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Os benefícios dos agrotóxicos no "Mundo de Veja"
A revista Veja afirma que chamar os venenos da agricultura de "agrotóxicos" seria uma imprecisão ultrapassada
Publicado em 19.01.12 - Por Flávia Londres*, na Radioagência NP
A revista Veja publicou uma matéria buscando "esclarecer" os brasileiros
sobre os alegados "mitos" que vêm sendo difundidos sobre os agrotóxicos
desde a divulgação pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância
Sanitária), dos dados Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em
Alimentos referentes ao ano 2010. A revista se propõe a tranquilizar a
população, certamente alarmada pelo conhecimento dos níveis de
contaminação da comida que põe à mesa.
Os entrevistados na matéria são conhecidos defensores dos venenos
agrícolas, alguns dos quais com atuação direta junto a indústrias do
ramo – como é o caso do Prof. José Otávio Menten, que já foi diretor
executivo da ANDEF (Associação Nacional de Defesa Vegetal), que reúne as
empresas fabricantes de veneno.
A revista afirma que chamar os venenos da agricultura de "agrotóxicos"
seria uma imprecisão ultrapassada e injustamente pejorativa, alertando
os leitores que “o certo” seria adotar o termo "defensivos agrícolas".
Não menciona que a própria legislação sobre a matéria refere-se aos
produtos como agrotóxicos mesmo.
A Veja passa então para a relativização dos resultados apresentados pelo
relatório do Programa de Análise, elaborado pela Anvisa,
fundamentalmente minimizando a gravidade da presença de resíduos de
agrotóxicos acima dos limites permitidos. Para isso, cita especialistas
alegando que os limites seriam "altíssimos", e que, portanto, quando "um
pouco ultrapassados", não representariam qualquer risco para a saúde
dos consumidores.
A verdade é que a ciência que embasa a determinação desses limites é
imprecisa e fortemente criticada. Evidência disso é o fato de os limites
comumente variarem ao longo do tempo – à medida que novas descobertas
sobre riscos relacionados aos produtos são divulgadas, os limites tendem
a ser diminuídos. Os limites "aceitáveis" no Brasil são em geral
superiores àqueles permitidos na Europa – isso pra não dizer que aqui
ainda se usa produtos já proibidos em quase todo o mundo.
A revista também relativiza os riscos de longo prazo para a saúde dos
consumidores, bem como os riscos para os trabalhadores expostos aos
agrotóxicos nas lavouras. Mesmo diante de tantas provas, a Veja alega
que, não haveria comprovações científicas nesse sentido.
A reportagem termina tentando colocar em cheque as reais vantagens do
consumo de alimentos orgânicos, a eficácia dos sistemas de certificação e
mencionando supostos "riscos" do consumo de orgânicos. A revista alega
que esses alimentos "podem ser contaminadas por fungos ou por bactérias
como a salmonela e a Escherichia coli." Só não esclarece que, ao
contrário dos resíduos de agrotóxicos, esses patógenos – que também
ocorrem nos alimentos produzidos com agrotóxicos – podem ser eliminados
com a velha e boa lavagem ou com o simples cozimento.
Da revista Veja, sabemos, não se poderia esperar nada diferente.
Trata-se do principal veículo de comunicação da direita conservadora e
dos grandes conglomerados multinacionais no País. Mas podemos destacar
que a publicação desse suposto "guia de esclarecimento" revela que o
alerta sobre os impactos do modelo da agricultura industrial está se
alastrando e informações mais independentes estão alcançando mais
setores da população – ao ponto de merecerem tentativa de desmentido
pela Veja e pela indústria.
*Flavia Londres é engenheira agrônoma e consultora da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia.
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