Menu NPC
 
 Conheça o NPC
 Quem somos
 O que queremos
 O que fazemos
 Equipe
 Fotos do NPC
 Fale conosco
 Serviços do NPC
 Cursos
 Palestras
 Agenda
 Clipping Alternativo
 Publicações
 Livros
 Cartilhas
 Apostilas
 Agendas Anuais
 Nossos Jornais
 Dicas do NPC
 Dicionário de Politiquês
 Leituras
 Documentos
 Músicas
 Links
 
 
M�dia
Crítica à crônica

Maria Izabel Brunacci 

Escrevi protestando contra a crônica de Danuza Leão e a Folha de S. Paulo, para minha surpresa, publicou meu texto, enviado por correio eletrônico. Entretanto, o observador Alberto Dines repercutiu a Folha, para apoiar a cronista, ao mesmo tempo em que, taxativo, rotulou-me: "a leitora é uma vítima das suas leituras e dos seus gurus em matéria de crítica da mídia". Ora, sou mineira descendente de italianos: dou um boi para não entrar numa briga e uma boiada para dela não sair; e muito me apraz uma polêmica intelectual. Daí minha disposição de, neste ensaio, responder tanto ao violento achaque do Sr. Dines quanto à referida crônica "danuziana".  

Começo por dizer que possuo autonomia intelectual suficiente para não depender de gurus que me digam o que pensar. Leio tudo que me procura e que procuro. Inclusive os textos do Sr. Alberto Dines e da cronista em pauta. Sempre fui refratária a dizer o óbvio, principalmente para os que se identificam como intelectualizados, informados, instruídos. Mas aprendi com um bom mestre na UnB que o óbvio também precisa ser dito, quando menos para não sermos acusados de escamotear verdades. Talvez meu erro tenha sido não ter dito o óbvio sobre a crônica de Danuza no restrito espaço da Coluna do Leitor da Folha de S. Paulo. Talvez por isso tenha sido eu o alvo privilegiado da ira santa do observador... 

Minha carta sofreu alguns "cortes de edição". Em um trecho cortado eu observava o claro problema na pontuação utilizada no título da crônica, mostrando que, do alto de sua arrogância, Danuza também comete erros gramaticais. Em outro, evoquei a saudosa Nara Leão – aquela que se apresentou ao lado de João do Vale no show "Opinião", defendeu e praticou a aproximação da classe-média-zona-sul-carioca com a cultura produzida nos morros e grotões –, para mostrar que, assim como em qualquer família, também a de Danuza foi capaz de gerar irmãs ideologicamente opostas. Mas eu não o disse assim, com todas as letras, porque isso me parecia óbvio demais para o perfil de leitor da Folha de S. Paulo. 

Percebi o preconceito de Danuza logo no primeiro parágrafo da crônica, em uma expressão aparentemente desimportante colocada entre parênteses: "(os mais ingênuos)". Ou seja, a autora se coloca desde o início do texto dicotomicamente posicionada entre os não-ingênuos da sociedade brasileira, aquela minoria que não votou em Lula. É assim que funciona: o texto revela o lugar ideológico de seu emissor e este não escapa ao leitor atento, capaz de ler os mais inocentes fragmentos. Se bem que a crônica de Danuza não é assim tão sutil, ela explicita estrondosamente o preconceito de classe que enforma a visão de mundo da autora. Para isso, recorre a expressões populares como "o buraco é mais embaixo", "fala sério" e "liberou geral" ou a provérbios como "quem nunca comeu melado quando come se lambuza", procedimento textual típico de quem procura conferir artificialmente legitimidade social a um discurso autoritário. 

Contradições escamoteadas  

A par desse artifício, Danuza vai tecendo sua teia de preconceitos, todos eles reproduzidos do noticiário do último ano e meio, quando teve início a "crise" do governo Lula – e esta crise, sua fabricação pela mídia e o uso eleitoral que dela se fez é assunto que outros ensaios já trataram, vários deles na insuspeita revista semanal Carta Capital. A cronista recupera os lugares-comuns utilizados pela imprensa para (des)qualificar Lula e o PT, lembrando episódios exaustivamente explorados e apregoando a falência do "proprietário único da ética e da verdade", em sonoro eco aos mais conservadores jornalões, que por sua vez ecoaram falas dos mais conservadores políticos brasileiros, do PFL e do PSDB. De eco em eco, o discurso vai se reproduzindo, mas, para o mal e para o bem, chega um momento em que esse eco bate e volta, diretamente na cara do último que o (re)produziu. 

