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Cinema
O Poder não olha a vocação.

Por Raquel Junia

Lá pelas tantas um senhor, despenteado e com roupas sujas, pergunta: “Qual o canal?”

“Canal?”, responde o candidato a vereador, “não é canal nenhum, não”.

A cena faz parte do documentário de Eduardo Escorel A Vocação do Poder 

O filme mostra a preocupação comum entre o cidadão desvalido e cinco candidatos a vereadores em se apresentar diante das telas com uma determinada imagem. A diferença é que os candidatos estão em uma disputa eleitoral, que lida, excessivamente, com a aparência; e o senhor, é o sintoma de uma sociedade carente de espaços de expressão. O “canal” sobre o qual ele pergunta são as câmeras da equipe do documentário.

Foi na mesma cena que um dos candidatos tenta convencer a um possível eleitor de que ao bom político interessa a conscientização da população. Aliás, talvez o único dos cinco que se reivindica de esquerda. Um outro candidato em certo momento diz: “esse negócio de burguesia fede”. É o mesmo que fica feliz por ter conseguido dois mil votos, é o mais pobre dos quatro, ou o único pobre, morador de uma comunidade, mas sem condições de articulação política e elaboração de propostas concretas.

 O filme acompanhou a trajetória da campanha política durante o período eleitoral de 2004, quando mais de 20 mil candidatos disputaram as 50  vagas para vereadores do Rio de Janeiro. A imagem perpassa todos eles, um dos candidatos, diz em certa altura que está cansado de ficar rindo o tempo todo e é assim que ele realmente se apresenta para os possíveis eleitores: a típica figura do bom moço da zona sul, com camisa de botão, dentes alvos e certinhos, pele clara, cabelo liso. A aparência não é suficiente para que ele conquiste o cargo de vereador, mas de primeiro suplente, talvez pela quantidade alta de votos necessários para a sua legenda partidária. Dois dos cinco, acabam sendo vereadores, uma pastora evangélica, um jovem filho de pai com trajetória política, o vereador mais jovem do Rio de Janeiro.

O documentário desconstrói fórmulas, mostra a fragilidade de uma candidatura política, mesmo quando ela tem padrinhos fortes como um pai deputado federal e a mãe deputada estadual e evidencia as confusões sobre o entendimento a respeito da democracia. Ao final é imagem, apenas imagem, ou ilusão de que os processos eleitorais são expressões da participação popular. Não existe vocação para o poder, existe um momento histórico.


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 NPC - Núcleo Piratininga de Comunicação * Arte: Cris Fernandes * Automação: Micro P@ge