Ao mesmo tempo, nem passa pela cabeça do policial que haja algo de sobrenatural nas façanhas do mágico. É que vivia-se num tempo em que o racionalismo é regra, pelo menos entre as elites. O próprio príncipe Leopold (Rufus Sewell) é um racionalista entusiasmado. O herdeiro do Império Austro-húngaro acredita que as respostas têm que ser todas encontradas pela razão. Por isso, ele gosta de desafiar Eisenheim.
É a época da revolução industrial e das grandes descobertas científicas. Tudo o que não fosse explicável pela ciência era arcaico, superstição, tinha que ser eliminado. Um racionalismo que justificava a repressão a operários descontentes com a exploração imposta pelo ritmo das máquinas, por exemplo. E também massacres, como os de Canudos e do Contestado, cujos habitantes eram considerados uma raça de ignorantes e supersticiosos.
Tal confiança nas luzes da razão ajudou a ciência a evoluir no sentido que interessava à produção capitalista. Seria preciso domar as leis da natureza a qualquer custo para obter lucro. Em tempos de aquecimento global, vê-se que é tarefa muito difícil e perigosa. Por outro lado, jamais foi garantia de paz social, tolerância, melhores condições de vida. É o que parece dizer o filme ao mostrar a reação enlouquecida de Leopold no final do filme. Ele chega a dizer que se não assumisse o poder no lugar do pai, o império seria tomado pelos mestiços. Parece uma antecipação do racismo nazista, que nasceu exatamente na Alemanha, considerada uma das nações mais racionais do mundo. É que na sociedade de classes, a razão também pode ser usada para manter a exploração e a dominação.
Um momento marcante é o truque da espada. Em uma apresentação no palácio, o ilusionista prende a arma do príncipe ao chão. E faz uma referência à lenda do Rei Artur, que foi o único a conseguir tirar de uma rocha a famosa espada "Excalibur". Depois de várias tentativas sem sucesso por parte de alguns nobres presentes, chega a vez do próprio príncipe. Ele consegue arrancar a espada do chão, mas não sem antes ter que implorar com o olhar ao mágico. Uma humilhação para o herdeiro do império.
Nesse caso, poderíamos pensar nas relações contraditórias entre a grande mídia e governos de plantão. E não estamos falando apenas das últimas eleições, em que a maioria dos grandes meios de comunicação tentou devolver o poder aos tucanos. Lembremos de Collor de Mello. É verdade que sua eleição foi obra de um dos trabalhos mais escandalosos de jornais, revistas e emissoras na história do País. No entanto, a coisa mudou quando sua impopularidade disparou, as denúncias surgiram e sua permanência no governo colocou em perigo o próprio sistema político. Aí, os antigos aliados da grande mídia não vacilaram em ajudar a afastá-lo do Palácio do Planalto. E o fizeram como se nada tivessem a ver com a chegada de Collor ao governo. Isso é que é ilusionismo.
O truque de Einseheim parece mostrar o poder dos que detêm a capacidade de iludir grandes parcelas da população. Os governos têm a espada a seu alcance. São o exército e a polícia. Mas, os grandes meios de comunicação trabalham no nível do convencimento. Sem eles, fica difícil convencer a maioria da população de que o uso da força é necessário. A espada dificilmente será usada se os ilusionistas não tiverem preparado o terreno e não estiverem de acordo.
Foi o caso do golpe de 1964. Assis Chateubriand, Roberto Marinho, Folha, Estadão, tiveram um papel fundamental para viabilizar o golpe militar. Sem falar nos filmes do IPES (Instituto Brasileiro de Pesquisas Sociais). Eram pequenas produções exibidas em cinemas de todo País antes dos filmes principais. Mostravam um Brasil caótico, dominado por ditadores, subversivos, baderneiros. Exigiam ordem e progresso a qualquer custo. Uma contribuição e tanto na preparação do terreno para que a espada entrasse em ação.
Uma cena reveladora acontece quando o ilusionista é levado preso pelo inspetor. Uma multidão se coloca do lado de fora da sede da polícia para protestar contra a prisão. Para se livrar da acusação de fraude, Einseheim vai até a janela e diz a seus admiradores: "Não sou capaz de fazer milagres. Minha única intenção é oferecer entretenimento". Uma afirmação muito repetida pelos defensores da grande mídia e seus espetáculos. Filmes, seriados e novelas vivem espalhando preconceitos. Mas nos raros momentos em que seus produtores se incomodam com as críticas, dizem que se trata apenas de diversão, entretenimento, arte. Pode ser. Mas o fato de trabalhar com ilusões não impede que as conseqüências de seus truques sejam bem reais.
Eisenheim ainda se exibia para platéias pequenas. Os atuais monopólios de comunicação iludem milhões. Por isso ser pobre virou crime com direito a julgamento e execução imediatos. Negros e mulheres ganham menos porque são incompetentes, não por causa de racismo e machismo. Trabalhar por conta própria sete dias por semana é "empreendedorismo". Ter carteira assinada é privilégio. Ser importante é medido por quanto se pode consumir. Depois de feito este trabalho de ilusionismo, os que discordarem já podem ser devidamente educados pela espada.