M�dia
A favorita não vai facilitar nosso trabalho
Por Sergio Domingues
Circularam informações de que a nova novela da Globo defenderá os interesses das empresas que exploram eucalipto. Até vai. Mas, será do jeito sutil, indireto e bem feito dela. Para nosso azar. Antes da estréia de “A favorita”, circularam informações na internete dizendo que a nova novela da Globo defenderia o cultivo de eucalipto. E que empresas ligadas a esse tipo de plantio estariam patrocinando a novela. Assim, é de se esperar que a plantação de eucaliptos seja defendida contra seus efeitos terríveis. Especialmente, os danos ao meio-ambiente e o ataque aos direitos de populações ribeirinhas, quilombolas e indígenas.
Exibidos os primeiros capítulos realmente verifica-se que o empresário vivido por Mauro Mendonça é proprietário de uma fábrica de papel. Mas, até agora, as atividades da fábrica não foram abordadas pela trama. Na verdade, foram. Só que apenas do ponto de vista sindical. O empresário enfrenta um piquete de greve logo no primeiro capítulo. Questões ambientais ou ligadas a problemas sociais mais gerais não apareceram. Pelo menos, por enquanto.
No entanto, aquilo que já foi mostrado deixa clara a habilidade da Globo em manipular temas polêmicos a favor de valores conservadores.
Pra começar, talvez seja a primeira novela a mostrar negros que são ricos. É a família do deputado vivido por Milton Gonçalves. Um dos líderes sindicais da região onde fica a fábrica de papel é o personagem de Tarcísio Meira. Ele e o dono da empresa foram criados juntos, mas passaram a se odiar depois de se tornarem trabalhador e patrão. O namorado da neta do empresário trabalha na fábrica. Quando uma greve é decretada, ele se mantém ao lado de seus companheiros. Os grevistas são mostrados com simpatia. Já o fura-greves da estória (Jackson Antunes) é mostrado como sendo puxa-saco, egoísta e de um machismo nojento.
Mas nada disso é o que parece. Em primeiro lugar, a riqueza da família de negros vem das atividades desonestas de seu chefe na política. Em segundo lugar, aos poucos a novela mostra que o ódio do velho sindicalista ao patrão deve-se mais a uma antiga paixão. É a personagem de Glória Menezes, que, na juventude, preferiu o outro a ele. Além disso, o duelo entre os dois no piquete do primeiro capítulo acabou com o sindicalista fazendo papel ridículo. O sindicalismo parece coisa de pessoas e idéias velhas.
E tem mais. Todos se relacionam com todos. Como foi dito, o sindicalista foi criado junto com o patrão. A esposa deste é cobiçada pelo outro. O marido de uma das rivais já foi casado com a outra, e esta teria matado o primeiro marido daquela. A filha da primeira foi então criada por esta. O jornalista por quem a personagem de Patrícia Pillar se apaixona começa a se envolver com sua rival, vivida por Cláudia Raia. A filha do político corrupto, por sua vez, também deita com o mesmo jornalista. Uma família pobre aparece na trama e descobre que foi enganada. Comprou uma casa popular que não existia. O responsável pela obra é o deputado vivido por Milton Gonçalves. É provável que uma das filhas da família (Débora Secco) se envolva com o filho do político. Ou com algum outro de condição social superior.
É possível que venham a surgir problemas ambientais e sociais durante a novela. E a fábrica de papel certamente estará no meio. Mas, numa trama circular dessas, há pouco espaço para algo mais que não seja dramas familiares e afetivos. Nem classes sociais, nem exploração capitalista estarão presentes, nem serão bem-vindas pela grande maioria do público que as novelas formaram.
Provavelmente, “A favorita” acabará por convencer a grande maioria de sua audiência de que plantar eucalipto e preservar o meio-ambiente e os direitos das populações pobres é perfeitamente possível. Que conflitos sindicais são mais uma questão de desarmar os espíritos. E que a política pode ser muito boa se nos livrarmos dos corruptos. Como se não houvesse parlamentares que foram legalmente comprados através do financiamento de suas campanhas. Bem pagos para defender os interesses de empresas como a Aracruz, Suzano, Vale e a própria Globo.
A Globo não é boba. Não vai fazer uma novela panfletária a favor da direita e dos patrões para facilitar nosso trabalho. Seu ofício é outro e vem sendo aperfeiçoado há muito tempo. Conquista a atenção do grande público com suas tramas muito bem feitas. Estórias que defendem o verdadeiro amor, a família unida, a honestidade e o trabalho duro. Ainda que tudo disso seja sacrificado todos os dias para manter a ordem capitalista. Mas, a vida real não vale. O que vale mesmo é o que passa na novela.
Junho de 2008
Núcleo
Piratininga
de Comunicação
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