Direitos Humanos
Da lama ao caos: por que a TKCSA está à venda?
Publicado em 26.9.12 - por Sandra Quintela* /PACS
Desde
2005, a região que circunda a Baía de Sepetiba vem sofrendo um enorme impacto
socioambiental produzido pela instalação da Companhia Siderúrgica do Atlântico,
a maior siderúrgica da América Latina. As primeiras vítimas foram pescadores
artesanais. A partir de 2010, quando a siderúrgica foi inaugurada em 18 de
junho, outros impactados entraram em cena: os moradores e moradoras do bairro
de Santa Cruz, em particular, moradores da reta João XXIII.
A
obra chegou a ser embargada pelo IBAMA em dezembro de 2007 por desmatar
manguezais sem autorização e pelo Ministério Público do Trabalho por não
oferecer Equipamentos de Proteção Individual aos trabalhadores no canteiro de
obras. Além disso, a empresa foi denunciada por muitas outras
irregularidades como: ilegalidades e falta de transparência no processo de
licenciamento ambiental; manipulação da participação popular durante as
audiências públicas; cooptação de falsas lideranças comunitárias e de
pescadores; violação dos direitos humanos; destruição ambiental na Baía de
Sepetiba; e produção de poluição em doses elevadas que podem comprometer a
saúde dos moradores do entorno da empresa. Segundo o relatório do Grupo de
Apoio Técnico Especializado do Ministério Público Federal (GATE), a empresa,
desde o início, conduziu as obras sem o menor respeito ao que teria sido definido
e aprovado no seu EIA-RIMA. Hoje, em setembro de 2012, a empresa é objeto de
duas ações penais do Ministério Público do Rio de Janeiro que a acusam de
cometer, no mínimo, quatro crimes ambientais.
Não
bastassem todos esses problemas, a crise econômica que tem se aprofundado desde
2008 fez com a TKCSA fosse acumulando prejuízos. De um lado, a queda no consumo
de aço no mercado mundial, de outro, o aumento dos preços das matérias primas como
minério de ferro. Além disso, a China passou a investir também em siderúrgicas
próprias para consumo interno. Destacamos que a produção da TKCSA é toda
destinada ao mercado externo.
A revista Exame destaca sete erros cometidos pela
empresa:
i.
A construção da siderúrgica foi dividida entre várias empresas para cortar
custos. O gasto subiu 70% e as obras atrasaram 20 meses;
ii.
a TKCSA foi construída em uma área de mangue. Para fazer as fundações foi
preciso alugar um quarto dos bate-estacas disponíveis no país;
iii.
uma coqueria foi contratada na China para ser construída por 4000 chineses. O
governo brasileiro autorizou a entrada de apenas 600;
iv.
os responsáveis pelo projeto desmataram mais que o triplo permitido de
manguezal. A obra foi embargada pelo Ministério Público;
v.
a Thyssen Krupp vinculou a produção da TKCSA à demanda de suas laminadoras nos
EUA e na Europa, onde a procura despencou;
vi.
nos cálculos de retorno do investimento apostaram numa cotação de dólar de, em
média, 2,5- reais – o que não aconteceu;
vii.
as administradoras da TKCSA despejaram ferro gusa em poços ao ar livre não
autorizados pelo INEA e que gerou poluição que cobriu a região com poeira
prateada.
Problemas jurídicos
Atualmente
a empresa enfrenta uma série de processos jurídicos. Existem duas ações penais
em curso (Ministério Público do Rio de Janeiro) por crimes ambientais contra a
empresa, exigindo a condenação de dois dos seus diretores; cerca de nove ações
de compensação de associações de pescadores; e mais de 200 ações civis movidas
pela Defensoria Pública em nome de famílias vizinhas à TKCSA. Até o momento a
empresa não apresentou sinais de diálogo ou de intenção de compensar essas
famílias pelos danos causados.
Após
mais de um ano tentando se adequar à legislação ambiental, sem conseguir, ao
invés de revogarem a licença de instalação da empresa, as autoridades
ambientais lhe concederam mais dois anos para se adequar à lei brasileira. Em
abril de 2012, a TKCSA assinou um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com a
Secretaria Estadual de Ambiente e o Instituto Nacional do Ambiente no qual se
comprometeu a cumprir, num prazo máximo de dois anos, 130 pontos como condição
para a obtenção da Licença de Operação. O TAC, além de alongar o prazo para a
licença de operação por mais dois anos, determinou que algumas atividades de
fiscalização da TKCSA fossem gestadas pela própria empresa, bem como não
estabeleceu efetivamente quem estaria a cargo da fiscalização e monitoramento
do mesmo.
Financiada por recursos públicos
Desde
a instalação, a TKCSA recebeu dois vultosos empréstimos do BNDES. O primeiro
foi em 2007 (R$1,48bi) e o segundo em 2010 (R$ 900 milhões) que viabilizou sua
inauguração que já vinha sendo adiada desde final de 2008. Perfazem um total de
R$ 2,36 bilhões. Somaram-se a esse montante as generosas isenções fiscais
que, somente na esfera do estado, ultrapassaram R$500 milhões. Até aqui
já seriam cerca de R$3 bi de recursos públicos ali investidos.
É
justo a empresa receber tantos recursos públicos enquanto pescadores e
moradores esperam sem perspectivas reparação pelos danos sofridos até então
decorrentes das atividades da usina siderúrgica? Mais de 8 mil famílias
de pescadores passam necessidades, pois a pesca vem se extinguindo na baía.
Moradores sofrem com problemas de saúde e comprometimento de sua qualidade de
vida pela contaminação do ar e da água a que estão submetidos. Até quando isso
se repetirá?
Alternativas: sonhar é sempre possível!
A
Thyssen Krupp, diante de todos esses problemas, discute atualmente a venda da
TKCSA. Como vender uma empresa que até hoje não possui licença de operação?
Qual a garantia de que os próximos donos respeitarão a legislação brasileira? O
BNDES, um dos principais financiadores do projeto, tem que dar o aval para a
venda. Como principais interessados no futuro da região e da TKCSA, os
trabalhadores, moradores, e pescadores da Baía de Sepetiba precisam ser ouvidos
e incluídos nas discussões sobre o futuro da TKCSA.
Algumas
organizações atualmente discutem o futuro da TKCSA. Não se debate a venda da
TKCSA, mas a revogação da licença de instalação (como atesta a legislação
brasileira na medida em que as condicionalidades até hoje não foram cumpridas
pela empresa) e a substituição por outra forma de utilização daquele espaço.
Defendem o desenvolvimento de um plano popular, ambientalmente sustentável, que
pense o desenvolvimento da Baía de Sepetiba, com a garantia de preservação dos
empregos locais e com a melhoria da qualidade de vida das pessoas que moram lá.
Os
recursos públicos, no lugar de serem empregados em siderúrgicas voltadas para o
mercado externo, poderiam ser muito melhor aplicados, por exemplo, num Campus Universitário "Eco
Tecnológico" voltado para pensar o desenvolvimento
centrado no bem estar e na qualidade de vida para a população, não só de Santa
Cruz como de toda a Zona Oeste do Rio de
janeiro.
E
você, o que acha?
* Socioeconomista do PACS
Núcleo
Piratininga
de Comunicação
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