Comunica��o Alternativa
Comunicação e integração latino-americana: um debate que se espalha
[Publicado em 27.05.2013 - Por Pedro Carrano, de Foz do Iguaçu (PR). Colaborou: Julio Cesar Carignano]
Os
debates construídos no Seminário Comunicação, Emancipação e Integração na
América Latina, nos dias 22 e 23 de maio, na cidade de Foz do Iguaçu (PR), apontaram
três eixos principais para debater a mídia: a democratização e o combate aos
monopólios, no plano nacional e latino-americano. A outra frente é a construção
de ferramentas próprias de comunicação da esquerda. Por fim, a Universidade
pode ganhar um papel importante nesse processo.
Promovido
pela Universidade Federal de Integração Latino Americana (Unila), o Sindicato
dos Jornalistas Profissionais do Paraná (SindiJor-PR, subseção de Foz do
Iguaçu) e o Brasil de Fato, o evento reuniu estudantes, professores,
sindicalistas, jornalistas e militantes da comunicação, ligados a movimentos
sociais.
No
balanço geral sobre a situação da mídia em nosso continente, Leonardo Severo,
assessor de imprensa da Central Única dos Trabalhadores (CUT), (veja
entrevista abaixo), analisa que a mídia responde hoje ao sistema
financeiro, às grandes transnacionais e montadoras, submetida a uma mesma
lógica e um mesmo filtro de informação. “O
que não é visto não é lembrado. As
centrais sindicais fizeram uma manifestação em Brasília por mais investimento
na produção, informações que não chegaram aos meios de comunicação, pois não
era do interesse que o movimento dos trabalhadores chegasse nas páginas do
jornal. Isso determina uma matriz de opinião, uma visão sobre o mundo”, comenta.
A
impressão de Severo a partir de coberturas jornalísticas realizadas nas
eleições presidenciais na Venezuela, Equador e nas manifestações do 7D na
Argentina apontam que “em todos os processos o que constatamos é o mesmo
comportamento contra os interesses nacionais”, afirma.
Fazer
os próprios veículos, em todas as frentes
Vito
Gianotti, do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), defende que os
trabalhadores devem construir seus próprios veículos e usar todos os meios
possíveis nesta disputa de hegemonia. “Sem comunicação, não há possibilidade de
os trabalhadores implementarem seu projeto de sociedade, diferente do
individualismo neoliberal”. Para Vito, a comunicação tem o papel de disputar o
coração e a mente de milhões de brasileiros. “[Antonio] Gramsci cita que a
hegemonia se dá pelo convencimento e pela força. Precisamos fazer essa disputa
com aqueles que são inimigos de classe”, diz.
Práticas
contra-hegemônicas
No
encontro, a crítica dos conferencistas apontou para o Ministério das
Comunicações e a resistência em enfrentar o debate sobre a mudança no atual
marco regulatório. Dirigente do Sindicato de Jornalistas do Paraná (subseção de
Foz do Iguaçu), Wemerson Augusto “Ceará” citou as relações do Estado com a
grande mídia, a perseguição às rádios comunitárias e a omissão em relação às
deliberações da Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), realizada em
2009.
O
jornalista questiona o fato de mais de 600 medidas aprovadas na Confecom não
terem sido postas em prática. “Ceará” defende que no plano local há iniciativas
a ser aprovadas. “Por que não criar pontos de mídia nos estados, iniciativas
simples, mas por que não avançamos nisso e o governo não avança nisso? Por que
não encampamos essa batalha? Por que o governo após a Confecom não avançou nas
demandas populares?”, questiona.
Julio
Cesar Carignano, do blog Sitio Coletivo, relatou os desafios em construir
comunicação alternativa em cidades onde a mídia é controlada diretamente pelos
grupos de poder locais, como é o caso de Cascavel, no Paraná. “Atuo numa cidade ou região sobre forte influência do
pensamento ruralista, dos grandes latifundiários, refletido nos meios de
comunicação, ate porque muitos deles são proprietários da grande imprensa em
Cascavel. Ao mesmo tempo, a cidade é o berço dos movimentos sociais de luta
pela terra, que nunca encontraram um espaço na mídia tradicional de Cascavel”,
afirma.
Comunicação
alternativa e o papel da Universidade
Universidade
é espaço de fortalecimento para a luta pela democratização da comunicação
de
Foz do Iguaçu (PR),
O
encontro Comunicação, Integração e Emancipação dimensionou o papel da
Universidade na luta pela democratização da comunicação. Com a convergência
digital, os veículos de comunicação da universidade podem ser ferramentas para
aproximação da sociedade, caso de rádio-web e TV Universitária. Marcelo Engel
Bronosky, professor do departamento de comunicação da Universidade Estadual de
Ponta Grossa (UEPG), indica que a Universidade é o espaço de práticas
extensionistas que abordam a comunicação e a relação com a comunidade.
Essa
visão é antagônica aos projetos midiáticos que estão focados apenas no mercado.
“A oferta de mão de obra de jornalistas no mercado é intensa, o que não
repercute em qualidade midiática à
altura. De forma geral, o objetivo é formar para atuação no mercado.
