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M�dia
Fiquei horrorizado com o que vi na TV

Como um carro pode valer mais do que um ser humano?!

Por várias vezes, durante semanas, essa cena se repetiu: um homem nervoso, ansioso, olhava o relógio. Cena que se alternava com uma outra, de uma mulher dirigindo. Quando o homem retornava à cena, aparecia olhando pela janela, como a esperar por alguém. No fundo, a música de Roberto Carlos, "Ciúme de você". E, quando a mulher, enfim, chega em casa, e, todos entendem que era por ela que ele esperava ansioso, ele corre de braços abertos e se atira... no carro, estacionado na sua garagem (!) 

Numa outra ocasião, também foi veiculada exaustivamente a cena de um cara numa festa, paquerando uma moça. Daí, ele se aproxima e se declara. Então ela pergunta "onde está o teu carro?". Ele exclama: 

- Carro!

Ela espera a resposta, no que ele repete a exclamação, deixando claro pra moça que ele estava de pés. Indignada com o fato de ser assediada por um homem que não tem carro, ela vira as costas e se afasta do rapaz.  

Essas duas peças publicitárias, de fabricantes de automóveis, foram veiculadas há alguns anos. E, nelas, fica nítida a intenção de nos fazerem sentir mais apreço pelo veículo auto-motor do que pela pessoa humana. Mesmo que, no primeiro caso, o "homem enciumado" abrace a mulher, isso só acontece depois que ele se deleita com o automóvel. Ela, ficou em segundo plano.

É lógico que o leitor deve ter tantos outros exemplos similares tratando de outros produtos. Mas, quero destacar esses dois casos porque há dias - desde 07/02/07 - o país debate com mais veemência a questão da violência em decorrência do terrível crime praticado por dois jovens que, ao saírem com o carro que acabavam de roubar, arrastaram por sete quilômetros o pequeno João Hélio. Poucas vezes eu vi e ouvi falarem tanto na valorização da vida humana. Mas, por que deixar chegar a esse extremo?  

Se a juventude brasileira passa mais tempo de frente pra televisão do que de frente prum livro ou quadro-negro; e se os valores que a TV nos ensina, sutilmente, são esses do começo deste artigo, o que esperam que os nossos jovens assimilem?

Como toda a sociedade, eu fiquei perplexo com esse crime. Mas será que, como eu, a sociedade também se chocou com os reclames comerciais dos fabricantes de carro? Será que ela se incomoda com todas as propagandas nas quais o capitalismo nos induz a acreditar que seus bens de consumo valem mais do que o Gas-PA, o João Hélio Fernandes, vocês leitores e leitoras, e todos nós?  

Então, passado o susto, a perplexidade e, recobrada a razão, lamento muitíssimo em concluir que o jovem assaltante Diego se comportou de acordo com o modelo vigente, de acordo com o que, implicitamente, dita o capital. Ou se rima, ou se faz beat-box. Traduzindo pro bom português: ou se assovia, ou se chupa cana. Não dá para a sociedade querer viver em paz nesse sistema de competição, de consumismo, da conspiração (BBB), do ter a qualquer preço...

Ou a humanidade acaba com o capitalismo, ou o capitalismo acaba com a humanidade (que o diga a camada de ozônio).


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 NPC - Núcleo Piratininga de Comunicação * Arte: Cris Fernandes * Automação: Micro P@ge