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Cinema
Enlatado made in U.S.A: Samuel L. Jackson vai ao Festival do Rio 2003 lançar seu novo filme

Setembro é o mês em que o Rio de Janeiro se torna a capital latina do cinema, graças ao Festival do Rio que há quatro anos vem apresentando filmes provenientes dos quatro cantos da terra. O Festival, que se restringia a salas localizadas na zona sul e centro, neste ano se extendeu até os subúrbios cariocas, onde serão exibidos cerca de 300 filmes nas chamadas "Lonas Culturais" da prefeitura. Nada mais justo, afinal é no subúrbio que se concentra a população mais carente de tudo, inclusive cultura. Os preços dos ingressos variam de 10 até 2 reais.

De Mickey Mouse a Orson Welles, do Tadjiquistão a Pernambuco, de Rei Leão a Rei Lear, tem de tudo pra todo tipo de público. Dentre as tantas mostras um destaque mais que especial para Limites e Fronteiras com a presença de filmes palestinos que nunca chegam aos cinemas por ingerências políticas dos Estados Unidos e principalmente de Israel, nada interessados em que a opinião pública tenha acesso a imagens feitas por quem sofre na própria pele uma ocupação ilegal e imoral que se arrasta por décadas. Mas, como se pode ver, aos poucos o bloqueio vai sendo quebrado. Ponto para o Festival do Rio!

E não poderíam faltar a essa seleção pra lá de heterodoxa os famigerados enlatados norte-americanos. Na noite desta quarta-feira houve a pré-estréia no cine Odeon de "Violação de Conduta" (Basic) com a presença do ator Samuel L. Jackson, que apesar de ser apenas um membro do baixo-clero de Hollywood, teve direito a tapete vermelho e fotos com o figurão da distribuidora do filme no Brasil. Ao chegar a sala de projeção, recebeu aplausos efusivos da platéia. Sempre cercado de fotógrafos e cinegrafistas, o ator fez os agradecimentos de praxe, sentou-se como se fosse assistir ao filme e, ao apagar das luzes, saiu de fininho, acompanhado por seguranças.

Do filme não se pode esperar muita coisa. A trama começa com uma investigação sobre um incidente em que soldados sob o comando de um sargento sádico (Jackson) desaparecem nas matas do Panamá durante um exercício militar. A princípio parece que o tal sargento havia sido justiçado pelos seus próprios subordinados, que eram submetidos a maus tratos durante o treinamento. Não, nada disso! Na verdade, os militares foram vítimas de uma quadrilha de traficantes infiltrada nas forças armadas. Peraí, volta a fita! De fato, ninguém morreu, foi só uma armação. Em resumo, ao sair do cinema, o espectador tem a sensação de ter participado de uma pegadinha. O diretor John McTiernan (O mesmo de "Predador" e "Duro de Matar") provavelmente se inspirou em Gugu Liberato para dirigir esta fraude. Se não quiser cair neste verdadeiro conto do vigário cinematográfico, não assista.

Samuel L. Jackson é um desses atores que por dinheiro fazem qualquer papel, inclusive emprestando sua imagem a guerra da Casa Branca contra o mundo árabe. Em 2000, o ator estrelou um filme cínico chamado "Regras do Jogo" (Rules of Engagement) onde interpretava um coronel que no comando de uma unidade de resgate dos fuzileiros norte-americanos, ordenou o ataque a homens, mulheres e crianças no Iêmen. A história gira em torno de seu julgamento num tribunal militar. O veredito não poderia ser diferente. O coronel foi inocentado de todas as acusações, isso porque os civis iemenitas estavam fortemente armados, tornando-os portanto "alvos legítimos". Uma das cenas mais calhordas mostra uma menina nos seus 9 ou 10 anos, disparando uma pistola contra os fuzileiros ianques. Justifica-se assim o massacre de civis pelas tropas do Tio Sam.

Não foi a toa que a imprensa do Iêmen protestou contra o filme. E esse não foi o primeiro e nem será o ultimo filme produzido nos Estados Unidos que demoniza os árabes, mostrando-os como terroristas ensandecidos. Há tempos que Hollywood está a serviço da política intervencionista norte-americana. Nos tempos da Guerra Fria eram os comunistas, representados pelos russos. Hoje, são os árabes e muçulmanos, que se recusam a engolir o ideal de cultura hegemônica imposto pelos EUA. Depois do 11 de setembro, a invasão do Afeganistão e do Iraque, é esperado que mais filmes de propaganda como esse sejam espalhados mundo afora através das poderosas distribuidoras.

Política a parte, o Festival do Rio é a chance de se ter acesso ao melhor e ao pior da sétima arte nos 5 continentes. Alguns filmes nem chegam aos circuitos depois do Festival. Portanto, pegue seu guia de programação e faça suas escolhas, mas tome bastante cuidado pra não topar com Samuel L. Jackson em meio a esta selva de películas.

Saiba mais sobre o Festival do Rio 2003 acessando a página oficial do evento, que acontece até dia 9 de outubro: http://www.festivaldorio.com.br


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 NPC - Núcleo Piratininga de Comunicação * Arte: Cris Fernandes * Automação: Micro P@ge