas
distribuídas sem critério a qualquer executivo bem-sucedido. Assim os
desonestos vão reclamar.
Dantas, sabe-se, é onipresente em
vários setores da sociedade. Na política, por exemplo, serve-se do DEM,
do PSDB e do PT. Na advocacia, é praticamente impossível encontrar um
único grande escritório do País que por ele não tenha sido contratado.
Houve época em que à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) não chegavam
processos contra o Opportunity porque os diretores, oriundos da
advocacia privada, eram obrigados a se julgar impedidos por já terem
defendido os interesses do banco. Na mídia, a influência não chega a
ser tão extensa, mas o que se prenuncia nas entrelinhas da Satiagraha é
a revelação de um esquema que atinge publicações diversas e, em tese,
concorrentes.
O desenrolar das apurações dependerá, sobretudo,
da queda-de-braço entre os advogados de DD, o Ministério Público e a
PF. A Operação Satiagraha já se inscreve nos enredos policialescos mais
conturbados da história dos crimes financeiros. Em menos de 24 horas,
Dantas foi posto em liberdade por um habeas corpus concedido pelo
presidente do STF, Gilmar Mendes, e voltou para a cadeia por ordem do
juiz De Sanctis. Por quanto tempo vai durar o jogo de gato e rato? [Artigo da Carta Capital: www.cartacapital.com.br]
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