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M�dia
Segunda leitura: de mercados e escorpiões. José Arbex Jr., em julho de 2006

O fechamento da revista foi publicamente anunciado, em 19 de junho, por seus editores Reinaldo Azevedo e o mencionado Rui Nogueira. Primeira Leitura era uma publicação importante no cenário editorial brasileiro. Ambicionava ser uma espécie de “intelectual orgânico” de uma parcela da classe dominante, uma formuladora de ideologias situada em algum ponto entre a babação raivosa do panfleto semanal Veja, o oficialismo atávico do grupo Globo, o conservadorismo milenar d’O Estado de S. Paulo e o discurso travestido da Folha de S. Paulo. Pretendia-se, em outros termos, porta-voz de um liberalismo ilustrado que se leva a sério, ainda quando tal pretensão abrigasse desvarios como os expostos logo acima. Dada a mendicância intelectual da assim chamada elite brasileira, é apenas lamentável que uma tentativa como essa tenha fracassado.

Lamentável, mas não surpreendente. Ao contrário, Primeira Leitura percorreu um caminho recorrente na história brasileira: o monopólio da informação é reservado a um punhado de famílias, que não admite partilhar o espólio, ainda quando os novos pretendentes jurem pela mesma bíblia. O período de sobrevivência de publicações que desafiam o controle das famílias, com raras e honrosas exceçõescomo é o caso desta Caros Amigos (toc, toc, toc) – é sempre muito curto.

Talvez um grande pecado dos editores da Primeira Leitura tenha sido o de acreditar demais no seu próprio discurso. Talvez não tenham dado a devida atenção às lições do grande bruxo do Cosme Velho, tão sabiamente interpretado por Roberto Schwartz: na periferia do capitalismo, as idéias estão fora de lugar; aqui, o discurso liberal se realiza como farsa. História banal: o mesmo ilustre sociólogo que teve os estudos totalmente pagos por dinheiro público, e capaz de recitar, em meia dúzia de idiomas, a declaração universal dos direitos humanos, ao assumir o poder presidencial mobiliza, sem pestanejar, a polícia e o Exército contra lavradores famintos, sem terra e sem teto. E se alguém notar qualquer contradição entre os atos do presente e os textos do passado, ora, “esqueçam tudo o que escrevi.”

Nada de novo no front: atépouco mais de um século, o sinhozinho do engenho enviava o filho para adquirir as luzes na Europa, enquanto açoitava sem piedade as costas do escravo na senzala. É a escola de Brás Cubas: Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião; era um acadêmico estróina, superficial, tumultuário e petulante, dado às aventuras, fazendo romantismo prático e liberalismo teórico, vivendo a pura dos olhos pretos e das constituições escritas”.

Fiéis, até o fim, à ideologia que abraçaram – ninguém lhes há de negar esse mérito -, Azevedo e Nogueira não denunciam, em sua carta de despedida, o monopólio da comunicação. Preferem atribuir o próprio fracasso à falta de anunciantes, e ponto final, sem que essa mera circunstância represente, para eles, um problema de magnitude política ou social:  “Uma vítima de plantão fica gritando o seu veneno autocomplacente, ressentido, amesquinhado: ‘Não souberam nos compreender!’ Mentira! Fomos, sim, muito bem compreendidos ao longo deste tempo. Nada nos faltou, a não ser, obviamente, anúncios em número suficiente para que o projeto pudesse seguir adiante. (...) Justamente porque não depende da boa vontade de estranhos para existir, Primeira Leitura fecha. Justamente porque nunca foi outra coisa que não um projeto jornalístico, Primeira Leitura chega ao fim. Justamente porque jamais esteve atrelada a um partido e sempre se financiou no mercado, Primeira Leitura escolhe fechar.”

