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Sensacionalismo na mídia: exclusão e o controle social de classe

Muitos meios de comunicação se utilizam da cobertura sensacional dos fatos de forma ideológica para criminalizar a pobreza. Esta é uma opção de classe, baseada numa lógica moralizante burguesa e que objetiva punir e controlar as camadas populares.

Por José Cristian Góes

Uma das técnicas mais empregadas pela imprensa, independente do formato de seus veículos, é a seleção narrativa sensacional. Ela tem entre seus objetivos atrair, ampliar e manter a audiência. No entanto, essa opção pelo sensacionalismo na mídia necessita ser investigada e aprofundada. Seria apenas o emprego de uma simplória técnica de redação? Uma forma de cobertura de temas que estariam mais próximos do público/audiência? Seria apenas uma estratégia mercadológica para aumentar a comercialização dos produtos de informação? É preciso ir além.

Há três aspectos fundamentais que devem ser considerados quando se aborda o sensacionalismo na imprensa: 1) o conteúdo, isto é, a temática que busca dar ênfase à cobertura de casos de violência, sexo, escândalos privados e públicos, eventos bizarros, entre outros; 2) a linguagem, carregada de exagero estilístico em suas expressões, imagens e narrativas para estimular o apelo à sensorialidade; e 3) a estratégia empresarial-mercadológica, em que o meio jornalístico assume aplicar conteúdos e linguagens sensacionalistas supondo que assim se alcançam audiências ampliadas, particularmente vinculadas às classes populares.

No que pese uma avaliação geral mais crítica sobre esse tipo de opção sensacionalista da mídia, caracterizando-a como um jornalismo sem qualidade, de mau gosto, do tipo “espreme que sai sangue” (ANGRIMANI, 1995), esse é um recurso largamente utilizado pelos meios de comunicação, ostensivamente ou não, seja por veículos concebidos para esse fim, como folhas populares e programas de emissoras de rádio e tv policialescos; seja por organizações jornalísticas reconhecidas como sérias e de referência. No entanto, pode-se avançar nas apurações sobre o sensacionalismo para além das questões narrativas, expressivas e mercadológicas. Há uma tematização de classe, que fere elementares direitos humanos e possui forte carga ideológica.

Estudos sobre sensacionalismo na mídia são, em certa medida, recentes na literatura nacional (AMARAL, 2006; ANGRIMANI, 1995; BARBOSA, 2005; BERNARDES, 2004; ENNE, 2007; PEDROSO, 2001). No entanto, as investigações sobre esse tema não são novas. Autores como Hughes (1940), Emery (1965) e Schudson (2010) têm ampla produção indicando a existência da prática sensacionalista como estratégica empresarial na imprensa nos Estados Unidos no início do século XIX. Antes, porém, Sousa (2008) e Martin-Barbero (2009) lembram da presença das folhas noticiosas sensacionalistas advindas da literatura de cordel e que circulavam a Europa desde o século XVI. Ou seja, desde lá era possível encontrar “as chaves do jornal sensacionalista. Estão lá os grandes títulos chamando a atenção para o principal fato narrado em versos, importância assumida pela parte gráfica, com desenhos ilustrando o texto, a melodramatização de um discurso que parece fascinado pelo sangrento e o macabro, o exagero e até a atração pelos ídolos de massa dos esportes ou dos espetáculos”. (MARTÍN-BARBERO, 2009, p. 248).

    Antes de fazer as buscas na história, assume-se aqui a perspectiva de que há uma seleção de classe na produção das notícias e de que os “pobres e delinqüentes são construídos como objetos do discurso jornalístico” (MAROCCO, 1998), com fins muito específicos. Segundo Marocco, quase nada se sabe sobre as personagens pobres e marginalizadas, sobre o contexto onde estão inseridas, mas o suficiente para enquadrá-las socialmente, principalmente quando a imprensa aborda temas como violência. Só através da violência, os pobres se tornam visíveis. Este aspecto crucial aponta como “o jornalismo ‘disciplinou’ ou ‘sujeitou’ e fixou, pela redundância diária, ao longo da história, determinados ‘tipos’ necessários a uma ‘ordem’ das coisas na sociedade” (MAROCCO, 1998).


A vida mediada pela mídia

Defende Thompson (2004) que o poder na sociedade se manifesta em quatro formas: o econômico, o político, o coercitivo e o cultural ou simbólico. Segundo ele, a mídia se insere entre as instituições sociais que exercem o poder cultural ou simbólico. Este poder faz referência à “capacidade de intervir no curso dos acontecimentos, de influenciar as ações dos outros e produzir eventos por meio da produção e da transmissão de formas simbólicas” (THOMPSON, 2004, p. 24).

