Trabalhadores
Revolução e luta sindical no Egito
Por Aldo Sauda*
A
revolução no Egito, que começou no dia 25 de janeiro de 2011 e está
longe de terminada, possui histórias não contadas na grande imprensa.
Todos
sabem dos jovens, com internet e celulares modernos nas mãos, que
participaram da derrubada do ditador egípcio Hosni Mubarak.
Infelizmente, a outra parte da historia, a dos milhões de trabalhadores e
trabalhadoras que através do instrumento da greve geral derrubaram o
regime, é muito pouco conhecida no Brasil. Se não fosse pela greve geral, que literalmente parou todo país, muito provavelmente Mubarak ainda seria presidente do Egito. A revolução anti-neoliberal
Alguns
meses antes da revolução, toda a imprensa e burguesia internacional
olhava para o Egito como um grande exemplo para o mundo. Seu PIB
(Produto Interno Bruto), considerado principal índice medidor da
economia, crescia por volta de 7% ao ano. De longe, o país parecia uma
maravilha. Porém, enquanto a economia crescia e a burguesia ficava mais
rica, os trabalhadores, que viram quase todos seus direitos desaparecer
durante estes mesmos anos, foram apenas se empobrecendo. A
ditadura egípcia, com ajuda do governo norte-americano, privatizou boa
parte da economia do país. Se antes a economia era quase inteiramente
estatal, os anos 2000 viram o Egito se juntar às outras economias
neoliberais do mundo. Em pouco tempo, aquilo que antes era de todos
passou para as mãos de alguns. Além
de privatizar, a ditadura também retirou direitos básicos do
trabalhador, como o salario mínimo e garantias de aceso a serviços
públicos. O projeto dos grandes empresários e do capital internacional
eram claros; transformar o Egito na China africana: um país sem direitos
sociais dirigido pelo grande capital internacional. De greve em greve, por dentro e por fora dos sindicatos O
acenso dos trabalhadores egípcios, que eventualmente culminou na
derrubada do regime, teve início entre os operários da industria tecelã
em 2006. Revindicando o pagamento de bônus atrasados e melhores
condições de trabalho, a greve vitoriosa dos tecelões foi a primeira
grande mobilização da classe trabalhadora no país após décadas de
descenso. Para
controlar o operariado, o governo egípcio fazia com que todos os
sindicatos do país fossem dirigidos por sindicalistas pelegos, ligados
ao partido do governo. O controle dos sindicatos se dava pela central
sindical ligada ao partido do governo, que era a única permitida a
funcionar antes da revolução. Foi
a partir da organização de greves por fora da estrutura sindical que a
classe trabalhadora egípcia iniciou o ascenso politico que derrubou
Mubarak. A greve dos tecelões em 2006 é um exemplo perfeito disto.
Enquanto a direção pelega se colocou contra a greve, os trabalhadores e
suas verdadeiras lideranças decidiram parar as fábricas independente da
vontade da direção sindical. De
2006 a 2011, a quantidade de greves no Egito foi dobrando de ano em a
no. Petroleiros, Químicos, Portuários, servidores públicos, professores e
trabalhadores da saúde, foram, de ano em ano, aumentando cada vez mais
suas mobilizações. Em setembro de 2010, alguns meses antes do inicio da
revolução, a classe trabalhadora egípcia já organizava a maior
mobilização dos trabalhadores de toda a historia do mundo árabe. O exemplo da Tunísia
Quando
o povo da Tunísia, também com participação central do movimento
operário de lá, derrubou em menos de um mês o ditador tunisiano Ben Ali,
todos os países árabes pararam para assistir. A mensagem enviada da
Tunísia, que sofria dos mesmos problemas econômicos que o Egito, foi
clara. O povo organizado na rua consegue derrubar qualquer governo que
quiser. No
dia 25 de Janeiro de 2011, 11 dias depois da derrubada do ditador da
Tunísia, a juventude egípcia, cansada de desemprego, baixos salários,
pobreza e injustiça social, tomou as ruas do Cairo, capital do país,
para derrubar o ditador Hosni Mubarak. Do
dia 25 ao dia 28, o país foi marcado por embates campais entre os
jovens e a policia. Todos os dias, milhões tomaram as ruas para
protestar contra o regime corrupto. Delegacias foram incendiadas, carros
de policia queimados e os presos políticos soltos das prisões pelo
povo. O Egito iniciava uma revolução. As
lutas na rua, porém, não foram o suficiente para derrubar a ditadura.
