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TV Cultura e TV Folha: a destruição do caráter público de uma emissora

Uma audiência pública na Assembléia Legislativa de São
Paulo revelou o distanciamento entre a direção da TV Cultura e as
expectativas do povo paulista com sua emissora pública de televisão.
Convidado pela Comissão de Educação e Cultura, João Sayad,
diretor-presidente da Fundação Padre Anchieta deixou explícita a
diferença de projetos: de um lado, a busca por audiência e o enxugamento
da máquina; do outro, a defesa da diversidade e da pluralidade.
Por Bia Barbosa (*)
Uma audiência pública realizada nesta
quarta-feira, 30 de maio, na Assembléia Legislativa de São Paulo,
revelou o tamanho do distanciamento entre a direção da TV Cultura e as
expectativas do povo paulista com sua emissora pública de televisão.
Convidado pela Comissão de Educação e Cultura da Assembléia de São
Paulo, João Sayad, diretor-presidente da Fundação Padre Anchieta,
mantenedora das TV e rádios Cultura, deixou explícita a diferença de
visões entre o projeto de reestruturação que vem sendo implementado por
sua gestão e aquilo que a sociedade civil e funcionários da Cultura
entendem como prioritário neste momento. De um lado, a busca por
audiência e o enxugamento da máquina. De outro, a defesa da diversidade e
da pluralidade.
João Sayad falou bastante. Defendeu a renovação
da grade de programação infantil, a compra de documentários estrangeiros
e elogiou o que chamou de "debate franco e aberto, entre um
comentarista de esquerda e um de direita" no Jornal da Cultura. Mas não
conseguiu justificar com qualquer elemento, além da busca de audiência, a
entrega de um programa jornalístico, no horário nobre do domingo à
noite, à empresa Folha de S.Paulo. E este foi, não sem razão, o ponto
mais polêmico da audiência pública.
Concessionária pública entrega grade à Folha de S.Paulo
Em todo mundo, um dos
fatores primordiais para a criação de sistemas públicos de comunicação é
a necessidade - para o bem da democracia dos países - de um jornalismo
independente de governos e do mercado, construído a partir de critérios
rigorosos de objetividade. Mas parece que este objetivo não é perseguido
pela Fundação Padre Anchieta, que optou por terceirizar uma de suas
principais atividades-fim. Tal opção editorial, feita sem qualquer
critério, afeta a dimensão e o caráter público do serviço de comunicação
prestado pela TV Cultura. Sim, porque estamos falando de uma
concessionária de radiodifusão, que pela Constituição brasileira tem uma
série de obrigações a cumprir, sobretudo em se tratando de uma emissora
pública.
O fato de terceirizar sua grade para uma empresa
privada que produz jornais impressos distancia ainda mais a programação
da TV Cultura daquela que se espera de uma televisão pública. No
jornalismo impresso, os veículos gozam de ampla liberdade editorial. O
jornal Folha de S.Paulo não é obrigado, por exemplo, a seguir princípios
editoriais que uma TV pública precisa perseguir. Ao trazer o TV Folha
para dentro da grade da TV Cultura, a Fundação Padre Anchieta abre
espaço, de forma acrítica, para os valores privados desta empresa
comercial, descaracterizando seu caráter público.
O problema se
torna ainda mais sério quando se analisa os objetivos do Grupo Folha com
a parceria. Em entrevista ao Portal Imprensa, concedida na época da
assinatura do acordo, o diretor do jornal deixou claras as razões
comerciais da empresa em expandir seu TV Folha - veiculado inicialmente,
em formato diverso, na internet - para a TV aberta. Para Sérgio
D´Ávila, a parceria “trará a possibilidade de a marca Folha alcançar seu
público no maior número possível de mídias. (...) O jornal continua
firme no propósito de levar seu conteúdo de qualidade a um número
diversificado de plataformas, e chegar à TV parece um passo natural”. Ou
seja, ao abrir seu espaço para a TV Folha, a TV Cultura serve a uma
estratégia comercial, de reforço da marca e busca por aumento de lucros
de um jornal de grande circulação nacional.
João Sayad não vê
problemas nisso. Pelo contrário, tanto que já convidou o jornal O Estado
de S.Paulo para ocupar espaço equivalente. Durante a audiência pública,
afirmou que a parceria "faz todo sentido" e que é "uma oportunidade da
emissora ter um jornalismo reconhecido como o da Folha". Afinal, como
disse, a TV Cultura "não tem linha editorial", o TV Folha "é produção
independente", "são só 30 minutos dentro de uma programação de 5 horas
semanais de jornalismo" e "o programa traz audiência".
Dados do
Ibope e da própria TV Cultura mostram, no entanto, que a audiência no
horário do TV Folha caiu, se comparada com as semanas anteriores do
Cultura Documentários, veiculado no mesmo horário da grade. Mesmo que a
audiência tivesse crescido, o problema persistiria.