Nesse cabo de força quem sai perdendo é a sociedade”, lamenta Bronosky.
Aprendizado
com a experiência argentina
Na
análise dos meios de comunicação na Argentina, os pesquisadores apontaram o
problema da concentração de meios na capital do país. Cerca de 90% do conteúdo
midiático é produzido em Buenos Aires. De acordo com os participantes do
evento, esse fato suprime a visão diversificada da cultura. “O que existem são
repetidoras do que acontece em Buenos Aires”, definiu Mariano Gallego,
professor da Universidade de Palermo.
Hernan
Cazzaniga, reitor da Universidade Nacional de Misiones (UNAM), também contribui
para o debate sobre a experiência argentina, uma experiência democratizante, em
que pese o ataque de oligopólios e inclusive de grupos como os “Repórteres sem
Fronteiras”, que classificam o governo argentino como autoritário. “Nossa mídia
tinha como característica maior a concentração, os oligopólios. Hoje, mais
vozes têm acesso, com a divisão das concessões para três setores da sociedade,
sendo 33% para o setor público, 33% para o setor privado e 33% para setores da
comunidade e sem fins lucrativos”, Cazzaniga contrapõe.
Esse
fator não impede que o processo argentino da chamada “Ley de Medios” tenha sido
abordado na perspectiva de que há uma disputa nesse momento para a implantação
efetiva da lei. Cazzaniga traçou o histórico da luta que remonta à herança da
ditadura militar argentina, que determinou o marco regulatório naquele país. Há
gargalos semelhantes na História da concentração de mídia no Brasil.
Hoje,
com a televisão digital e sistemas abertos no país, Cazzaniga afirma que há a
necessidade de cadeias compartilhadas para a troca de conteúdos. “Ao lado das políticas nacionais, é
importante fazer uma cota de programação que circule, o desafio está em fazer
redes que permitam essas trocas”, diz.
Primeira
rádioweb na Ufscar
Uma
das primeiras experiências nacionais em rádio-web ocorreu na Universidade
Federal de São Carlos (Ufscar), sob a forma de projeto de extensão
universitária, no ano de 2004. Na explicação de Ricardo Rodrigues, diretor da
rádio, os anos 1990 e 2000 podem ser definidos como de “momento de sucateamento
das rádios universitárias na gestão FHC. Lula propôs uma revitalização, no qual
a extensão começa a fazer um papel diferente”, enxerga.
Hoje,
o papel da rádio é envolver a comunidade local, e ao mesmo tempo participar de
espaços de discussão sobre políticas públicas para as rádios, economia
solidária e software livre. “São os eixos norteadores do trabalho levar
para fora da universidade o conteúdo debatido ali dentro. Na prática, a rádio
pode ser um agente da democratização da comunicação, funcionando como
catalisador do cenário cultural”, comenta.
Rodrigues
criticou a escassez de políticas públicas para o setor de rádio atualmente. “Não existe debate de
políticas públicas para as rádios. No Ministério da Cultura não há espaço para
pensar o conteúdo para as rádios. As rádio-universitárias têm pouco apoio. É
preciso criar espaços que sejam colaborativos e democráticos, que o termo
universitário volte a ser o tema de uma contracultura”, define.
Unila:
sob o signo da integração e da contradição
Universidade
e seu projeto de integração enfrentam resistências do conservadorismo local
de
Foz do Iguaçu (PR),
Surgida
desde 2009, a partir de iniciativa do governo federal, a Unila recebe
estudantes de diversos países da América do Sul. Desde o início, nasce sob o
signo da integração. Mas também da polêmica: em que pese o fato de Foz do
Iguaçu ser uma cidade que agrega várias etnias, a universidade gera desde o
começo reações conservadoras na cidade. Isso ocorreu desde a reportagem da
revista Época, datada de 2011, crítica à concepção da universidade, até
problemas nas moradias estudantis e a repressão da Polícia Militar, que invadiu
uma casa de moradia estudantil e prendeu 8 pessoas em 2012.
O
Seminário Comunicação, Integração e Emancipação se inscreve neste contexto. É o
primeiro debate sobre o tema da mídia, nesta universidade que, até o momento,
agrega 16 cursos. “Estamos em uma região de monitoramento dos EUA, na
tríplice fronteira, e aqui temos o papel de formação, vinculada aos debates
locais e também de gerar uma transformação na cidade, o que sempre gera
suspeita. É preciso que a cidade assimile a presença da Universidade que tem um
projeto de esquerda e está posicionada, então demora para ganhar a confiança da
comunidade local”, analisa Victoria Darling, professora do curso de Ciência
Política e Sociologia e organizadora do evento.
A
professora defende que a Unila pode se tornar em um pólo aglutinador dos
debates sobre comunicação e integração no continente. “Neste diagnóstico geral
da região, é importante repensar o papel da Universidade, que está na
perspectiva dessa reflexão profunda e de um giro para a integração
possível”, avalia.
Núcleo
Piratininga
de Comunicação
—
Voltar —
Topo
—
Imprimir
|