Manifestações de massa e o enfrentamento com a policia são instrumentos
políticos importantes, mas sem que se pare o todo da economia de um
país, dificilmente uma revolução se faz vitoriosa. Os
trabalhadores egípcios, que junto com os estudantes e jovens
desempregados se manifestavam quase todos os dias, iam aos protestos,
inicialmente, enquanto indivíduos. Foi
apenas após quase uma semana de protestos, que os trabalhadores viram
que a revolução pouco se diferenciava de suas lutas do dia a dia por
melhores condições de vida. A partir daí, deixaram de agir enquanto
indivíduos lutando contra o sistema para agirem enquanto classe social. No
dia 2 de fevereiro, a liderança operaria, que pelo lado de fora dos
sindicatos pelegos vinha organizando a luta dos trabalhadores, decidiu
fundar uma central sindical independente dos patrões e do gov erno. Logo
em seguida, declararam a greve geral. O objetivo da greve era claro;
fim do regime ditatorial, da central pelega ligada ao partido do governo
e do neoliberalismo no Egito. Frente
a mobilização da classe trabalhadora, a burguesia, junto aos militares,
viram que a situação no Egito era insustentável. Ou sacrificavam
Mubarak, entregando o anel, ou correriam o risco de perder toda a mão. A
aliança da juventude com os trabalhadores podia muito bem atingir os
soldados e jovens oficiais do exercito. A possibilidade de que os
soldados voltassem as suas balas contra Mubarak seus generais, avançando
ainda mais a revolução, aterrorizou a burguesia e os generais. No dia 11 de fevereiro de 2011, sob temor do avanço da revolução, os generais egípcios depuseram o ditador Hosni Mubarak. Apear
dos trabalhadores e dos jovens não terem assumido o poder, a derrubada
do ditador, mesmo que por seus antigos aliados, foi uma vitoria
histórica pra classe trabalhadora árabe! A luta continua! Apesar
das promessas dos generais de entregar o poder para o povo, a classe
trabalhadora egípcia, ao lado da juventude, sabe de que lado esta a
junta militar que agora governa o país. Junto a burguesia e os
religiosos islâmicos, o exercito tem se mobilizado para impedir o avanço
da revolução. Enquanto dizem estar ao lado do povo, reprimem os jovens e
atacam as greves, que não param de crescer no Egito. Após
a queda de Mubarak, a nova central que organizou a greve geral passou
não só a crescer exponencialmente na base, como a ganhar diversos
sindicatos, até então controlados pelos pelegos. Hoje, um ano após a
revolução, a nova central possui mais de 2 milhões de trabalhadores em
sua base. O
mês de setembro de 2011, foi um mês particularmente positivo para a
classe trabalhadora. Uma serie de greves, organizadas pela nova central,
parou o país. As greves de setembro foram as primeiras a contar com um
processo real de coordenação nacional, conseguindo paralisar por volta
de 700 mil trabalhadores. O
mês de setembro viu professores exigindo aumento salarial, portuários
exigindo melhores condições de trabalho, trabalhadores do transporte
exigindo o fim dos contratos temporários... enfim, a classe trabalhadora
exigindo seus direitos. A
revolução no Egito e principalmente a organização da classe
trabalhadora, representa as esperanças de todo o Oriente Médio pela
construção de um novo mundo, sem oprimidos nem opressores. Para isto,
porém, muito trabalho de organização da classe ainda será necessário.
Novas batalhas virão, tanto contra a burguesia e os militares, que
continuam no poder, como contra o imperialismo americano e europeu. A
luta, ou melhor, a revolução, continua. Assista aqui à mobilização *Aldo Sauda - é jornalista brasileiro. Vive no Cairo desde início dos protestos.
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