Trabalhadores
Algo de novo no reino das Universidades Federais?
Publicado em 31.05.12 - por Marcelo Badaró Mattos
 Marcelo Badaró Mattos - professor da UFF São muitas vezes surpreendentes os caminhos que levam a movimentos
coletivos como as greves. Quem poderia prever que depois de sete anos
sem qualquer greve nacional unificada as Instituições Federais de Ensino
Superior viveriam uma nova greve nacional e com tanta força que recebeu
em poucos dias a adesão dos(as) docentes de 44 instituições, incluindo
praticamente todas as que foram criada nesses últimos anos e a maior
parte das grandes federais mais antigas, como a UFRJ, UFF, UNIRIO e
UFRRJ (para ficar no exemplo das do Rio de Janeiro)? Quem poderia dizer
que nas novas instituições e nos novos campi das antigas, fruto do tão
propagandeado processo de expansão formatado pelas regras do REUNI*,
surgiriam os setores docentes e discentes mais mobilizados para esse
enfrentamento? Como imaginar que até naquelas instituições em que surgiu
e implantou-se uma representação docente de caráter oficialista – o
PROIFES –, cujo objetivo evidente é conter as lutas da categoria, fossem
ressurgir movimentos autônomos das(os) docentes, convocando
assembleias, contrariando direções pelegas e construindo também lá a
mobilização (e ao que parece em breve a greve)? Quem apostaria que nas
Instituições Federais de Ensino Superior, que por certo forneceram
muitos votos ao atual governo federal na expectativa de manutenção da
política de expansão e dos reajustes salariais anuais, tão forte e
resoluta fosse a adesão a um movimento acusado pelo governo e os
governistas de ser fruto de uma mera manipulação política de setores
oposicionistas?
A dinâmica dos conflitos sociais nos reserva surpresas,
mas não nos dispensa de compreendê-las. Porque uma greve tão forte
emergiu nestes últimos dias? Para entendê-lo é necessário reconhecer que a
pauta do movimento, curta e direta, representa de fato uma forte
insatisfação. A pauta: uma reestruturação da carreira docente e a
melhoria das condições de trabalho. Sobre a carreira, a questão é
simples: após 25 anos de aprovação do Plano Único que passou a reger a
carreira docente, em 1987, sucessivas políticas salariais para a
Universidade depreciaram e desestruturaram a carreira.
O
que se reivindica é, basicamente, uma única linha de vencimento nos
contracheques (com a incorporação das gratificações e o entendimento do
percentual de titulação como parte do vencimento), com 13 níveis, steps
(percentuais entre os níveis) de 5%, acesso interno à carreira ao nível
de Professor Titular, com paridade entre ativos e aposentados e isonomia
entre professores(as) da carreira do magistério superior e da carreira
de ensino básico, técnico e tecnológico.
O piso para
professor 20h no início dacarreira seria de R$ 2.329,35 (um salário
mínimo do DIEESE, calculado com base nas necessidades mínimas de um
trabalhador e sua família, conforme dita a Constituição). O governo
acena com uma carreira mais desequilibrada em termos salariais, com um
piso baixíssimo e promoções atreladas a critérios produtivistas, visando
diferenciar um pequeno contingente melhor remunerado (por projetos e
pela atuação em pós-graduações) e uma imensa maioria de docentes
sobrecarregados com a elevação da carga de trabalho em sala de aulas de
graduação.
Já quanto às condições de trabalho, cinco anos
após o início do REUNI, as instituições federais criaram centenas de
novos cursos e ampliaram em dezenas de milhares as suas vagas de
ingresso discente. O governo, entretanto, não garantiu até agora nem
mesmo o relativamente (à ampliação das matrículas) pequeno número de
concursos públicos para docentes com o qual se comprometeu em 2007. As
obras de expansão carecem de verbas para sua complementação, gerando
ausência de laboratórios, bibliotecas e salas de aula nas novas
unidades, assim como superlotação nas antigas. Some-se a isso a enorme
deficiência no campo da assistência estudantil, cada vez mais necessária
na medida em que entre os novos estudantes tendem ingressar
contingentes cada vez maiores de trabalhadores(as) e filhos(as) de
trabalhadores(as), sem condições de arcar com os custos de transporte,
moradia, alimentação e material didático minimamente necessários para a
vida universitária. A greve pode ter colhido a muitos(as)
de surpresa, mas está longe de ser um fenômeno de difícil explicação.