Aquilo que, à primeira vista, parece ser um grito de dignidade dos editores, serve apenas como argumento ideológico para ocultar a miséria política e o autoritarismo social tupiniquim. Faltou-lhes concluir o óbvio: há algo de errado num país em que uma revistamuito bem compreendida” é obrigada a encerrar os seus dias, por não contar com a “boa vontade de estranhos”, nem como a tutoria de algum partido. Se a revista foi “muito bem compreendida”, seria apenas lógico que, descartada a hipótese de má gestão administrativa, encontrasse meios de subsistir, com o apoio daqueles que a compreendem. Isso não aconteceu, não por suposta responsabilidade ou incompetência dos editores, mas como conseqüência de um cenário cultural historicamente refratário ao debate, hostil à disseminação de textos, não habituado ao mundo das idéias.

Os 180 milhões de brasileiros consomem, diariamente, em média, a quantia irrisória de 7 milhões de exemplares impressos, uma das taxas de leitura mais baixas do mundo. Isso significa que a imensa maioria da nação brasileira, mantida na miséria pela pior distribuição de renda do planeta, não tem acesso aos veículos impressos - ou por ser analfabeta ou por falta mesmo de dinheiro para adquiri-los. A tiragem da Primeira Leitura, segundo os editores, de 25 mil exemplares, era escandalosamente pequena para um país da dimensão do Brasil, como também o é a tiragem de Caros Amigos (algo em torno dos 50 mil) e de tantos outros veículos. Os monopolistas da mídia, que controlam a produção e a distribuição - não raro, graças ao financiamento público -, adoram citar a primeira parte da famosa sentença de Thomas Jefferson – “se eu tivesse que decidir entre um governo sem jornais ou jornais sem governo, escolheria, sem hesitar, a segunda alternativa” -, com a mesma sofreguidão com que ocultam a segunda parte – “mas com a condição de que cada indivíduo tivesse acesso aos jornais, assim como capacidade de lê-los”.

Azevedo e Nogueira passam à margem e ao largo desse “pequeno problema”. Preferem manter a versão de que “resolveram fechar”, para não admitir que o tal “financiamento do mercado faz perpetuar e reforçar o monopólio da informação. Se isso é verdade em geral, em todo o planetacomo, de resto, mostram os Murdochs e os Cisneros da vida -, é mais verdadeiro ainda em países ainda regidos pelo sistema de casa grande e senzala, onde prevalecem práticasmuito abolidas no “centro” do capitalismo, incluindo a propriedade cruzada dos meios. Os editores de Primeira Leitura sabem, certamente, disso tudo, mas não podem dizê-lo, pois a conseqüência lógica seria advogar o fim do monopólio, bem como demandar a democratização real da comunicação. Eles teriam que afrontar a sua própria ideologia. Teriam que se somar aos reclamos... do inexistente MST e de todos os outros movimentos sociais. Insuportável, não é mesmo?

Os coronéis da comunicação são também os sinhozinhos das terras (agora transmutados, pela alquimia neoliberal, em revolucionários agronegociantes), os capitães da indústria, os sócios dos banqueiros, os mercadores do Congresso Nacional. São os bons e velhosdonos do poder” no país do patrimonialismo, como magistralmente explicou Raymundo Faoro. Exatamente por isso, e ao contrário da tese defendida pela Primeira Leitura, o MST existe. Há uma reforma agrária a ser feita, uma vasta, profunda e radical reforma agrária, especialmente se a entendemos como parte de um processo global de distribuição social das riquezas e dos direitos historicamente negados à imensa maioria dos brasileiros. Nessa perspectiva, aliás, até mesmo o insuspeito Cláudio Lembo situou-se à esquerda da Primeira Leitura, ao afirmar, pressionado pelos acontecimentos de maio, que a “burguesia branca” deveria abrir os cofres e devolver à nação ao menos uma parcela daquilo que espoliou.

A comovente defesa do “financiamento de mercado”, feita por Azevedo e Nogueira no momento mesmo do fechamento de sua revista, evoca, não sem certa tristeza, a famosa historinha do encontro entre o escorpião e o elefante: no meio da travessia do rio, o aracnídeo pica o mamífero que o transportava, sabendo que, com isso, causaria a morte de ambos. Diante do olhar perplexo do elefante, o escorpião explica que não poderia ir contra a sua natureza, ainda que isso lhe custasse a própria vida. E viva o mercado!


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 NPC - Núcleo Piratininga de Comunicação * Arte: Cris Fernandes * Automação: Micro P@ge