Danuza, assim, oferece-nos bem acabados exemplos dessa reprodução discursiva: quando fala da "compra do avião" não há como a gente não se lembrar do discurso político de Geraldo Alckmin durante a campanha à eleição presidencial. O mesmo acontece com os exemplos de Chirac e do Papa, que constituem o espelho invertido da eterna mania brasileira de copiar os países do "primeiro mundo". De sua perspectiva de classe, a autora não digere o atrevimento dos pobres, que segundo ela deixaram de "passar a impressão de que não havia gastança". Mas seu mais ferino verbo se dirige à primeira-dama, Marisa, que "não larga do pé". Será que ela preferia alguém como a D. Ruth Cardoso, que tanto "largou do pé" de FHC que obrigou a solidária imprensa brasileira a esconder um filho ilegítimo do ex-presidente com uma jornalista da Globo? Pobre D. Marisa, quem mandou ser atrevida a ponto de usar um "ridículo maiô branco com uma estrela vermelha na barriga"? Para quem sabe que a primeira estrela na bandeira do PT foi cerzida a mão pela primeira-dama, nada a estranhar. Já para os que sequer sabem o significado do verbo cerzir... 

O desfecho da crônica é exemplar, resume brilhantemente a tendência de certos autodenominados "formadores de opinião", quando insinua o viés tirânico de Lula, como se no Brasil as instituições democráticas encarnadas nos poderes legislativo e judiciário estivessem falidas e apenas sobrasse o poder executivo. Mas isso, por outro lado, revela o viés udenista que presidiu a imprensa no último ano e meio, o qual Danuza tão bem encarnou. 

Eco discursivo 

Estudiosos da cepa de Sergio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes, Caio Prado Júnior, Antonio Candido, Darcy Ribeiro e outros identificaram, na vida social brasileira, o lado perverso da reprodução das tradições de mando, encarnadas nas figuras do agregado e do capataz. São duas espécies de parasitas sociais, produtos da política do favor, desde sempre utilizada pela elite brasileira para se perpetuar no topo dessas relações. Machado de Assis traz-nos a representação dessas figuras em seus romances e crônicas – estas sim, verdadeiras crônicas da vida dos brasileiros. Euclides da Cunha traz-nos a representação do horror à possibilidade de que os pobres queiram tomar nas mãos os próprios destinos. Por isso essa matéria social foi, ao longo dos últimos quinhentos anos, domesticada – pela cooptação ou pela repressão pura e simples. Mas tudo sempre revestido pela famosa cordialidade brasileira, escamoteadora das contradições e das tensões sociais delas decorrentes. 

Hoje, nos tempos dos autodenominados pós-modernos, essas figuras continuam existindo e cumprindo sua função de reproduzir incessantemente a visão de mundo da elite. Muitas delas se abrigam na instituição imprensa, protegidas por uma escandalosa imunidade. Em nome da liberdade de imprensa e de expressão podem desferir discursos golpistas a torto e a direito. E também à direita, como se viu com freqüência nos últimos meses. Não é à-toa que, em enquete do próprio Observatório da Imprensa, grande maioria de leitores decretou que a imprensa brasileira, em 2006, foi muito ruim, abaixo da crítica. É preciso que o Sr. Dines saiba articular as duas coisas: os leitores não mais aceitam que se lhes empurrem goela abaixo os lugares-comuns consagradores do preconceito social e do ódio de classe. 

Sem ódio no coração, afirmo não ser portadora do "espírito de linchamento" a que se refere Dines, embora reconheça que, no calor da indignação, também o fígado contribui para a crítica. Julgo que apenas encarnei a rocha que devolveu o eco discursivo diretamente na cara de quem reproduziu o preconceito. E mais: contribuí para que se desvelasse o caráter corporativo que aflora em alguns textos desse jornalista. [Belo Horizonte, 03 de janeiro de 2007] 

* Professora do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, em Belo Horizonte; mestre em Teoria Literária e doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília  

*** 

Mais quatro anos; socorro 

Danuza Leão # copyright Folha de S.Paulo, 28/12/2006 

[incluído às 18h02 de 2/1/2007] 

Quando foi eleito pela primeira vez, Lula encheu de esperanças os 00°0000corações da maioria dos brasileiros (os mais ingênuos). Foi bonito um torneiro mecânico chegar à Presidência pelo voto direto. Lula tem grande facilidade para discursar de improviso e diante de uma fábrica poucos falam melhor do que ele. Mas para ser presidente o buraco é mais embaixo, e com a mesma facilidade Lula é capaz de dizer grandes besteiras, como aliás tem dito. 