Professores e professoras (e estudantes que aderem ao movimento em
muitas universidades) optaram por esse instrumento de luta porque estão
conscientes de sua necessidade diante da deterioração de sua carreira e
das condições de trabalho. E perceberam que ou freiam agora o desmonte,
ou serão arrastados ao fundo do poço em poucos anos. Greve? Tão
logo a greve foi anunciada, surgiram de imediato combatentes antigreve
no interior das Universidades. Seus argumentos não são novos para quem
já viveu outros processos grevistas. Vale rebatê-los apenas para
relembrar aspectos do passado recente das lutas em defesa da
Universidade Pública que podem escapar aqueles(as) que a elas se
integraram nos últimos anos. Greves paralisam só as graduações e
prejudicam apenas os estudantes de graduação? Tal argumento foi usado
principalmente a partir dos anos 2000, quando a pressão das agências
financiadoras/ avaliadoras sobre as pós-graduações para cumprirem metas
produtivistas gerou um núcleo de docentes que assumiu internamente (ou
como membros de comitês das agências) o papel de feitores da
produtividade coletiva, alardeando o pânico dos prazos e metas ante
qualquer rumor de questionamento. As greves
tradicionalmente pararam aulas de graduações e pós e podem continuar a
fazê-lo. Prejudicam os estudantes? Momentaneamente prejudicam
estudantes, professores e técnico-administrativos que as fazem, é óbvio,
mas significam justamente o sacrifício de um calendário regular de
atividades (com os prejuízos materiais e pessoais que isso pode
representar) em nome de um projeto maior de Universidade Pública. Assim
evitamos a cobrança das mensalidades, com a greve de 1982; garantimos os
direitos dos professores precariamente contratados ao longo da
ditadura, com as greves da primeira metade dos anos 1980; conquistamos a
isonomia entre instituições fundacionais e autárquicas e a carreira
docente, com a greve de 1987; descongelamos as vagas para concursos
docentes, com a greve de 2001; barramos ou derrubamos diversas propostas
e práticas desastrosas para o caráter público e a qualidade do trabalho
universitário (projeto GERES; propostas de “regulamentação” da
autonomia; efeitos da reforma do Estado; carreira de “emprego público”;
gratificações produtivistas, quebras de isonomia e paridade e etc.), e
preservamos minimamente os salários (que ainda assim perderam muito do
seu valor de compra ao longo dos anos). Estivemos longe de
fazer greves meramente corporativistas, pois sempre pautamos a garantia
da qualidade do trabalho de ensino, pesquisa e extensão nas
universidades, o que foi sempre reconhecido pelos(as) estudantes, muitas
vezes com greves conjuntas, como a que já ocorre agora em diversas
universidades. Seriam os(as) estudantes tolos(as), que apoiam algo que
lhes prejudica tanto assim? Ou o discurso que os vitimiza em relação à
greve é apenas uma artimanha de desqualificação do movimento e da
consciência estudantil? Desqualificar as mobilizações de trabalhadores e
de estudantes, qualificando-as como produto de minorias e forças
“estranhas” (partidos, sindicatos, intenções políticas oposicionistas)
ao corpo social – universitário neste caso –, é aliás uma das
estratégias recorrentes nos argumentos antigreve dos setores
conservadores. Um recurso retórico em tudo congruente com a longa
trajetória de desqualificação da população trabalhadora pelo discurso
das classes dominantes, que no Brasil sempre apontaram as “ideologias
alienígenas” (anarquistas, comunistas, sindicalistas, ou o que seja)
como responsáveis pelas perturbações à ordem, através da “manipulação”
de grupos tomados como “massas de manobra”, enquanto a maioria do “povo”
– “ordeiro e pacífico” (claro!) – assistiu a tudo indiferente, quando
não “bestializado”. Teriam tanta força nas Universidades
Federais dois ou três partidos de oposição de esquerda ao governo, que
juntos somaram cerca de 1% na última eleição, para manipularem segundo
seus interesses políticos dezenas de milhares de docentes? São as(os)
docentes universitárias(os) tão parvos assim? E as(os) estudantes
também? Se o Sindicato Nacional é tão carente de representatividade, por
que reúne um contingente tão significativo de associados em suas
sessões sindicais? Porque assembleias supostamente “ilegítimas” reúnem
cada uma centenas de professores(as), que trocam informações, avaliam a
situação, discutem e se posicionam coletivamente? Por certo que o
questionamento à legitimidade vem sempre acompanhado de tentativas de
profecias auto-realizáveis: “não vou à assembleia porque ela é ilegítima
e tem pouca participação” (e não indo, contribui-se para fazer menor a
participação e assim arguir sua legitimidade). O que vem muitas vezes
acompanhado de uma fala ainda mais autocentrada de questionamento dos
espaços coletivos de deliberação, não por cercearem a palavra, mas por