Diversidade e pluralidade perdem para valores de mercado
Em emissoras
públicas - e esta também é uma questão consolidada em todos os países
com fortes sistemas públicos de comunicação - os índices de audiência,
especialmente os mais utilizados (absoluto e de participação no
mercado), devem ser lidos como apenas um dos indicadores da qualidade da
programação veiculada. O mundo todo sabe que, se a lógica da audiência
prevalece, ao ter que escolher entre dois programas, uma emissora
acabará deixando de lado valores como diversidade e pluralidade para
atrair mais público. A atenção do espectador será colocada em primeiro
plano diante da relevância para o interesse público do que está para ser
veiculado.
João Sayad afirmou que não quer "audiência a todo
custo", mas esta foi a tônica de sua fala. Se orgulhou ao dizer que, no
mês de maio, a Cultura foi a 5a TV aberta em audiência no estado de São
Paulo. E, ao ser criticado pela deputada Leci Brandão por ter colocado o
programa Manos e Minas na fila dos cortes do projeto de reestruturação,
com prejuízos enormes para a diversidade no conteúdo da emissora,
respondeu: "como administrador, tenho que me preocupar com a audiência. E
a audiência do Manos e Minas é muito baixa".
Num mar de
contradições, o diretor-presidente da Fundação Padre Anchieta afirmou
que o jornalismo da TV Cultura "não persegue o hard news nem macaqueia o
que já saiu em outros veículos". De fato, quem faz isso não são os
jornalistas da TV Cultura. É o TV Folha, que ocupa sua grade. Sayad
também disse que gostaria de ter conseguido incluir na agenda de
cobertura da emissora a discussão sobre grandes temas, mas justificou
dizendo que "nosso país, e o mundo em geral, vão mal, então não
conseguimos até agora". Mas não era a TV Cultura que, segundo ele, não
perseguia o hard news?
Faltou explicar também como a Fundação
Padre Anchieta conseguiu "aumentar em 20% as horas de produção própria
com redução de 30% dos funcionários". Em documento entregue ao Conselho
Curador da Fundação Padre Anchieta, dezenas de organizações da sociedade
civil, movimentos sociais, sindicatos, jornalistas e ex-funcionários da
emissora denunciam mais de mil demissões na gestão Sayad, entre
contratados e prestadores de serviço; a aniquilação das equipes da Rádio
Cultura; e o estrangulamento da equipe de jornalismo e radialismo.
Fantasma das demissões
Segundo
o Sindicato dos Radialistas de São Paulo, setores como a cenografia
foram todos terceirizados, as rádios estão para fechar e o número de
funcionários com depressão é grande. O fantasma das demissões também
continua rondando a Cultura, que espera decisão do STF para saber se
será obrigada a contratar todos os funcionários por concurso público. Se
a decisão foi positiva, pode haver novas demissões sumárias na
Fundação.
Sayad, que é contrário ao regime estatutário para os
funcionários da Padre Anchieta, disse na audiência que a administração
trabalhista da Fundação era negligente, mas que agora "quase tudo está
resolvido". Um dos poucos problemas em aberto seria a intransigência da
CLT em garantir uma hora de almoço para os jornalistas dentro da jornada
de trabalho. "Parece que jornalista é bóia-fria ou peão de obra e
precisa fazer uma hora de almoço", disse.
Ele afirmou que novas
demissões não estão em debate. As últimas se deram porque a Cultura
comprou um novo equipamento e pode dispensar 40 editores. "Política de
emprego é coisa do Banco Central, não é missão nossa", sentenciou.
"Mantivemos toda a linha de programação, renovando o conteúdo e
aumentando o resultado. Isso é o mais importante", acredita. E mandou os
deputados assistirem à TV Cultura antes de fazerem tamanhas críticas.
A
extinção de programas como Zoom, Vitrine, Cultura Retrô, Grandes
Momentos do Esporte e Login revelam, ao contrário do que a direção
afirma, que houve perda na capacidade de produção própria em função das
opções administrativas e da grande quantidade de demissões realizadas.
Mas o que ficou claro para todos que participaram da audiência pública
na Assembléia Legislativa foi a falta de clareza de um projeto de
desenvolvimento e fortalecimento da única emissora pública paulista.
Enquanto
a direção e também o Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta
continuarem pouco ou nada abertos ao diálogo, beirando a arrogância em
muitos momentos, a diversidade e pluralidade que caracterizam o povo
paulista seguirão do lado de fora dos muros da Rua Cenno Sbrighi, 378.
Frente ao papel histórico de referência de produção de qualidade que tem
as rádios e a TV Cultura, a opção é desastrosa. Como disse o deputado
João Paulo Rillo, uma emissora pública que depende do TV Folha para
conquistar audiência está no mau caminho.
(*) Bia Barbosa é
jornalista, mestranda em gestão e políticas públicas pela FGV e membro
do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.
Núcleo
Piratininga
de Comunicação
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