Por conta dessa condição midiática, isto é, fruto do discurso, o mesmo Thompson (2004, p. 46) acredita que o “indiví¬duo está implicitamente construindo uma compreensão de si mesmo, uma consciência daquilo que ele é e de onde está situado no tempo e no espaço”. O pesquisador é ponta que “este processo de transformação pessoal não é um acontecimento súbito e singular. Ele acontece lentamente, imperceptivelmente, dia após dia, ano após ano. É um processo no qual algumas mensagens são retidas e outras são esquecidas, no qual algumas se tornam fundamento de ação e de reflexão, tópico de con-versação entre amigos, enquanto outras deslizam pelo dreno da memória e se perdem no fluxo e refluxo de imagens e ideias (THOMPSON, 2004, p. 46).

A construção da realidade através dos meios de comunicação se faz dentro de cada contexto social a partir de visões de mundo instituídas nas sociedades e nas culturas. Os recortes seletivos das notícias bem como seus enfoques atendem a um padrão médio de aceitação social, o que, na maioria das vezes, compõe uma leitura mais ou menos generalizada dos acontecimentos, ou seja, um padrão ordenador de apreensão da realidade.

No caso dos temas que representam a violência, observando a informação como mercadoria da cultura de consumo, muitas vezes a notícia jornalística expressa apenas à dimensão do horror ao fato, sobretudo as imagens, sem atentar para um olhar crítico das complexidades inseridas em tais fenômenos. Peter Conrad (2004) lembra da capacidade das mídias de transfigurar os acontecimentos em ficções da própria realidade, dado o seu caráter sensacionalista, permeado por excessivas repetições de imagens de noticiários que envolvem violência e morte.

A violência é um tema de amplo interesse social e se configura como fundamental dos meios de comunicação, que procuram “racionalizar situações, enquadrando acontecimentos nos modelos hegemônicos, estereotipados, resultando na maioria das vezes em banalização dos acontecimentos” (TONDATO, 2007, p. 127). É esse aspecto que será melhor aprofundado a seguir.


Sensacionalismo como prática midiática

Amaral (2006, p. 21) afirma que, em geral, “(...) o sensacionalismo está ligado ao exagero; a intensificação, a valorização da emoção; à exploração do extraordinário, à valorização de conteúdos descontextualizados; à troca do essencial pelo supérfluo ou pitoresco e inversão de conteúdo pela forma”. Na sequência, a mesma autora sustenta que: “O sensacionalismo tem servido para caracterizar inúmeras estratégias da mídia em geral, como superposição do interesse público; a exploração do interesse humano; a simplificação; a deformação; a banalização da violência, da sexualidade e do consumo; a ridicularização das pessoas humildes; o mau gosto; a ocultação de fatos políticos relevantes; a fragmentação e descontextualização do fato; o denuncismo; os prejulgamentos e a invasão de privacidade de tanto de pessoas pobres e como de celebridades, entre tantas outras. (AMARAL, 2006, p. 21)

Nessa mesma linha, Rosa Pedroso, outra pesquisadora que é referência nos estudos do sensacionalismo midiático afirma que essa opção jornalística se caracteriza pelo uso da “(...) intensificação e exagero gráfico, temático, linguístico e semântico, contendo em si valores e elementos desproporcionais, destacados, acrescentados ou subtraídos no contexto de representação e construção do real social (...) é exploração do fascínio pelo extraordinário, pelo desvio, pela aberração, pela aventura, que é suposto existir apenas na classe baixa. É no distanciamento entre a leitura e realidade que a informação sensacional se instala como cômica ou trágica, chocante ou atraente. (PEDROSO, 2001, p. 52).

Não de forma diversa, Angrimani (1995, p. 16) lembra que o sensacionalismo é “tornar sensacional um fato jornalístico que, em outras circunstâncias editoriais, não mereceria esse tratamento.” Afirma o autor que essa forma de tratar os eventos valoriza conteúdos ou temáticas isoladas e sem contextualização político-econômico-social-cultural. Para Angrimani, o meio de comunicação que se utiliza do sensacionalismo age como “um educador, proibindo e castigando, mas também com propósitos mais cruéis: há humilhação, domínio, (controle sobre o objeto) e uma perspectiva de quem quer ferir, causar dor.” (ANGRIMANI, 1995, p.78).