aprovarem posturas contrárias às do indivíduo que questiona: “Já fui
muito, mas desisti, pois o espaço é antidemocrático, já que toda vez que
falei contra a greve perdi as votações”.Há argumentos mais falaciosos,
como o de que as greves não geram resultado algum ou que esvaziam a
Universidade dificultando o debate e a mobilização, ou ainda que
docentes recebemseus salários quando fazem greve. Difícil tomá-los como
simples fruto de diferentes visões políticas, pois falseiam a realidade. A
história das greves docentes está sendo cada vez mais pesquisada e
diversos trabalhos acadêmicos já fizeram o balanço e avaliaram a
importância desses movimentos nas últimas três décadas. Um quadro
sintético dos resultados das greves nas Instituições Federais pode ser
consultado em http://www.sedufsm.org.br/index.php?secao=greve. As greves
sempre potencializaram o debate – interno às Universidade e público –
sobre as políticas para o ensino superior no país e parar a atividade
universitária é o único meio de garantir mobilizações multitudinárias
nas ruas. Que debate sobre o ensino superior estão fazendo os antigreve
em suas aulas cotidianas? De que mobilizações em defesa da Universidade
Pública estão participando enquanto dão suas aulas? Já quanto aos
salários, não seria absurdo que o direito de greve fosse respeitado e os
salários pagos, mas todos(as) se lembram de como em diversas greves que
ultrapassaram um mês de duração os salários foram cortados (cuidado! O
governo corta os salários de todo mundo, inclusive dos(as) que continuam
dando aulas!), como na greve de 2001, em que dois meses foram
sucessivamente cortados e só pagos depois que as mobilizações da greve
arrancaram decisões judiciais favoráveis em meio a “guerras de
liminares”. Não é difícil entender as motivações dos(as)
que se propõem a furar uma greve (fura-greves pode ser um “conceito
nativo” com conotação negativa, como pelego, mas é compartilhado por
todos os estudiosos dos fenômenos grevistas nas Ciências Humanas e
Sociais, porque corresponde ao que expressa). Em alguns casos,
acomodam-se a – e reproduzem – determinadas situações de poder; em
outros estão por demais enredados em mecanismos de apropriação privada
de recursos através da Universidade Pública (como cursos pagos e
consultorias); algumas vezes apenas estão aferrados a defesa do governo
de “seu” partido. Outras vezes, um pouco de tudo isso está presente. Fazer a greve As
respostas mais significativas aos antigreve sempre foram construídas
pelos próprios movimentos e seus resultados objetivos. Não se trata de
docentes que não aprenderam com as lições do passado, mas de deliberada
retomada de argumentos desgastados para marcar posição e construir a
rede de reverberação interna às arengas conservadoras tradicionais dos
governos e da mídia.
No entanto, greves fortes e participativas, como
esta está se desenhando desde o começo, atropelam sem maiores problemas
tais tentativas de deslegitimação da luta coletiva.Não há como prever os
resultados finais da greve, mas desde já se podem perceber algumas
conquistas significativas. Docentes e estudantes que ingressaram nos
últimos tempos nas Universidades participam ativamente de um movimento
coletivo e sentem-se parte de uma comunidade universitária que pode sim
atuar unida em torno de pautas comuns.
No reino do individualismo, da
concorrência e do produtivismo, ouve-se um coro de vozes falando como
uma só, fazendo ecoar cantos de solidariedade, dignidade, coletividade e
consciência de classe. Nessa toada – de uma greve apoiada pela maioria
da categoria dada a justiça de suas reivindicações e que ganha do apoio à
adesão dos estudantes pelo aspecto da defesa da Universidade Pública e
da qualidade do ensino – estamos diante da construção de um movimento
suficientemente forte para gerar repercussão pública, apoio social e,
com essas condições, dobrar o governo e garantir ganhos efetivos.
Transformar esse potencial em realidade é o que nos cabe a partir de
agora.
* O Reuni é um programa de expansão,
instituído em 2007 por decreto pelo governo Lula da Silva, que previa
(mas não garantia) um pequeno aporte de novos recursos para
investimentos nas universidades federais e alguns concursos para novos
docentes em troca da expansão de vagas/matrículas/cursos para estudantes
em até o dobro das existentes, cumprimento de metas de produtividade
(elevação da relação professor-aluno e do percentual de formados entre
os ingressantes) e a conversão dos novos cursos superiores num modelo de
formação mais rápida, em dois ou três anos e sem habilitação
profissional precisa. Marcelo Badaró Mattos é professor de História da Universidade Federal Fluminense
**Conteúdo originalmente publicado no site da SEDUFSM | www.sedufsm.org.br
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