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M�dia
O rabo preso

Por Emir Sader

Houve um jornal que já se jactou de dizer que "só tinha o rabo preso com o
leitor". Era importante essa afirmação, para se livrar de um passado em que
a empresa teve vínculos com a Operação Bandeirantes conforme denúncias
contidas no livro "Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à
Constituição de 1988" (Editora Boitempo) -, além de ter participado
ativamente no coro que pregou o golpe militar para interromper o processo
democrático brasileiro e o mandato de um presidente que exercia
legitimamente seu cargo, apoio que se estendeu  conforme os editoriais e a
atitude tomada diante da repressão  à ditadura militar.

Durante a transição democrática, o jornal tentou se fazer passar como
"representante da sociedade civil", chegando a fotografar a supostos
representantes dela em cima do prédio do jornal, querendo fazer passar a
imagem de que até fisicamente o jornal era o suporte da oposição democrática
à ditadura que ela tinha pregado tudo isso sem fazer a mínima autocrítica
de suas atitudes passadas.

Mais recentemente, o jornal apoiou abertamente o governo de FHC,
estabelecendo estreitos vínculos com os tucanos, particularmente os de São
Paulo, tendo reiteradamente ao atual governador não apenas como um
colaborador usual do jornal, assim como alguém que tem laços estreitos com a
direção do jornal, chegando segundo declarações de uma fonte segura do
próprio jornal  a indicar o editor político do jornal em Brasília, entre
outras expressões desses laços.

O jornal é dirigido há décadas por membros de uma mesma família, em que o
filho herda  como numa monarquia  a direção do pai, constituindo um Comitê
Editorial que  ao que se saiba  não decide quem dirige o jornal ou então é
composto por membros admiradores da perpetuação da mesma direção  problema
que apontam em regimes com os quais o jornal não simpatia, como os de Cuba e
da Venezuela, entre outros. Trata-se portanto de uma dinastia familiar que,
no entanto, se acha no direito de dizer e tentar influenciar a opinião
pública sobre quem é democrático e quem não o é, em São Paulo, no Brasil e
no mundo.

Colunistas, editorialistas, redatores pretendem ser impávidos defensores das
liberdades  de mercado, dos indivíduos, das empresas, etc. No entanto, suas
preferências seletivas ficam claras quando colocam as ênfases diárias,
reiteradas, nos casos que afetam ao governo  do qual é feroz e
obscurantista opositor -, omitindo os casos que afetam a oposição e o
próprio jornal.

Dois casos recentes confirmam inquestionavelmente isso: quando Paulo
Henrique Amorim foi mandado embora do IG, por um jornalista com evidentes
preferências tucanas, o primeiro ombudsman desse jornal, com tentativa
frustrada pela ação da Justiça de se apropriar de todo o material publicado
por PHA quando trabalhava nesse portal. Nenhum colunista  esses impávidos
defensores das suas liberdades, mas não das alheias  se pronunciou
denunciando a arbitrariedade. O silêncio cúmplice soou ruidosamente.

Poucos dias depois, não foi renovado o mandato do melhor ombudsman que o
jornal havia tido, Mario Magalhães, que sistematicamente denunciava a opção
claramente tucana do jornal, privilegiando ao governador de São Paulo
candidato da preferência clara do jornal para tentar recuperar para os
tucanos a presidência da República -, assim como o tratamento dado ao
governo Lula em comparação com a complacência dada ao governo de FHC. Este,
protagonista dos maiores escândalos da história brasileira, entre eles a
privatização acelerada do patrimônio púbico através do processo de
privatizações e a compra de votos para modificar a constituição e conseguir
a reeleição durante o seu mandato (denunciando enfaticamente eventual
possibilidade de Lula apelar para mecanismo similar como totalitário,
inadmissível, etc., quando antes havia sido conivente com mecanismo similar
de FHC).

O ombudsman não teve seu mandato renovado, porque o jornal queria retirar da
internet as criticas diárias que ele fazia ao jornal, com o que ele não
concordou. Claramente incomodada, a direção do jornal  que tem no filho do
antigo proprietário sua autoridade máxima, portanto pode-se supor que seja
ele o responsável pela decisão ou seria o Comitê Editorial, nenhum
esclarecimento foi dado a respeito aos leitores, com os quais o jornal se
orgulhava de ter o rabo preso)  optou por não renovar seu mandato, por ele
não concordar com essa censura que queriam impor aos leitores do jornal.
Estes  cada vez mais escassos, a metade do que foram há uma década,
seguindo em acentuado declínio, rumo à intranscendência  protestaram com
cartas, sem que nenhuma apoiasse a direção do jornal, mas em vão. O rabo
está preso em outro lugar, não com os leitores.

Inútil olhar as colunas dos impávidos defensores das liberdades
supostamente colocadas em risco pelo governo Lula  para ver alguma linha de
solidariedade com o colega, que teve sua excelente atuação como ombudsman
cerceada pela direção do jornal. Nem é preciso mencionar nomes, todos caíram
na vala comum da complacência com a repressão a Paulo Henrique Amorim e
depois ao próprio colega da redação. Nem uma palavra, ainda que fosse para
justificar sua posição, nada. Vários deles aparecem como membros do Comitê
Editorial. Aprovaram a medida Ou estas foram tomadas sem sequer consulta a
eles Em qualquer dos casos, saem eticamente manchados definitivamente na
sua trajetória como jornalistas.

Covardia? Medo de perder o emprego? De cair em desgraça com o dono do
jornal Cada um julgue como queira. Mas é evidente que o jornal e seus
colunistas, editores e redatores, confirmaram sua opção de rabo preso com os
proprietários e, através destes, com os tucanos e com tudo o que eles
representam a mais rançosa direita brasileira, aquela que produziu o país
mais desigual do mundo e que agora resiste ferozmente a um governo que, pela
primeira vez  depois de tantos governos apoiados pelo jornal terem
reproduzido essa situação  melhorar significativamente a situação do
pobres, contra os interesses daqueles com quem o jornal tem seu rabo preso.

 


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 NPC - Núcleo Piratininga de Comunicação * Arte: Cris Fernandes * Automação: Micro P@ge