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Cinema
Sobre o Festival Latino Americano da Classe Obrera, em Belo Horizonte

Por Aline Souza 

Quando já não havia mais esperanças de realização do Festival Latino Americano da Classe Obrera - FELCO em Belo Horizonte, eis que surge uma luz no fim do túnel movida por uma imensa vontade de promover o cinema militante nessa cidade capital mineira, mostrando que é possível o uso do cinema como ferramenta de construção social e de mobilização em prol da educação. Como a própria vinheta do festival diz, sempre usamos o cinema para ensinar, devemos usá-lo agora para aprender! 

Foi nesse intuito que o público compareceu ao FELCO na sua segunda edição na cidade, que contou com a participação de integrantes do coletivo de São Paulo, diversos representantes dos movimentos sociais, realizadores mineiros e instituições que trabalham em defesa do cinema. Além disso, os debates promovidos nos dias 31/03, 02/04 e 03/04, registrados pela Atos – Central de Imagens, contribuíram para um aprofundamento nas questões propostas pelos filmes, que iam desde a luta pela moradia, a luta pela terra e por uma educação digna, pública e de qualidade para todos, até questões subjetivas de vídeos poesias e temas ambientais muito presentes nos nossos dias atuais. Entre documentários e ficções latino americanas, incluindo aí o Brasil - embora muitos ainda acreditam que ele não faz parte do continente latino - o público que compareceu ao Cine Humberto Mauro nos dias das exibições gratuitas com três sessões diárias pôde experimentar um pouco das lutas sociais que todos enfrentam diariamente. 

Dentre  as produções escolhidas pela curadoria do festival destacam A escravidão do acúcar -25´, um filme que impressiona pela força de seus depoimentos acerca do trabalho escravo no Brasil; Granito de Areia – 61´, sobre as manifestações mexicanas em favor das escolas rurais gratuitas contra a privatização da educação e  a formação de capital humano promovido por ela, além do “Docfic” Rio Arriba – 75, que traça um perfil social da Argentina e seus vizinhos enquanto acontece a viagem do personagem central em busca de suas referências culturais. Entre curtas, médias e longas, o festival procurou trazer as temáticas mais atuais de nosso tempo sem deixar de lado a poesia e o fascínio do cinema. 

Também o Espaço Cultural Ystilingue fez exibições de filmes no dia 07/04. Em caráter bem Lado B, a tela era uma parede não tão branca  do Edifício Maleta, centro da cidade. Ao som de alguns burburinhos e entre um gole de cerveja e outro, o público foi tomado de assalto pela vinheta eletrizante do festival. O FELCO ia começar!  

Outro espaço exibidor entre os dias 09/04 a 12/04 foi a Escola Popular Orocílio Martins Gonçalves - EPOMG, que trabalha basicamente  com a alfabetização de adultos, em sua maioria operários da construção civil desprovidos de qualquer oportunidade educacional na fase escolar. Os “educandos” encontram na EPOMG a chance de aprender e se formar politicamente, de modo mais crítico, sobre o meio que nos cerca e sobre a mídia que nos aliena transformando-nos dia a dia em vítimas do consumo. Neste espaço foram exibidos filmes com a temática da questão agrária brasileira ganhando mais força, além de curtas sobre a democratização da mídia e o destaque para Construção -8, filme que fala da realidade de um operário sob a ótica de um estudo fotográfico para retratar a canção de Chico Buarque.  

Os debates na EPOMG tiveram como principais temas as questões da educação popular, a repressão  do Estado e sua perseguição aos movimentos sociais. O sofrimento do povo brasileiro é latente e isso ficou claro nos depoimentos que foram colocados. Naquele ambiente era como se os próprios personagens dos filmes estivessem presentes, sendo eles também o alvo e o objeto dos filmes. Relatos de vida e de luta, da experiência de cada um, pais de família, avôs e avós muitos deles. A participação do público, embora tímida inicialmente, foi de extrema importância para cumprir com o propósito do FELCO de promover o debate entre aqueles que normalmente não têm acesso ao cinema ou qualquer manifestação artística, a não ser aquelas produzidas por eles mesmos nos guetos onde sempre foram confinados. 

Aqui também cabe uma autocrítica: nenhum desses depoimentos foram registrados pelo simples motivo da falta de envolvimento daqueles que se dispuseram em realizar o festival em grupo, em equipe. Isso se dá fruto da contradição diária em que vivemos, pois aqueles que detinham esses meios eletrônicos concluíram que na EPOMG os depoimentos não mereciam um registro, que dirá a presença dessas pessoas e suas contribuições para o debate e para a educação através do cinema. Uma situação lamentável que esbarra no individualismo exacerbado em que vivemos impedindo-nos de avançar e evoluir. Somente no último dia de exibição na escola é que o registro fotográfico e videográfico foi feito, porque acreditamos que isso não poderia deixar de acontecer. De tudo isso fica o aprendizado para quem lá esteve, que é muito maior do que qualquer registro, é o aprendizado da memória! 

Cerca de 840 pessoas transitaram pela sala Humberto Mauro na semana do Festival Latino Americano da Classe Obrera em Belo Horizonte. Antes de mais nada este é uma festival livre. Se pretende livre! Porém, as suas lutas são de todos, não só as lutas que seus filmes transmitem, como também a luta para se realizá-lo. Foram várias as dificuldades que tiveram pela frente o comportamento cultural instituído e ainda a engatinhante referência de “coletivo” que temos, de uma ação que não é de uma única pessoa e que principalmente depende do público, das pessoas, de quem faz a sociedade, de quem cumpre  as leis e de quem não concorda com muitas delas. O FELCO está aqui, está nos ensinando a aprender com o cinema e com nós mesmos.  

Vida longa ao FELCO! Precisamos propagá-lo, todos os grupos e movimentos sociais precisam dessa arma de luta. Vida longa à cultura popular, à memória popular e VIVA  a dignidade da América Latina!!

 


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 NPC - Núcleo Piratininga de Comunicação * Arte: Cris Fernandes * Automação: Micro P@ge