Em muitos jornais, por exemplo, as capas são alvos de estudo por conta de sua condição de apresentação dos enunciados. Na capa, a manchete adquire uma importância acentuada: ela deve provocar comoção, chocar. Pode aparecer realçada por recursos gráficos exagerados, como a letra em caixa alta, em tamanho grande, grifada e em cores que conferem destaque. A sua linguagem aproxima-se da linguagem oral e coloquial. Há o uso abusivo de gírias e chavões, além, em alguns casos, do uso de palavras de baixo calão e frases de duplo sentido. É o recurso que vai chamar a atenção do leitor para a matéria. Muitas vezes, o uso abusivo de recursos para tornar a manchete interessante a desvincula do tema central da matéria. É uma armadilha preparada para capturar a atenção do leitor.

Os autores apresentados tratam de aspectos fundamentais que são constitutivos de um conjunto de valores que formam as representações sociais e que são nascidas da mediação simbólica de aparelhos ideológicos como os da educação e da religião, e no caso desse trabalho, da mídia. Através dessas representações sociais é que se organizam as visões que as pessoas têm de mundo. No entender de Correia (2003) os meios de comunicação são instrumentos fundamentais para a construção da realidade social. De acordo com o estudioso português, a mídia destinada as classe populares – enquanto organização empresarial - contribui para a trivialização da realidade e para a exploração sensacionalista da desgraça alheia. “Produzem consensos fictícios em torno da agenda pública. Privilegiam o espectáculo em detrimento de uma tematização criteriosa. Assentam a sua presença em mensagens facilmente apreensíveis, descurando as abordagens mais complexas” (CORREIA, 2003).

Amaral (2006) assegura que o sensacionalismo está inserido tanto no circuito do capital, quanto no da produção e o da circulação simbólica. Para ela, a prática sensacionalista pode ser o uso de artifícios inaceitáveis para a ética jornalística, mas também pode se configurar numa estratégia de se comunicar melhor com os seus leitores, a partir de uma matriz cultural e estética diferente da que é utilizada pela imprensa de referência. Utilizando-se de estudos de Bourdieu (1987), ela mostra que os bens simbólicos são ao mesmo tempo mercadorias e significações. Assim, no caso da comunicação, também suas relações de poder estão baseadas no capital simbólico, entendido como o capital econômico, cultural e social reconhecidos legitimamente. O poder simbólico é o poder dos discursos de manter ou subverter a ordem, e deve sua intensidade ao fato das relações de força que nele se exprimem só se manifestarem nelas em forma irreconhecível de relações de sentido. As classes disputam esse poder, o poder de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, agir sobre o mundo (Amaral, 2003, p. 137).

E quando o assunto é a representação simbólica da violência sensacionalizada pela mídia, vale inserir a reflexão de Traquina: “O crime é notícia porque seu tratamento evoca ameaças e, ademais, reafirma a moralidade da sociedade, desenvolvendo diante de nós mesmos uma peça de moralidade moderna, na qual o demônio é expulso tanto simbólica como fisicamente da sociedade por seus guardiões: a política e a magistratura” (TRAQUINA, 1993, p. 226).

Montoro (2002) tem uma visão particular do sensacionalismo e aponta que a polícia, os membros do judiciário e os próprios meios de comunicação conformam a trama discursiva que mais se apresenta nas notícias de violência. Segundo ele, esses discursos produzem um enquadramento noticioso parta a temática com dois eixos: a ruptura da ordem (discurso policial e ilegalidade do ato cometido) e o não-cumprimento da lei (discurso jurídico). Ela entende que “esses vetores discursivos orientam a interpretação dos fatos noticiados a partir de um postulado de controle mais profundo da vida social (aplicação de pena de morte, cadeira elétrica, cadeia perpétua, mais armamentos, mais policiais,). Essa vetorização dos discursos oculta também às causas econômicas, sociais, conjunturais que produzem a violência social na sociedade brasileira: escravidão e trabalho infantil, extorsão policial, prostituição de crianças e adolescentes, baixa escolaridade das populações rurais, desemprego juvenil, exclusão e marginalização social, alta taxa de desqualificação profissional, etc. .... A violência é representada socialmente como um problema de ordem pública, cuja solução depende de medidas e de ações policiais e do Poder Judiciário. (MONTORO, 2002, p. 323).

