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História
28 de Março: a Rio Branco grita em Uníssono, mas a grande mídia não ouve.

Por Leandro Uchoas

Eles não saem nos jornais, nem ganham prêmios ou homenagens. Nunca aparecem na TV, e colecionam suas atitudes heróicas vendo, de longe, os holofotes voltados, sempre, aos medíocres. Porque não têm visibilidade, muitos dizem que já não existem mais. Querem convencer-nos de que eles caíram junto com um certo muro alemão. Mas aqueles que se indignam com as iniqüidades sociais, e que ainda ousam sonhar com um mundo menos absurdo, com um planeta menos degradante, ainda existem sim. No último 28 de março, foram eles que coloriram as ruas da Rio Branco para homenagear o estudante Edson Luis, cujo assassinato covarde pela ditadura militar, há 40 anos, desencadeou uma série de protestos em todo no Brasil de 1968.

A esquerda carioca atravessou o centro da cidade agitando suas bandeiras de luta pacífica, movidos por suas cantigas doces de protesto que os espectadores, coitados, são privados de assistir pela televisão. Estudantes universitários e secundaristas, movimentos sociais e partidos políticos uniram-se em torno de suas muitas bandeiras, protestando contra as iniqüidades a que são, diariamente, submetidos direta ou indiretamente. “Essa é a esquerda que o Gabeira diz que não existe mais”, ironiza Ricardo Melo, da juventude do PSOL, sobre o candidato neotucano à prefeitura da cidade.

Cantaram alto seus hinos de protesto, lembrando de cada luta dos núcleos ali representados. Juntos, clamaram por terra, por saúde, por habitações dignas, pela reestatização da Vale do Rio Doce, pelo Passe Livre, e pela democratização da mídia. Juntos, protestaram contra a privatização do petróleo e do gás, contra a reforma universitária de Lula, e contra o Caveirão. Uniram-se, principalmente, em torno de dois eixos: pela educação e contra a violência. O cartaz de vinte metros com a frase “Parem de matar os jovens” parecia o registro mais nítido do absurdo de estarmos convivendo com a mesma mão assassina do Estado, quatro décadas depois do tiro covarde no peito de Edson Luis.

Do outro lado da cidade, na Casa do Estudante do Brasil, a governista UNE, que em 1968 ainda representava os interesses dos estudantes, se reunia com os representantes dos governos federal e municipal, para inaugurar uma escultura em homenagem a Edson Luis. Afinal, é sempre conveniente aos assassinos de hoje condenar os de ontem. Se ainda representassem os estudantes, iriam advertir o governador de que daqui a 40 anos, os governos do futuro gastarão muito dinheiro inaugurando esculturas para os milhares de jovens assassinados nas favelas pela tropa de Beltrame.

Entre as milhares de pessoas que pulavam gritando “a ditadura já acabou, só quem não sabe é o governador” ou “nas ruas, nas praças, quem disse que sumiu? Aqui está presente o movimento estudantil”, havia gente de todas as tribos, exceto jornalistas da grande imprensa, uma espécie em extinção que não freqüenta lugares esquisitos. O vendedor ambulante Leandro Duarte ficou surpreso. “Nunca tinha visto a Rio Branco assim”. Mas o secundarista Sullivan Monassa adverte que a mobilização diminuiu. “Ano passado veio muito mais gente, mas o pessoal apanhou da polícia. Esse ano muita gente ficou com medo”.

Inicialmente, o ato foi concebido pela Plenária dos Movimentos Estudantis. Mas a proposta, segundo um dos organizadores, o estudante de História Anderson Tavares, era desde o início “juntar-se a outros segmentos para pautar outras bandeiras, para além do movimento estudantil”. Em sua próxima reunião, a Plenária vai iniciar o planejamento das manifestações do Dia do Trabalho, em 1º de maio. “Esses eventos mostram o sucesso da rearticulação dos movimentos depois da crise da esquerda pós-eleição de Lula”, comenta Anderson. Na grande imprensa – é mesmo incrível – nenhuma palavra de novo.

A reunião da Plenária dos Movimentos Sociais está marcada para 2 de abril, quarta-feira, às 18hs, no SEPE (Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação).

Fotos: Leandro Uchoas.


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 NPC - Núcleo Piratininga de Comunicação * Arte: Cris Fernandes * Automação: Micro P@ge