Essa transformação no mundo do trabalho gerou também uma mudança nas formas de luta e organização dos trabalhadores. Muitos movimentos sociais surgiram. Organizam desempregados, trabalhadores sem-teto, camelôs. São movimentos contra a violência policial (que também cresceu muito nesses anos), pré-vestibulares comunitários, movimentos que organizam ocupações de prédios e terrenos públicos ou desocupados, contra as remoções dos moradores de favelas etc.
Esse processo todo gerou uma gritante fragmentação das lutas dos trabalhadores. Para qualquer um é difícil, nos dias de hoje, conhecer as diferentes lutas e os diversos movimentos sociais que as organizam. As cidades, especialmente as maiores, estão repletas dessa diversidade de experiências políticas e organizativas. A construção de uma maior unidade entre essas lutas é um passo decisivo para fortalece-las. A reconstrução de uma identidade de classe entre todos esses segmentos dos trabalhadores é fundamental para quem acredita em uma verdadeira transformação social. Para todos que acreditam em uma luta classista.
A imprensa sindical, em um país tão marcado pela concentração dos meios de comunicação, tem um papel estratégico para os trabalhadores. Através dela é possível distribuir informações negadas pela mídia burguesa. Através dela é possível aos trabalhadores se conhecerem uns aos outros. É possível aos trabalhadores conhecerem a diversidade de suas experiências, unificarem lutas e construir uma verdadeira identidade de classe. Mas, para tal, é necessário que os jornais sindicais falem das lutas e movimentos sociais urbanos e rurais.
O Observatório dos Conflitos Urbanos pode colaborar muito com a imprensa sindical. Seu site apresenta as manifestações urbanas cariocas, classifica-as segundo o objeto do conflito, forma de luta e agentes envolvidos. Iniciativa de uma equipe do IPPUR/UFRJ e, restrita inicialmente à cidade do Rio, hoje o Observatório vê estar sendo montada uma rede de pesquisadores desse tema em várias cidades brasileiras e mesmo latino americanas. Alagoas e Belo Horizonte são algumas daquelas que em breve terão seus sites na internet em pleno funcionamento.
Através dos relatos de manifestações enviados pelos próprios movimentos, o Observatório busca ajudar a dar voz àqueles costumeiramente forçados a se calar. Proporciona também um contraponto às informações da grande imprensa. Pretende assim acumular um tipo de conhecimento importantíssimo para a universidade pública e democrática. Pretende também ser uma fonte para jornalistas, estudantes, sindicalistas e movimentos sociais urbanos e rurais.
A imprensa sindical pode usar fácil e amplamente o banco de dados do Observatório. Pode também enviar informações de manifestações e lutas ocorridas ou que vão ocorrer. Pode, sobretudo, ajudar a fazer com que essas informações atinjam um público muito maior do que o de internautas, minoria em nossa sociedade tão desigual. Produzindo suas próprias análises sobre os conflitos, priorizando os temas e lutas que achar mais importantes, mas divulgando a ocorrência das manifestações que acontecem quase diariamente, os jornais sindicais contribuirão para ampliar as vozes daqueles que lutam. Contribuirá para reconstrução da unidade e identidade de classe. Será um instrumento mais eficaz para a transformação social.
Guilherme Marques Soninho - Equipe do NPC e pesquisador do Observatório.