No entender de Chaui (2007, p. 45) as notícias são apresentadas de maneira a impedir que o ouvinte e o espectador possam localizá-las no espaço e no tempo. Segunda ela, “os acontecimentos são relatados como se não tivessem causas passadas nem efeitos futuros; surgem pontos puramente atuais ou presentes, sem continuidade no tempo, sem origem e sem consequências” (CHAUI, p.2007, p. 46). Para ela, essa condição fugaz da notícia é essencial para o processo de desinformação. A notícia teria apenas a duração de um espetáculo e só receberia atenção da audiência enquanto durasse o espetáculo. A autora pergunta é logo responde: “Que informação transmite a telenovela? Opera reforçando o senso comum social, mantendo suposta clareza da distinção entre o bem e o mal, a naturalização da hierarquia social e da pobreza, o desejo de ‘subir na vida’, a recompensa dos bons e a punição dos maus”, (CHAUI, p.2007, p. 51). Deixa muito claro Chaui, que “a ideologia contemporânea, escreve Lefort, é invisível porque não parece construída nem proferida por um agente determinado, convertendo-se em um discurso anônimo e impessoal, que parece brotar espontaneamente da sociedade como se fosse o discurso do social” (CHAUI, p.2007, p. 75).


Controle de classe

Foram apresentados até aqui alguns dos primeiros e iniciais indícios de que a opção por um jornalismo que apela ao sensacional para estabelecer um pacto com a audiência não é uma mera opção estilística, expressiva e tão somente uma estratégia mercadológica. A professora Cecília Coimbra (2001) é uma das pesquisadoras que tem estudo que avançam no sentido que abrigar as hipóteses apresentadas neste trabalho. Ela, por exemplo, comprova que desde o final do século XIX, já se encontravam presentes nas elites brasileiras – proprietárias dos meios de comunicação - as concepções que impunham uma ideia de periculosidade aos pobres e negros. Segundo ela, esse dispositivo de proteção de classe tem históricas bases na sociedade disciplinar, em meados do século XIX. A elite brasileira entende que a natureza social (pobre, negro, analfabeto, morador de periferia, etc) resultará no cometimento de atos perigosos, isto é, um caminho certo para a criminalidade. É através da mídia, que está em poder dos grandes grupos econômicos e políticos, que essas ideais serão difundidas. Coimbra apresenta algumas teorias “científicas” desenvolvidas e difundidas pela elite para provar a periculosidade dos segmentos pobres, como: as racistas, o eugenismo, a teoria da degenerescência e o movimento higienista. Explica ela que: “A ciência racionalista (...) justifica os fundamentos da escravidão, em especial do negro, por intermédio das teorias racistas. Estas realçam – baseadas nos ideais eugêncios – as misturas raciais indesejáveis, aquelas que explicariam as enfermidades, imbecilidades, indolências, doenças físicas e morais de todos os tipos e que, por conseguinte, estariam “nas origens dos perigos sociais”. A própria “natureza” dos negros, sua índole preguiçosa e negligente, justificaria o tratamento vil a que eram submetidos. (...) temos definições mais grosseiras que, cotidianamente, afirmam a existência de “bandidos de nascença” (COIMBRA, 2001).
Segundo a autora, as teorias racistas foram realimentadas pela obra de C. Darwin, A Origem das Espécies (1859), pelo darwinismo social e pelo movimento eugenista ou eugênico. Foram desenvolvidos “conceitos como prole malsã, herança degenerativa, degenerescência da espécie, taras hereditárias, inferiorização da prole, procriação defeituosa, raça pura, embranquecimento, aperfeiçoamento da espécie. (...) Prega-se inclusive, a esterilização dos degenerados como profilaxia para os males sociais”, (COIMBRA, 2001). Ela cita com precisão como Renato Kehl, um dos líderes do movimento eugênico no Brasil, no início do século XX, defendia em suas obras a esterilização dos “(...) parasitas, indigentes, criminosos, doentes que nada fazem, que vegetam nas prisões, hospitais, asilos; (dos) que perambulam pelas ruas, vivendo da caridade pública; (dos) amorais, (dos) loucos que enchem os hospitais, (da) mole de gente absolutamente inútil que vive do jogo, do vício, da libertinagem, do roubo e das trapaças (...)”. (KEHL, 1921. apud COIMBRA, 2001).

A elite brasileira e seus aparelhos ideológicos quase sempre foram mobilizados para empreender uma cruzada moral, uma missão de limpeza social. “Suas propostas baseiam-se no que é conhecido como ‘degradação das sociedades modernas’, propondo medidas que deveriam objetivar o seu ‘saneamento moral’. Em especial, a ‘degradação moral’ é associada à pobreza, pois esta, com seus vícios, não condiz com o ideal de Nação que se pretende formular” (COIMBRA, 2001). Ao representarem um “perigo social” que contamina toda sociedade, o pobre não aproveitado no processo de enriquecimento da própria elite, justifica-se assim – na concepção científica da elite brasileira – ser exterminado.