Não dá para compreender como um presidente, após tantos escândalos surgidos dentro do próprio Palácio do Planalto, consegue ter a aprovação popular que tem Lula. Mas é elementar: quem recebe R$ 50 por mês do Bolsa Família deve se achar abençoado por Deus, e no interior do Nordeste, onde não há trabalho mesmo, R$ 50 dá para comprar um saquinho de farinha e um pedacinho de carne-de-sol para botar no feijão -melhor do que nada. E dá-lhe Lula mais quatro anos. 

Mas o mal que ele está causando ao país é tão grande que ainda nem dá para avaliar. Todos os seus auxiliares e amigos mais próximos foram indo embora -por vontade própria ou por terem se metido em algum escândalo, mas ele nunca soube de nada. E o PT ficou tão só que seu maior aliado é o PMDB. 

Lembra o dia da posse, quando milhares de pessoas se emocionaram com a chegada de Lula à Presidência? Era um novo tempo, um tempo de fraternidade, em que o Brasil iria, enfim se transformar num país justo. Deu no que deu, logo com o partido que era o proprietário único da ética e da verdade. 

Lula é, quem diria, muito vaidoso e gostaria de se tornar um líder mundial. Mas é também -quem diria, de novo- indeciso, covarde, enfrenta mal os fracassos e tem uma tendência autoritária. Vide o caso do correspondente americano Larry Rohter, que, por ter escrito o que todo mundo estava cansado de saber -que Lula exagera na bebida-, quase foi expulso do país, e da tentativa de criar um conselho para "disciplinar" os jornalistas. Fala sério. 

No início do governo, o casal queria passar a impressão de que não haveria gastança. Nos jantares que ofereciam, os homens chegavam com uma garrafa de bebida, e as mulheres, com um pratinho de alguma coisa. Durou pouco, e logo liberou geral. Começaram as farras no Alvorada, com amigos dos filhos sendo levados pela FAB para o fim de semana, e chegou à compra do avião. Nem o presidente Chirac nem o papa têm um. Quando têm uma viagem oficial, alugam. Mas Lula precisava, até porque viajar é a coisa de que ele mais gosta, e quem nunca comeu melado quando come se lambuza. 

Agora, reeleito, ele não tem quem o aconselhe; pede para Gil ficar, consegue que o ministro da Justiça fique mais um mês, mas decidir, mesmo, não decide nada. E ainda tem d. Marisa, que não larga do pé. Pinta os cabelos cor de mel, bota uma estrela vermelha nos jardins do Alvorada, e ainda inventa aquele ridículo maiô branco com uma estrela vermelha na barriga. Ao menos já se sabe sua função no governo: controlar quanto ele pode beber. 

Estamos mal, mas não vamos perder a esperança: as coisas podem piorar. Já pensou se ele inventa uma lei, imitando o Chávez, pela qual ele possa ser reeleito indefinidamente? 

Comentário de Alberto Dines  

SALDOS & BALANÇOS – 2

Rancor no lugar de crítica 

Exemplo perfeito do espírito de linchamento que começou a prevalecer entre os novos praticantes do media criticism pode ser encontrado na carta de uma leitora da Folha (sexta-feira, 29/12, pág. A-3) que não gostou do balanço de Danuza Leão sobre o primeiro mandato do presidente Lula. 

Maria Izabel Brunacci, de Belo Horizonte, tem suas razões para detestar o artigo "Mais quatro anos; socorro" (Folha, quinta, 28/12, pág. A-8, ver reprodução abaixo) e está no seu direito ao contestar a autora. Lamentável foi o estilo que escolheu para manifestar-se: "Danuza Leão é, intelectualmente, o mais bem acabado retrato de certa colônia de parasitas – que Machado de Assis tão bem identificou em seus romances – que vive colada à elite brasileira, cuja visão de mundo reproduz, dissemina enquanto usufrui da complacência de seus mantenedores."  

A leitora não discute, não contesta, não argüi, nem tenta rebater os argumentos apresentados por Danuza Leão. Simplesmente apela para a ofensa pessoal – é a sua maneira de dizer que existe.  

A cólera, certamente, é alheia: a leitora é uma vítima das suas leituras e dos seus gurus em matéria de crítica da mídia. (A.D.)


Núcleo Piratininga de ComunicaçãoVoltar Topo Imprimir Imprimir
 
 NPC - Núcleo Piratininga de Comunicação * Arte: Cris Fernandes * Automação: Micro P@ge