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Caju-Una: terra do cachorro sem nome
Publicado em 25.01.12 - Por Cristian Góes*
Finalizo, pelo menos neste espaço, uma série de textos publicados em primeira pessoa (fora do estilo comum da coluna), sobre uma viagem de trabalho que fiz pelo interior do Pará no final do ano passado. Desta vez puxei da memória a trivial vida de um cachorro que conheci por lá e que mereceu destaque em minhas anotações.
Diferente dos três textos anteriores, onde as personagens eram seres humanos, este busca revelar um cão. Ele sequer tem nome, dono e nem se sabe sua origem. Mas existe. Garanto. É de carne, osso e alma. Tem endereço e lá pode ser encontrado. Em quase todas as fotos que fiz em uma praia na comunidade de Caju-Una, na Ilha do Marajó, ele fazia questão de se posicionar em frente à câmera.
Quem leu nesse espaço o relato sobre Bia, a menina que se veste de sol, lembra do caminho que tive que percorrer para chegar à comunidade do Céu, um misto de praia isolada e mata fechada no município de Soure, Ilha do Marajó. Seis horas de barco de Belém. Ao lado do Céu, outra comunidade, Caju-Una. Nesta última, fui parar atendendo um convite irresistível de Bia. Segui seus passos. Um pescador do lugar, seu Aluízio, acompanhou-nos.
Assim como no Céu, em Caju-Una são cerca de 20 palafitas, todas pintadas e enfileiradas. Não há água encanada, luz elétrica e nem saneamento. Lá, chama atenção a praia. Beleza extraordinária. Impossível não se encantar. Através de uma curta trilha por entre uma vegetação densa que protege as casas dos fortes ventos, chega-se na praia. Ali se sente a força das ondas do rio Paracauari. Quase nenhuma árvore fica em pé diante de seu poder.
Naquela área várias canoas e barcos de bom tamanho já viraram. Há relatos de mortes. No entanto, não foi aquele cenário que ganhou meu olhar, mas a presença constante de um cachorro que ali vive. Sozinho. Um vira-latas legítimo. Bonito, de pelo curto, orelhas simétricas, bom porte. De cor preta predominante, mas com algumas manchas em branco no peito e nas patas.
Assim que atravessamos a trilha e colocamos os pés na areia, do nada (ainda do mato, sei lá) surgiu aquele cachorro em minha frente. Não latiu nem esborçou qualquer reação diante das minhas: receio e medo mesmo. Sentado elegantemente ele nos olhava. Aluízio avisou: “não tenha medo. Ele não faz nada. Só acompanha”. Desconfiado, coloquei-me entre o pescador que ia à frente e Bia, atrás de mim. De nada adiantou.
Imaginava que seu Aluízio tinha dito que o cachorro ia “acompanhar” como uma forma de dar tranquilidade. Na verdade, o cachorro colou em mim e a qualquer passo meu, quatro dele. Eu parava. Ele também. Parecia eu o seu dono. Sem latir e sem nenhuma reação agressiva, muito pelo contrário, o cão literalmente me acompanhav alegre e satisfeito. O balançar frenético de seu rabo não me fez pensar outra coisa.
Como há muitas árvores caídas na areia e elas formam – na minha visão – esculturas, resolvi fotografá-las. Mas era só apontar a câmera que o cachorro se posicionava em frente ao objeto a ser fotografado. Era impressionante. Só consegui fazer algumas fotos sem ele na cena porque eu o cortava do campo visual. Ele não deu trégua um segundo. Aonde eu ia, lá estava ele, colado aos pés e muito atendo aos meus movimentos.
Intrigado com aquele cachorro fiquei sabendo, por seu Aluízio, que aquele animal era um ministério em Caju-Una. Apareceu não se sabe como ali. Não tem nome, não pertence a ninguém e nunca se deixou colocar coleira. Passa os dias e noites na praia. Só. Às vezes, rapidamente vai na comunidade. Alguém o alimenta e ele logo retorna à praia. De fato, quanto retornamos à comunidade, pelo mesma trilha que passamos, o cachorro parou e lá ficou, na praia. Sozinho.
No caminho para o Céu, onde estava o Chevet que nos levou, paramos na casa de um tio do Aluízio, talvez o mais velho pescador de Caju-Una. Seu Tonho (deve ser Antônio), sentado na escada de sua palafita puxou prosa rápida e acabou falando da praia. Chamava atenção que o rio tem avançado com mais força. Aproveitei, quase no impulso, e disse da curiosidade do cachorro, que ninguém sabe de quem é, que me seguiu, que estava em todas as fotos, etc, etc e etc.
Seu Tonho, ajeitando com cuidado o fumo na palma da mão, ascendeu uma luz, ao seu modo, na história. Ele diz que o cachorro era de um pescador de Salvaterra, um município do Marajó, próximo dali. O animal foi o único sobrevivente de uma virada de canoa faz quatro anos. Nadou até a praia e ficou esperando que seu dono chegasse também. O que nunca vai acontecer. “Não tem quem tire ele de lá. Vai morrer ali”, sentenciou seu Tonho já com o cigarro no canto da boca. Nas despedidas, o velho sai com essa: “Quem sabe não apareceu nos seus retratos para ver se o dono não reconhece ele por aí e vem buscar...coitado”.
*Cristian Góes é jornalista
Núcleo
Piratininga
de Comunicação
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