Nessa mesma linha de Coimbra, Marocco e Berger (2005) lembram que, historicamente, a mídia configura “certos indivíduos e os combatiam para levantar uma barreira de moralidade entre esses indivíduos ‘sem importância’ e as camadas populares, e entre ambos (pelo viés da pobreza que compartilhavam) e a população em geral” (MAROCCO e BERGER, 2005). Para elas, a imprensa reforçava os fatos que envolvem violência, isto é, que sai da “normalidade”, e as camadas mais pobres com o objetivo de provocar uma ampla campanha de reprovação pública e, em conseqüência, a coesão em torno da norma e da normalização social. Para elas, a notícia insinua-se, neste quadro, como um “instrumento de controle social que pode gerar a coesão social em torno da norma (que marginaliza o outro infrator) ou dar conta dos procedimentos técnicos de coação dos corpos dos mais perigosos, incluindo-os no discurso para visibilizar a sua exclusão da sociedade”, (MAROCCO e BERGER, 2005).

Como se percebe, o jornalismo que se apóia na prática sensacionalista não cumpre uma mera opção narrativa e expressiva imanente em razão de promover a proximidade do meio com a audiência. E muito menos seria apenas uma estratégia mercadológica da empresa produtora do meio de informação para atrair, ampliar e manter a audiência na aquisição desses produtos. É preciso avançar para um recorte de classe social e de funcionalidade dos meios de comunicação - entendendo a mídia como um aparelho ideológico – para punir e controlar as camadas populares e estereotipadas. A criminalização pela mídia dos pobres independente da faixa etária, dos negros, dos homossexuais, das mulheres, crianças e idosos, dos operários, dos sem terra está ancorada em graves violações de direitos humanos. No entanto, o mais trágico a ser investigado e denunciado é que os meios de informação, usando sua condição de mediação no processo de construção do que é real, desenvolvem processos de racionalização e naturalização das ideais, estigmas, estereótipos, preconceitos onde também os mais pobres e marginalizados – sem qualquer exercício reflexivo e contextualizado - são levados a defender as práticas higiênicas e racistas de classe.


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Referências

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ANGRIMANI, D. Espreme que sai sangue: um estudo do sensacionalismo na imprensa. São Paulo: Summus, 1995.

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CORREIA. J. C. Os administradores de ilusões: espectáculo, subjectividade e ideologia na cultura mediática contemporânea. Media &Jornalismo, nº 2, Ano 2, março de 2003, Ed. Minerva, Coimbra. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/correia-joao-os-administradores-de-ilusoes.html#foot2161 Acesso em: 28 abr. 2012.

MAROCCO, B. A. O espaço perceptivo da exclusão na mídia. In: Congreso Alaic. Anais, Recife, 1998.

MAROCCO, B. A.; BERGER, C. A notícia como forma de controle social. In: XIV Encontro da Compós, 2005, Niterói. XIV Compós 2005, anais e livro de resumos, 2005.

MARTÍN-BARBERO. J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Tradução de Ronald Polito e Sérgio Alcides. 6ª Ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009.

MONTORO, Tânia. Sangue na tela: a representação da violência nos noticiários de televisão no Brasil. In. Luiz Gonzaga Motta (org.), Imprensa e Poder. Brasília: Universidade de Brasília, 2002.

PEDROSO, R. N. A construção do discurso de sedução em um jornal sensacionalista. São Paulo: Annablume, 2001.

SOUSA, J. P. Uma história breve do jornalismo no Ocidente. In: SOUSA, J. P. (Org.). Jornalismo: história, teoria e metodologia da pesquisa. Porto: Edições Universidade Fernando Pessoa, 2008.

THOMPSON, J. B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Tradução de Wagner de Oliveira Brandão, Revisão de Tradução Leonardo Avritzer, 6. ed., Petrópolis: Vozes, 2004.

TONDATO, Marcia Perencin. Violência na mídia ou violência na sociedade? A leitura da violência na mídia. In: Revista FAMECOS. Porto Alegre, nº 32, abril de 2007.

TRAQUINA, N. As notícias. In: TRAQUINA, N. (org.) Jornalismo: Questões, Teorias e “Estórias”. Lisboa: Vega, 1993.


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