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M�dia
Os milionários da milionária revista

Por Leandro Uchoas

        

Em incansável esforço semanal por reinventar a maneira de se fazer jornalismo, arquitetando de forma criativa e inovadora formas novas de escamotear em texto seu compromisso com as empresas que a financiam e com os políticos que a protegem, a revista Veja do dia 23 de janeiro criou mais um capítulo ímpar.

A reportagem “os heróis do capitalismo” exalta os incríveis 190 mil brasileiros que agora pertencem ao seleto grupo de milionários brasileiros, a inenarrável parcela de 0,1% da população brasileira. “100 em cada 100 mil brasileiros já são milionários”, diz a revista, como quem cita uma quantidade bacana. Os 99.900 que não são parecem não interessar muito.

Para exaltar os valores, colhidos pela empresa de consultoria (mais um indício de que a pesquisa foi encomendada pela revista) Boston Consulting Group, Veja ainda faz uma inexplicável comparação. “A probabilidade de se tornar milionário no Brasil é 22% maior do que a de ser assassinado, e 50% maior do que a de morrer de acidente.” Não dá pra deixar de se encantar com o ineditismo das analogias da revista.

O primeiro exemplo de brasileiro milionário é um vietnamita. Thai Quang Nghia, um imigrante “fugitivo do comunismo”, teria ficado rico fabricando bolsas e mochilas. Em seguida, Veja exalta Heloisa Assis, uma ex-babá que teria ficado rica (aparentemente ainda não faz parte do grupo de milionários) ao descobrir uma fórmula inovadora de produtos de beleza. Ao ressaltar o sucesso de grupos que geralmente ataca (imigrantes, negros, etc), Veja dá um recado conveniente, como quem afirma que no capitalismo brasileiro os negros também podem ascender à burguesia.

Thai e Heloisa são exemplos de “empreendedores” que a Endeavor, empresa pra quem a revista dedica seu maior box, financiou. A reportagem tem muitos indícios de que teria sido encomendada por essa empresa, que ganha grande destaque no texto. O jornalismo de Veja, portanto, parece guardar alguma conexão com os mecanismos de publicidade mais vis.

A professora de pós-graduação em História da UFF Virginia Fontes explica que esse tipo de empresa como a Endeavor está interessada em “formar o que Marx chama de capitalista funcionante. Aquela pessoa capaz de descobrir um nicho de exploração de força de trabalho capaz de remunerar o capital rapidamente, e de extrair intensamente mais-valia. E é em nichos até então não aproveitados pelo mercado.” O capital financeiro, segundo ela, monta empresas como a Endeavor para forjar “empreendedores”, selecionando pessoas que conhecem o espaço onde atuam.

Veja não se esquece de ridicularizar a esquerda. Para a revista, ninguém questionaria seus argumentos, exceto “os prisioneiros de uma certa mentalidade jeca-tatu, segundo a qual a criação de milionários só pode se dar pela concentração da riqueza nas mãos de poucos privilegiados. Esses observadores são vitimas de uma das falácias mais toscas que turvam a visão da economia, a do ‘jogo de soma zero’. Ou seja, o meu ganho significa a sua perda.”

Basicamente, o que Veja diz é que independente da desigualdade social, novos milionários em novos nichos de mercado significariam mais emprego. “O que Veja se esquece de dizer é que quem cria a riqueza que gera o lucro é o trabalho. Não é o capital que dá emprego, é o trabalho que gera riqueza para o capital. Isso é um pequeno detalhe. Esquecer isso é muito conveniente. Portanto não é de fato um jogo de soma zero. É um jogo no qual se extrai de alguns para crescer pra outros”, esclarece Virginia Fontes.

Pra completar, a revista enaltece a “incrível vocação do brasileiro de aventurar-se no mundo como empresário”, sem explicar porque, no capitalismo que pratica, essa incrível vocação não tira da miséria milhões de brasileiros. E dá dez receitas para o que chama de “vencedores” (deixando subentendido que os 99,9% de brasileiros que ainda não são milionários são perdedores. É o darwinismo social enfeitado com belas palavras). As dez sugestões parecem saídas de livros de auto-ajuda.

A revista termina com um texto de Armínio Fraga intitulado: “o Brasil descobriu o capitalismo”. Infelizmente, não há como discordar dele. Faltou apenas completar: “e o capitalismo descobriu sua porta-voz semanal”.

 


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 NPC - Núcleo Piratininga de Comunicação * Arte: Cris Fernandes * Automação: Micro P@ge